E M P L A Q U E I 7 8 - por Anchieta Antunes

E M P L A Q U E I    7 8  - por Anchieta Antunes

 E  M  P  L  A  Q  U  E  I      7  8

 

            Hoje completei meus 78 anos de superfície. Tem sido uma aventura espetacular, fantástica, maravilhosa, mais parece um desenho animado da Disney, com muitas cores, personagens, movimentos endiabrados nas selvas, nos rios, cascatas encantadas, com águas mágicas e resultados inesperados.

            Foram 78 anos de peregrinação incansável, com diabruras e aventuras indescritíveis, com perigos e lances arrebatadores. Ainda bem que sempre fui mui amigo do “Diretor” ( Deus ), e Ele sempre me salvou nos últimos instantes da ação que vinha se desenrolando nas encostas da montanha “inescalável”.

            Sempre tive a vantagem da imaginação fértil, e um incrível desejo de fazer coisas que me pareciam impossíveis, de percorrer corredores escuros à procura daquela coisa que nunca havia perdido, mas, quem sabe, um dia iria encontrar junto à pedra filosofal. Não queria transformar chumbo em ouro; minha vontade era conseguir derramar da sacola de couro aquele pozinho dourado de onde surgiriam os sete anões, a Branca de Neve, o Peter Pan, e seu inseparável Capitão Gancho. Queria participar da alegria dos meninos nos cinemas, estando eu interagindo com os personagens principais dos desenhos, como se tivesse me incorporado às cores, aos movimentos e pantominas dos atores desenhados pelos artistas dos pincéis, do desenho, da criatividade lúdica.

            Queria voar ao lado de pássaros alegres e sorridentes, de papagaios e andorinhas estilizadas e falantes, alegres, sempre que o dia surgia cheio de brilho primaveril. Olhar de cima pra baixo e ver as águas da cachoeira despencando qual brocado em penachos de prata reluzentes ao sol.

            Queria andar ao lado e em confabulações filosóficas com leões cordatos e cordeiros marrentos, sempre buscando a verdade nas folhas, nas pétalas e nas lágrimas das “Damas da Noite”, no vértice do encantamento, quando buscamos as verdades da vida. Tudo colorido, tudo dançante nas notas das valsas plangentes tocadas nos violinos sonhados pelas mentes criativas de um grupo de crianças adultas pintando a existência colorida e ondulante. Queria nunca acordar desses sonhos pueris e continuar me empanturrando de quimeras maviosas.

            Sempre quis dançar nos bigodes dos Irmãos Groucho, participar, roendo as unhas, dos suspenses de Alfred Hitchcock saltando de janelas indiscretas, tomando banho na pousada da Psicose. O que eu mais queria era participar do que quer que fosse, contanto que estivesse em ação, em movimento, em terrenos desconhecidos, perigosos, em areias movediças aos olhos da imaginação e, como ponto culminante, ser acariciado por vestais coloridas, por crianças índigo, por vertentes caudalosas. Eu queria tudo, e de tudo muito.

             Queria desbravar todos os horizontes e chegar ao “Finnis Terra”. Olhar para baixo e ver o vácuo bravio engolindo todos os curiosos: os aventureiros com asas de anjos, com a coragem de Aquiles, a força de Hercules, com os mistérios das profundezas de Poseidon, e a visão de Zeus. Queria. Eu queria, e consegui fazer uma boa parte de tudo o que desejei.

            Não posso deixar de admitir que contei com a celestial ajuda de Deus, Nosso Senhor, que me presenteou um organismo invejável, resistente, saudável e inexpugnável.

Nosso corpo é um grande complexo laboratorial, que comanda vários pequenos laboratórios setoriais, todos trabalhando em uníssono sob o comando de um líder absoluto.

            Esse líder não tem o direito de cometer nenhum engano em momento nenhum, nem mesmo uma falha por esquecimento ou desleixo. É indispensável a cadencia, o ritmo, e, principalmente, a disciplina. Todos os órgãos são interligados e funcionais, participam da engrenagem da vida sempre na dependência um do outro, e dos outros. Se há uma falha, haverá uma catástrofe hospitalar, desencadeando uma série de providências urgentes para corrigir o erro decorrente de um distúrbio psicológico.

            A MENTE controla tudo, do micro ao macro. A mente é o líder absoluto, indiscutível, o deus do corpo. A mente é o senhor absoluto, detém as rédeas da saúde, e o poder de cura. Quando a mente entra em colapso o corpo abdica de suas prerrogativas de saúde e movimento. Fenece como folha no verão sem água.

            Os vários laboratórios, cada um tomando conta de seu pequeno espaço corporal, são responsáveis pela integridade da parte e seu funcionamento perfeito, e pelas pequenas e imperceptíveis distorções funcionais. O complexo laboratorial é um corpo perfeito e íntegro, responsável e severo no cumprimento de seu trabalho diário, incessante e corporativo.

            Todo este corpo em suas partes micro e macro foi o responsável pela minha chegada à estação orbital de meus 78 anos de peripécias, de aventuras intransigentes e muitas vezes irresponsáveis. Não me arrependo de nada do que fiz, de nenhum perigo que enfrentei e pelo qual pugnei para o melhor resultado. Faria tudo de novo se minhas pernas o deixassem. Há tempo para estripulias e outros para descanso. Parece-me que alcancei a linha de chegada para a bendita cama confortável. O que quero hoje? Apenas deitar em berço esplendido e sonhar meus dias passados, acordar suado com tanto esforço para subir a corredeira de minha existência tão longa e atribulada. Quero sublevar episódios nefastos, quando sofri decepções e correrias para fugir da barganha de dias incautos.

            Estou feliz e realizado. Tenho uma linda família, uma linda mulher que me ama, e que eu amo demais, tenho filhos adoráveis, e netos queridos, aos quais amo com todas as forças de meu velho coração. Não pretendo mais nada do mundo, de Deus, apenas deslizar nos lenções imaculados do meu amor pela minha mulher, da minha família e, de vez em quando correr para meu teclado e escrevinhar minhas memórias, ou minhas elucubrações inócuas.

            Quero apenas continuar sendo feliz, quando ela, a felicidade, abrir de par em par as asas de sua janela e me convidar para entrar na sua sala de visitas selecionadas e queridas para brindar a existência.  Da vida desejo sempre e apenas um ósculo e um amplexo, um sorriso ou mesmo uma sonora gargalhada juvenil em meus ouvidos surdos para questões querelantes. Quero, finalmente, estar sentado à direita de meu Pai Celestial, de minha Mãe Santa, e arrodeado pelos querubins sempre a postos tomando conta de minhas incursões de velho irresponsável.

            Se tenho Dea, tenho tudo, saúde e juventude, tenho desejo de continuar tocando suas mãos, seu rosto imaculado, ouvindo o som de seda de sua voz inebriante e dormindo ao seu lado, para olhar sua silhueta desenhada no vidro da janela em flor.

 

Anchieta Antunes

Janeiro/2016.

 

 

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