É tudo uma questão de visão... - por Luiza do Oh

É tudo uma questão de visão... - por Luiza do Oh
É tudo uma questão de visão…
 
 
Lembro-me bem dele. Tinha um corpo de veludo, agradável ao toque e dentro dele viviam mundos. Deixei de o ver entre mudanças e arrumações, - nem sei exactamente quando entrou em nossa casa - mas lembro-me que foi um projecto que o Ruben fez para uma aula de Física.
 
Era um tubo de cartão, com três espelhos inclinados lá dentro e um número impreciso de vidrinhos coloridos. Tinha forma cilíndrica e o Ruben vestiu-o de papel de veludo vermelho carmim. Quando olhávamos pelo pequeno monóculo, os vidrinhos coloridos animavam-se com a passagem da luz, no fundo de vidro, e multiplicavam-se em formas coloridas, em desenhos sem fim. A cada pequeno movimento novas formas apareciam e nenhuma se repetia. Daí a origem do seu nome, caleidoscópio; no grego, beleza vista em formas.
 
A nossa vida é tal e qual… basta uma pequena mudança, um gesto mínimo e vemo-nos perante uma alteração de planos, a partir da combinação dos caquinhos coloridos da vida. Com uma pequena volta, surgem novas imagens, aparecem novas facetas com inúmeras possibilidades. Uma mudança, leva a outra e esta a outra e surge um leque de possibilidades, que não terminam nunca. Para aceitar essas mudanças precisamos rever os nossos conceitos cristalizados e as nossas convicções delapidadas. Só assim encontraremos uma resposta criativa. Quer as imagens sejam boas ou ruins aos nossos olhos, é importante não transformar o caleidoscópio da vida num monóculo de uma visão negativa, tapado com o negro neurótico da impossibilidade, onde não entra a luz da criatividade. 
 
Certo é que podemos sempre mudar o ângulo e fazermos a mudança. As mulheres são peritas nisso! Fazemos um penteado novo, uma maquilhagem nova e compramos uma peça de roupa, para levantar a auto-estima. Só que mudar de estética, por bom que seja, de nada serve se não mudarmos de ética. É que o cabelo encrespa com a humidade e as lágrimas esborratam os olhos e fazem sulcos na base… Quando a coisa fica sem jeito, precisamos dar uma volta às pedrinhas multicoloridas e sermos honestos connosco próprios e correctos com os outros, sabendo que é nas voltas caleidoscópicas que se entrelaçam ou separam os momentos únicos que dão cor e alegria à vida.
 
O segredo do caleidoscópio está no que não se vê. Não está nos vidrinhos, não. Está nos espelhos: a ética, as virtudes entre as quais se movem as nossas emoções, os cheiros, os sabores, as sensações e as decisões que tornam únicos os momentos que carregaremos nas nossas lembranças mais íntimas até ao fim dos nossos dias. Os meus espelhos são a fé, a esperança e o amor que, unidos, envolvem e dão visão aos vidrinhos coloridos da semente dos sonhos que decido seguir, das perdas sofridas, das criações encetadas. E esses caquinhos soltos, livres e iluminados criam um mosaico numa simetria assimétrica.
 
Caquinhos de coisas, mesclam-se constantemente formam outra coisa, mais uma coisa, coisas… É a restruturação – outro ser que se faz, desfaz… e refaz! São as cores da realidade das situações que se fundem e fecundam para parirem novas situações. Não digam a ninguém… mas o caleidoscópio é uma ilusão de óptica.
 
Luiza do Oh
 
 
Página de nossa colunista Luiza do Oh
 
 

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