Ecos da caserna - por Mário de Méroe

Ecos da caserna - por Mário de Méroe

Ecos da caserna

Mário de Méroe

Homenagem aos amigos em serviço ativo e na inatividade das Forças Armadas – gloriosa reserva moral da nação - e, em especial: Coronel Júlio QUEIROZ, Coronel Leocir DAL PAI, Tenente Dra. CADILHE, e os três tenentes SILVESTRE’s , orgulho de minha família: Armando, Lucas e André.

 

Sábado, 13 de fevereiro de 2016, pela manhã, um jipe do Exército  desembarcou um pelotão de soldados, que formaram em frente à praça, na calçada detrás do Clube Palmeiras. Logo após, dividiram-se em pequenos grupos e dedicaram-se à entrega de folhetos sobre o mosquito que transmite as três pragas que atacaram o país. Uma louvável contribuição das Forças Armadas no combate a essa ameaça, que tomou foros de calamidade pública.

Na sequência, um grupo de soldados adentrou a praça e um deles dirigiu-se, a dois catadores de latinhas, que descansavam em um dos bancos, com a triste expressão de desalento de quem faz trabalho humilde, ganha pouco dinheiro e luta bravamente para sobreviver. O soldado os cumprimentou e disse:

—Os senhores aceitam esses folhetos? É um alerta sobre os vírus que causam doenças.

—Sim, claro, já ouvi falar sobre isso, respondeu um deles.

Observei as reações e a expressão fisionômica dos catadores de latinha: ao contrário do que ocorre em uma abordagem policial, quando o pânico e a tensão se elevam, eles não demonstraram nenhum receio pela presença dos militares; pareciam à vontade e conversaram brevemente, demonstrando respeito e atenção. Não me passou despercebido, também, que ambos se levantaram quando os soldados se dirigiram a eles.

Na despedida, um deles ainda comentou, orgulhoso: sabe que eu fiz o serviço militar? O outro completou, todo satisfeito: eu também!  O soldado sorriu, agradeceu a atenção e seguiu seu caminho.

Os catadores de latinha voltaram à sua conversa, mas o ânimo já era outro:

—No meu tempo, eu gostava de carregar o fuzil em bandoleira e trazia sempre meu cantil limpo e cheio......havia um sargento que......tempo bom, aquele!

Voltei a andar pela trilha da praça, em minha caminhada habitual, e logo mais cruzei com os mesmos soldados, que a atravessavam. Desta vez, era um grupo um pouco maior, talvez quatro ou cinco, em seu passo regular e com os folhetos na mão. Quase que instintivamente, parei e fiquei de frente, em posição respeitosa, enquanto o pequeno pelotão passava. O líder do grupo olhou em minha direção e fez um cumprimento, prosseguindo em sua marcha.

Ecos agradáveis ressoaram em minha memória. Revivi em minhas lembranças, o tempo em que também tive a honra de usar o uniforme do Exército, como soldado de Infantaria, no longínquo ano de 1959..., e dos exercícios de corrida, liderados por um 2º tenente R/2, muito estimado pelos soldados, ocasião em que cantávamos, na “marra”, uma canção mais ou menos assim:

“Bicho danado, que faz tudo errado: é o soldado, é o soldado;

Moço valente, bonito e inteligente: é o tenente, é o tenente”.

O oficial então sorria, e encerrava a dura sessão de exercícios físicos com a seguintes palavras: Bravo, é assim que são as coisas!

Essas lembranças tiveram para mim (assim como para os catadores de latinha) um efeito salutar: nos lembramos da época em que de nós era exigido atividade intensa e dura, mas havia algo altamente compensador: éramos respeitados, como cidadãos e como pessoas!

Independentemente do viés ideológico de cada um, a presença do Exército junto à população faz lembrar, pela geração anterior, o tempo que que o respeito e o patriotismo eram a tônica; na geração presente, dá o esperançoso toque de organização, ordem, utilidade prática nas horas de grave aflição e compostura cívica, base indispensável para que consigam ser, dignamente, “a próxima” geração. As Forças Armadas não impõem medo às pessoas de bem; inspiram confiança e respeito!

Voltando à minha caminhada, na última volta passei pelos dois catadores e observei que o desalento inicial fora substituído pela animação com que contavam suas aventuras do “tempo bom”, enquanto procuravam mais latinhas para apanhar. Um deles, que provavelmente observou minha demonstração de respeito quando cruzei com o pelotão, disse para seu companheiro:

—Acho que o “véio” aí também fez o serviço militar!

 

 

 

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