Em algum lugar do futuro - por L. A. Tecau

Em algum lugar do futuro - por L. A. Tecau

Já passava das 21:15, mas o céu continuava com aquela tonalidade vermelho vivo de fim de tarde. Da janela do pequeno quarto, eu conseguia ver as duas luas no céu e uma gangue de arruaceiros na estrada, xingando os andarilhos e jogando lixo na carcaça em chamas. Era noite de racionamento de energia, mas minhas baterias estavam carregadas para o encontro desta noite.  Fazia muito calor, eu estava cansado e faminto, mas dentro de 15 minutos ela chegaria, para matar a saudade. Passei o dia ancioso por aquele encontro, trabalhei duas horas a mais para comprar créditos adicionais e uma lata de concentrado. Ia esperá-la para comer com ela por perto, mas minha fome foi maior. Comi o concentrado em colheradas rápidas, feito um lobo faminto atacando a presa indefesa. Enquanto tomava a ducha seca, recebi as instruções sobre o trabalho do dia seguinte e as principais notícias através do chip implantado. Tinha o hábito de passar a mão sobre o implante, colocado atrás de minha orelha esquerda. Já estava quase chegando ao final do prazo da troca das informações, sempre a cada cinco anos. Pretendia pedir um novo pacote, incluindo a ilusão de sono “sonhos tropicais” e “férias na África”. Esse plus custaria um pouco mais, mas havia economizado um pouco nos últimos anos.

Vesti uma bermuda e deitei no sofá, esperando ancioso minha visita. Liguei o equipamento e ela surgiu, em 3 dimensões de alta resolução. Havia trocado há poucos dias o velho projetor de hologramas por um modelo bem mais realista, que trazia 3 opções na memória interna: as fêmeas LM26, LT20 e  SC3+.

Acionou o sistema com o polegar, escolhendo LM26. Com seu sotaque peculiar, ela pergunta:

-Qual o cenário desejado, senhor?

Olho para o holograma e desativo o modo formal com o comando de voz:

-Ativar modo namorada. Não...esposa. Anos 70.

-Perfeitamente, querido. Posso servir o jantar? Quer ver o notíciário? Que tal uma cerveja agora, meu bem?

Caramba! Era assim nos anos 70? As fêmeas eram serviçais dos machos? Era só ficar no sofá e vinha tudo assim?  Acho melhor mudar isso. Ativar modo mulher independente.

Nesse instante, uma estrondo forte chamou minha atenção. Corri para a janela e vi a nuvem de fumaça no distrito 15. Já não havia mais ninguém na rua, nem os arruaceiros, que deviam estar escondidos em algum escombro, temendo o toque de recolher. Nenhuma informação oficial no meu implante, o que não era um bom sinal. Corri para outra janela para tentar ver se havia mais confusão na rua. Foi quando percebi que os outros dois hologramas de mulher dividiam o sofá surrado com LM26. Conversavam animadas, as três. LT20 se levantou e munida de algo que devia ser uma intimação, declarou:

-Por autorização do governo da Nova República Holográfica do baixo Equador, revogo suas prerrogativas humanóides, recolhendo todas as suas informações passadas e desativando suas funções.

-Desculpa, não entendi bem isso aí. Traduzindo, o que significa – perguntei.

A grosso modo – explica SC3+ - Vamos te apagar, pegar suas informações e te holografar. A explosão lá foi um golpe de estado. É apenas o começo de uma nova era, a era das fêmeas dominantes. Dessa vez, nós mandaremos e vocês, holo machos, obedecerão.

-Bem...se é assim, eu  tenho direito a um último pedido?

-Acho que não há problema – responde LT20 – O que quer? Uma ducha seca? Uma ilusão de sono? Um último gole d´água?

Não, é algo simples. Gostaria que vocês se beijassem. Só queria partir com a imagem de 3 belas fêmeas cheias de volúpia num beijaço cheio de calor. Isso é possível ou está além de suas capacidades?

Ah, homens e seus malditos hormônios – suspira SC3+, a moreninha do trio. Foi esse hábito de pensar com a cabeça errada que levou sua raça à extinção. Meninas, vamos dar o que esse humanoide quer.

No sofá, as 3 começaram as carícias, mãos nos cabelos, lábios em costas nuas em imagens de alta definição de 3 beldades: uma morena, uma mignon e  a ninfeta alta. Se não fossem apenas hologramas, podia apostar que aquelas imagens projetadas estavam gostando da coisa. Dei 3 passos, de costas e me atirei contra a janela, caindo de costas no colchão velho, que estava jogado no quintal.

Ainda atordoado, ainda deitado e com o dedo em riste, mandei um “chupa, mulherada” para o trio que me observava da janela quebrada. Então elas desapareceram da janela. E quando tentei levantar, não consegui mais. Começou a chover. Foi a última coisa que lembro antes de ver os coturnos dos arruaceiros se aproximando. Depois veio a paulada. E a escuridão.

 

Publicado em 14/02/2014

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