Entre Quatro Paredes - Capítulo 5 - por Francilangela Clarindo

Entre Quatro Paredes - Capítulo 5 - por Francilangela Clarindo

CAPÍTULO 5

 

NO HOSPITAL

 

Não sei o que aconteceu com o senhor que ficou comigo no hospital. Ele estava indo trabalhar naquele ônibus, no entanto, não foi para ficar comigo. E ficou até que minha mãe chegasse.

Ele foi muito legal. Rogo a Deus que o tenha abençoado muito. Um estranho ajuda tanto uma estranha. E como ajudou-me. Passou pelos exames, médico e espera.

Quando minha mãe chegou, já estava com o diagnóstico e sendo umas quatro horas da tarde.

O acidente ocorreu por volta de 11 horas da manhã.

Ele disse que ía falar com o patrão para explicar as cinco horas de atraso. Um bênção aquele senhor.

A primeira benção porque o Senhor Jesus esteve comigo o tempo todo, colocou pessoas maravilhosas em meu caminho.

Deus não só lhe dá a cruz que podes carregar. E ainda lhe ajuda a carregar a sua, nunca nos deixa sozinhos.

Como Deus é maravilhoso.

Não posso dizer que o acidente foi uma coisa boa, que não sofri, que não senti dores e também medo, muito medo, o que até hoje sinto do futuro. Se pessoas normais comprometem a coluna ao ficarem mais velhas, imagine eu.

Mas tento não pensar nisto. Volta e meia penso, mas tento esquecer, mudar o foco.

Se me detenho neste pensamento choro e fico amedrontada. Daí evitar para não sofrer por antecipação.

Mas o que eu queria dizer é que, mesmo sendo tudo difícil, Deus agiu milagrosamente do momento da queda até hoje, agora, neste momento que escrevo.

Como me sinto agraciada. Como me sinto protegida. Como me sinto agradecida.

Você vai ver com o decorrer dos relatos como Deus esteve presente e enviou o melhor para mim, aliviando minha dor, secando minhas lágrimas, amenizando minha tristeza. Não posso dizer que tudo foi alegria num momento tão complicado, mas que poderia ser muito pior se meu amado Deus não estivesse comigo. Tudo pude passar porque o Senhor me fortalecia.

Deus literalmente carregou-me nos braços e conversou comigo neste período. A Ele toda honra, glória e poder! Amém!

Depois que mamãe chegou, o senhor que estava comigo do ônibus despediu-se. Eu o agradeci e ele partiu. Nunca mais soube dele.

Fui internada na sala de observação aguardando um leito na enfermaria. Sentia muito frio ali. Não via a hora de sair. Mas fui bem tratada. Era tudo limpo e organizado.

Foram vinte dias no hospital. Seriam dezenove se não tivesse faltado ambulância no dia que o médico me deu alta. Conto já como foi isto. Mas antes quero falar de outras coisas. Deixo para o fim o momento da alta e tudo que aconteceu então. Cada coisa a seu tempo.

Passado o susto do que acontecera e já com o diagnóstico, era esperar os procedimentos médicos.

Havia a fratura e eles fariam uma cirurgia. Esperei nove dias por ela (ou foram onze, não lembro bem agora). Esperei então por ela sem me mexer, imobilizada por mim mesma, pois o médico avisou para não mover por causa do risco da lesão medular.

Era incrível. Não mexia. Minha mente enviava os comandos. Mas minhas pernas, meus pés não se moviam. Eu me esforçava tanto, chegava a ficar exausta, morta de cansada de tentar mentalmente mover minhas pernas, meus pés, meus dedinhos. Mas nada! Eles permaneciam lá, sem movimento. Ficava também cansada da posição: sempre de peito para cima.

A cirurgia veio 9 dias depois da internação. Agora lembrei bem disto. Não foram onze dias e sim nove. Nove dias aguardando. Neste período meu marido tentou de todas as formas conseguir um colchão d’água para mim. Não queria que eu ficasse com ferida às costas. As famosas escaras.

Ele conseguiu: Trocaram o colchão. Não lembro se antes ou depois da cirurgia

Já faz muito tempo tudo isto. Algumas coisa não lembro direito das datas ou o que ocorreu primeiro. Dê um desconto nisto, porque realmente vou lembrando e escrevendo. São registros da memória e não tem como saber algumas datas específicas.

Sempre que precisavam tirar-me da cama usavam uma técnica. Cada um dos maqueiros segurava nas pontas do lençol, esticava bem e me erguia, transportando-me assim para a maca. Fazia isto para realizar exames fora do leito e no dia da troca do colchão.

Senti muito frio e calor no hospital. Quando estava na sala de observação, muito frio. Na enfermaria, muito calor. Com o colchão d’água, voltei a sentir frio.

Foi tudo muito bem na cirurgia. Não lembro de quanto foi sua duração. Lembro-me de ter ficado aérea com a anestesia geral.

Já acordada, mas sem estar bem consciente, minha tia Desuíte foi visitar-me. Justamente neste dia e encontrou-me pálida, os pés brancos, magra, em cima da cama e meio sem sentidos. Chorou!

Eu a vi chorando só não entendia bem o motivo. Estava tão longe...

Emagreci bastante neste período. Não queria comer o que me davam. E o que eu queria, não me deixavam. Eu estava doente dos ossos, mas mesmo assim era um caos para comer certas coisas.

Um dia, minha tia Liduína foi visitar-me e eu pedi um sanduíche. Estava com tanta vontade. Pensa que ela deixou? -Não, Lanja(meu apelido de infância)! Só pode comer a comida do hospital. Não vou permitir que você coma e depois piore. E blá, blá, blá, blá, blá. Fez um discurso. E eu fiquei muito triste porque queria o sanduíche. Chato isto.

De qualquer forma, por causa da anestesia, eu acho, depois da cirurgia, fiquei com uma tosse e a garganta meio irritada.

Tinha medo de tossir porque doía tudo, então falei com a nutricionista para trocar minha alimentação por pastosa. Tudo bem! Ela trocou.

Imagine o sufoco quando eu melhorei e quis voltar para alimentação normal. Não pude. Era fim de semana, a nutricionista não estava. E aí eu tive que passar mais dias com aquela alimentação que eu não suportava mais. Foi o fim!

Mas quando a nutricionista chegou, deu certo. Afinal de contas, não tinha restrição alimentar descrita pelo médico. Ainda bem que isto se resolveu.

Aconteceu também algo bem constrangedor. Logo após a cirurgia fiquei bem sensível ao toque. Não suportava o vento do ventilador. Não suportava roupas no meu corpo e muito menos o lençol.

Tive então que ficar nua em cima da cama. Era o jeito.

À noite veio o rapaz limpar o quarto. Eu já estva dormindo, acho. O fato é que ele me viu sem lençol e foi cobrir-me.

Imagine o escândalo que eu fiz. Comecei a gritar: -Tira, tira, tira. O rapaz ficou tão assustado. E eu, recatada como sou, pedindo para ficar nua, sem lençol, em cima de uma cama. Altamente constrangedor. Mas naquele momento nada disto importava. Minha única intenção era não sentir dor.

Minha mãe então resolveu lá a questão e eu fiquei sem lençol e sem ventilador porque os dois doíam muito e minha pele não suportava.

Ainda bem que isto não durou muito e depois passei a suportá-los. Pelo menos a estes dois porque ainda durante muito tempo fiquei sensível ao toque, mesmo quando voltei para casa.

Houve uma vez, no horário da visita que religiosos estavam conversando em cada leito com os pacientes.

Uma senhora aproximou-se de mim. E eu comecei a gritar. Eu não sabia o motivo, mas meu pé doeu. Era uma dor grande, na parte nervosa, dor complicada, difícil de explicar. Muito sensível e eu não suportava. Gritava!

Foi um alvoroço! Ficaram a se perguntar o que teria acontecido para provocar meu grito. Procura daqui, procura dali, encontraram um terço bem embaixo do meu pé na cama.

Deduziram que o terço o tocou e aí eu gritei, Pois é, um terço escorregando pelo meu pé causou uma dor terrível ao passo que eu não podia mexer.

Era algo tão contraditório: Uma alta sensibilidade ao toque do terço, do vento do ventilador, do lençol. Mas eu não sentia as agulhinhas que o médico espetava e nem o martelinho fazia meus reflexos alterarem-se.

Eu nem mexia nada no meu corpo abaixo da barriga.

Enfim, era deste jeito que as coisas estavam e aconteciam naquele hospital.

Alguém levou o álbum do Ítalo Anderson. Eu o mostrava a todos que me visitavam ou conhecia no hostital. Meu lindo e amado filho que eu não estava vendo. A saudade era enorme. Ele ainda mamava e eu tive que sumir da vida dele de repente. Imagina como ele deve ter ficado. Como ele deve ter me procurado para mamar, ouvir histórias, balançar para dormir à noite. Meu filhinho, quanta saudade eu sentia dele. Talvez tenha sido a parte mais dolorosa daquele período não ver meu filho por vários dias, não poder amamentar, não poder tocá-lo, não poder contar histórias para ele dormir, não poder balançá-lo na rede e nem ficar deitada abraçadinha com ele. Estava só como um aninho e cinco meses. Eu havia acabado de ser mãe, praticamente e ele, de nascer. Foi muito ruim.

A hora da visita era deprimente para quem não tinha ninguém. Passávamos o dia todo em função dela. Tudo acontecia antes ou depois da visita. Mas na hora que ela acontecia era sagrada. Nem alimento, nem remédio, nem banho. Só a visita. E para quem não tinha, era só ver os outros abraçando familiares, conversando com amigos.

Houve dias em que esperei alguém e ninguém aparecia. Todos se preparavam. Banho e roupinha limpinha. Certo que sozinha, sozinha, nunca fiquei. A maioria do tempo minha mãe estava a acompanhar-me ou a Márcia, uma grande amiga neste momento.

Eu amava a Márcia porque ela fazia massagem no meu pé. Era tão bom. Parecia que ativava os nervos e eu me sentia muito bem. Vivia pedindo para ela fazer e ela fazia com todo prazer.

A Márcia foi muito importante porque ficou comigo no hospital revezando com minha mãe. Rogo a Deus que cuide sempre dela como ela cuidou tão bem de mim. Que sua vida seja repleta de bençãos, que seus projetos se realizem de  que seja bem feliz junto com toda sua família.

Não lembro se antes ou depois da cirurgia, mas ainda no hospital, comecei a fazer fisioterapia ( e nunca mais deixei até hoje e sempre precisarei fazer). A fisioterapia é um milagre. Não imediatamente, mas aos poucos fui retomando meus movimentos. Isto levou dois anos de tratamento fisioterápico constante. Mas voltei a andar sem auxílio, por um tempo. Vez ou outra, vira e mexe, preciso voltar às muletas, bengalas e cama em virtude de torsões, quedas gessos e dor.

Mas vamos continuar a falar sobre o período da internação. A Márcia fez muitas amizades pelo hospital e sempre vinha com novidades. Havia o noticiário e os extras, quando um ou outro chegava na emergência. Minha enfermaria ficava bem próximo. Com não estava andando, ela era meus olhos pelo hospital.

Minha higiene corporal era feita através do banho no leito. Algodão molhado em soro ou água passado em minhas partes íntimas. Tudo feito com muito cuidado para não me mover, principalmente antes da cirurgia, quando o risco de lesão era maior.

A alimentação era normal, mas como eu ficava deitada, usava um canudinho para os líquidos. Engasgar era o que podia acontecer de pior, por isto, tomava cuidado. Às vezes sentia muito cansaço da posição.

Os dias foram passando. Havia a rotina diária de medicamento, fisioterapia, visita, banho no leito e alimentação.

Na minha enfermaria chegou duas moças em virtude de um mesmo acidente. Saíram com um rapaz numa moto sem capacete os três. O rapaz morreu na hora, mas não disseram para elas enquanto estavam lá. Uma das moças sofreu ferimentos na perna e a outra nunca mais voltou a andar.

Quando eu saí do hospital, um dia na escola do meu filho, encontrei a irmã dela e, como ficava perto, fui visitá-la. Vi as duas. A dos ferimentos na perna ficou com uma sequelazinha. A outra permanecia na cama com a mesma rotina diária do hospital. Muito difícil.

Agradeço a Deus por ter voltado a andar. Sei que a possibilidade de ficar sem andar ronda minha mente sempre, em virtude do estilo de vida que levo. Fico sem tratamento e as coisas pioram. Mas sei que é horrível, a ideia me assusta bastante.

Mas o fato é que estou andando e isto é muito bom. Graças a Deus, aos médicos e ao milagre da fisioterapia. Coisa abençoada porque eu vi o que fez comigo. É incrível. Eu não conseguia mover o meu dedinho do pé e, após inúmeras sessões, consegui. Certamente não andaria hoje se não fosse a fisioterapia. Milagre de Deus aqui na terra são estes fisioterapeutas.

Vamos falar agora do escândalo. Só lembro de ter feito escândalo uma vez quando era criança porque duas amigas segredavam e não queriam me contar.

Mas no hospital foi a segunda vez. Horrível. Vou contar.

Já estava com 19 dias internada. O médico veio pela manhã e me liberou. Amém! Estava de alta. Não andava ainda, não mexia ainda, mas a parte dele, a cirurgia já havia sido realizada e o resto era esperar para ver o que aconteceria.

Eles não sabiam se eu voltaria ou não a andar. Era uma incógnita e eles não afirmavam nem que sim nem que não.

Então de alta na mão o problema era conseguir uma ambulância para mim. Não conseguiram. Tinha que ficar mais um dia para esperar uma ambulância, pois tinha ído pro interior e não havia outra disponível. E eu, louca para ir pra casa, de alta, ansiosa para ver meu bebê, não via a hora de sair dali porque já estava cansada. Normalmente eu ficava calme e, pacientemente, ouvia tudo com atenção e era obediente. Mas neste dia fiquei desolada. Ninguém me segurava. Chorei, gritei! Queria ir embora. Não queria mais ficar ali.

Tadinha da minha mãe. Ela começou a chorar diante do quadro que via. Eu a maltratei. Eu Estava revoltada! Queria porque queria ir embora. Não aceitava as desculpas.

A assistente social veio conversar comigo, explicar tudo de novo e dizer que minha mãe estava sofrendo com minha atitude e que ela não poderia fazer nada.

Isto me fez recuar. O sofrimento de minha mãe fez com que eu me acalmasse e aguentasse mais um dia, suportasse mais uma noite. E assim fiz!

No dia seguinte vieram avisar de que estava ok. Eu iria embora. A ambulância estava a meu dispor. Graças a Deus! Iria para casa, para meu filho. Fiquei tão feliz, tão feliz, tão feliz!

Hoje ainda me envergonho do meu comportamento. Fiquei fora de mim. Por isto entendo as pessoas que estão doentes e têm comportamento hostil. É difícil! Não é nada fácil a rotina de um hospital, ficar nas mãos dos outros sem ter opinião porque ninguém escuta o paciente.

Entre Quatro Paredes - Francilangela Clarindo

Sinopse: A principal finalidade deste livro, a que pensei há mais de quinze anos, quando não movia minhas pernas e nem sabia se as poderia mover novamente é dizer para você que não anda, que está preso entre as quatro paredes do seu quarto, que está preso a uma cadeira de rodas, que sofreu um acidente onde esta possibilidade existe: A vida vale a pena.

 

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