Esperando o domingo - por Regina Alonso

Esperando o domingo - por Regina Alonso

 

Andava rente às paredes. Feito sombra. À noite virava assombração. Menino endiabrado! – mãe queixava-se ao pai, finzinho de tarde, homem cansado voltando do trabalho. O negrume do pó das minas nas roupas, nos sapatos, nos cabelos. Do rosto só sobravam os olhos, injetados de vermelho, irritados com o ar salobro. Mãe já se acostumara. Só não aceitava aquele moleque taciturno vagando pela casa. Pai sentava. Descalçava os sapatos. A mulher recolhia os calçados. No chão a marca impregnada. A mina acompanhava-o. Não se desgrudava de sua pele. A mulher falava. Queixas. Sempre queixas. Assentia com a cabeça e cerrava os ouvidos. Estirava-se na poltrona. Acendia o cachimbo. Entre as baforadas seus olhos cruzavam-se com os do filho. Era sábado e o moleque desviou o olhar, fingindo procurar algo entre as mãos vazias. A mulher apontava o menino, segurando um dos sapatos na mão – Ele não fala! Não diz uma palavra! Não atravessa a sala, nem a cozinha, nem o quarto... O marido cachimbava, olhos semicerrados. – Está me ouvindo, homem? Estou falando de Mateus. Do seu filho!

   O homem voltou o olhar em sua direção. Apoiou o cachimbo no suporte desgastado, feito pelo avô. Encarou a mulher em silêncio. Ela percebeu sua contrariedade. – Vou buscar a sopa! Retornou da cozinha com a tigela fumegante. Colocou-a na mesa, batendo forte sobre a madeira.  – É de nabos e chouriço. Ande, homem! Venha antes que esfrie!  O filho arrastando-se pela parede, ajoelhou-se aos seus pés e ajudou-o a calçar os chinelos rotos. O pai acariciou seus cabelos. Os cachos louros entre seus dedos nodosos de mineiro. A mãe não perdeu tempo. E voltou à carga. – O seu anjinho não provou nem uma colherada de sopa! É bico fino! Não tivesse sido criado por aquela mulher esnobe!... O pai sorvia a sopa sem retrucar. O menino sentou-se no banco ao seu lado. Arrancava nacos de pão e entregava ao pai. No silêncio dos dois só cumplicidade. – Homem, você não enxerga! Esse garoto foi mimado! Viveu no luxo! Mas ele mora aqui, agora! Tem que se acostumar!  O marido ergueu a tigela vazia, sinal de que aceitava mais um pouco de sopa. Ela atendeu, resmungando. Ele e o filho quietos, embevecidos na companhia um do outro.  O menino partia o pão. O pai comia. Ao final, empurrou a cuia ao menino – ainda havia metade de sopa. – Coma, Mateus! Coma meu filho!... e aproximou uma colherada da  sua boca. O menino sugou o líquido vagarosamente e depois foi consumindo tudo, até não sobrar nenhum vestígio. Agora era o pai quem arrancava bocados de pão e dava ao moleque.  – Homem, você é o culpado de tudo! Quando a mãe morreu, por que não o deixou com a avó?!

   O pai apertou as mãozinhas trêmulas entre as suas. Levantou-se. O moleque agarrado ao seu casaco feito um carrapato. Ela espraguejava. Cada vez mais alto – Devia ter ficado lá! Acostumado a brioches, casa com geladeira, tapetes, quadros, roupas finas... Francamente, tirar o meu sossego trazendo-o para cá! Os dois formavam um bloco, uma coisa só, subindo os degraus do tosco chalé. Ela impiedosa. – Éramos duas bocas! Duas! Exatas para o tamanho da comida na dispensa! Eu não pari meus filhos, homem! Não trouxe mais bocas ao mundo, valha-me Deus! E você me traz um intruso!

    Depressa adentraram o quarto. O pai tapando os ouvidos do filho. No refúgio, os dois deitaram-se lado a lado. O pai falou das minas de carvão. Das explosões. Dos amigos. Passou os braços em volta dos seus ombros, aconchegou-o e cantou uma cantiga de ninar. A mesma de todas as noites de sábado. Agora o moleque despertava. Falava sobre as formigas e lesmas do quintal. Sobre a tartaruga do lago. O pai lembrou-se da pipa. Levantou-se. O menino atravessou o quarto. Juntos terminaram a rabiola. Amanhã era domingo. Dia de folga.  Lá embaixo, cuidando da louça, a mãe (mãe?) resmungava – Tudo igual. Pai e filho. O mesmo sangue! Não prestam para nada! Moleque visguento! Olhar de Demo! Assombração! Veio só pra acabar com o meu sossego!... E com as minhas provisões! Pôs a louça para escorrer. Subiu apressada. Esmurrou a porta. – Quero entrar! Tire esse menino daí, homem! Estou no meu direito!

   Nenhuma resposta. A porta continuava trancada. Dava para ouvir as palmas do moleque, as exclamações – Pai, o azul e o amarelo parecem um pássaro no céu! A mulher não via o marido outra vez criança. A pipa nas mãos escuras, esfoladas... O homem correndo pelo quarto, a pandorga subindo, colorindo o espaço! A mulher não via. Não entendia. Não queria entender – Onde se viu, pássaro no quarto? E ouvindo a gargalhada do marido – Doideira! Pai e filho! Mundo perdido! Duas assombrações!

   Primeiros clarões. A mulher já se queixava na cozinha. – Acordaram a que horas? Madrugada com certeza. Pia toda bagunçada, suja de pó de café e de mingau. E espiando dentro do forno – E que apetite! Quase que não sobra nada do pão! Abrindo a porta que dava para a varanda gritou – Onde se esconderam seus abusados?!... Nada. Quietude da manhã por todo o espaço. – Melhor cuidar do almoço. Preparar frango. Frango e macarrão, os preferidos do moleque, ela sabia. O homem exigia. Todo domingo! Arre! Ainda daria um jeito de botar o peste pra fora da casa, da sua casa, do seu sossego! E pondo a lenha para o fogão, atiçando o fogo, atiçava o pensamento, as más ideias – Ah, se o velho partisse antes dela... Se “batesse as botas” primeiro!... Ela punha o moleque porta a fora. Ele que fosse pra junto dos seus! Da avó e dos brioches!

   Lá fora, bem longe, no vale entre as montanhas, o pai e o moleque, agora transformados. Aos domingos era assim. O filho criava asas, alçava voo com as pipas. O velho pai ajudava a segurar, antes que o menino começasse a correr, correr e soltar a linha... Cada vez mais alto! Depois rolavam na grama, espojavam-se na terra feito cães, animais felizes cheios de afeto! O moleque esvaziava-se de tanta alegria e conversas. Atrasavam-se para o almoço. No caminho, ainda as palavras, a voz doce do menino, suas mãos macias nas mãos ásperas do pai. Só aconchego. Adentravam a casa e o silêncio. O filho novamente transfigurado.  Grudado à parede. Assombração. Até que se anunciasse outro domingo.

 

Publicado em 27/02/2014

 

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