Felícia - por Eliane Reis

Felícia - por Eliane Reis

Felícia

 

Última sexta-feira de férias, bem no finzinho de tarde, eu estava distraída cuidando do jardim com a intenção de replantar algumas flores. Fazia tempo que eu não mexia na terra, há tempos não sentia o prazer de cultivar, de permitir que as raízes tomassem outras formas e pudessem engravidar outros lugares. Estava totalmente entretida com a arte simples de plantar e ver florir.

De repente, ouvi atrás de mim “boa tarde!”. Levantei-me sobressaltada e me deparei com uma senhora sorridente perguntando se eu estava replantando as mudas. Levantei-me para dar melhor atenção a ela e disse que sim.

O portão estava aberto, e ela, sem nenhuma preocupação com o tempo, (porque mesmo diante da promessa de reflorir, eu estava atenta à hora, porque vivo da pressa, vivo de olho nas horas que tragam meus segundos e me roubam o tempo necessário para fazer tudo que tenho por fazer) foi entrando e me fazendo perguntas: quis saber meu nome, se eu trabalhava fora – embora isso ela já supusesse- entre outras tantas perguntas.

Assim, aos poucos, ela, sem nenhum pudor, foi me roubando o tempo, foi me envolvendo tal como eu estava envolvendo as flores em outros vasos rasos.

Enquanto eu mexia na terra, ela mexia em minhas saudades; mexia na minha lembrança dormente de quando eu ainda tinha tempo para cultivar as flores, ouvir o ruído do carteiro no portão e embriagar-me com o cheiro do café coado no meio da tarde. Enquanto ela falava, a vida parou um pouco e a pressa descansou.

Deixei-me ficar e passei a fitá-la com mais calma. Felícia trazia nos olhos um gosto por prosas, por contar histórias, por ouvir histórias. Contava-me a sua e queria despir a minha, como se isso fosse normal. Que absurdo, pensei! Não se deve tocar em histórias alheias, nem mexer em baús anônimos. Não é certo!

Todavia, a senhora, de cabelos tingidos de nuvem e olhos carregados de vida, não se importou com nada disso. Ela revirou tudo! Parecia uma bagunça minha cabeça. A sua voz doce fundiu-se com as vozes de um passado ainda jovem que sobrevoava meu presente carente de ontem.

É engraçado como a vida de outras vidas liga-se a mesma vida! Parece confuso, não é? Mas é simples! Tão simples quanto mexer na terra; tão simples quanto falar com a felicidade que, por sorte, entra quando o portão está aberto; tão simples quanto tirar a folhagem deste vaso e replantá-la, logo ali (Não que isso não requeira carinho, mas é simples!); tão simples quanto deixar que o tempo espere um pouco, afinal ele já corre demais!

Então, com mesma simplicidade que ela entrou, saiu. Disse-me um até logo suave que estava vestido com a promessa de um até daqui a pouco; talvez eu devesse tê-la convidado para um café (tal como eu costumava fazer outrora, quando o tempo ainda estava sob meu controle), talvez eu devesse tê-la detido um pouco mais e ter contado as histórias que queriam sair, no entanto eu as mantive presas, talvez...

Creio que esse talvez tenha sido preenchido pelo eco que ficou depois que ela se foi, porque as flores que descansavam no chão à espera de outra morada estavam encharcadas de Felícia.  

 

 

 

 

 

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