Ficção ou realidade que lateja - Eliane Reis

Ficção ou realidade que lateja - Eliane Reis

Ficção ou realidade que lateja?
 

Como já temos certa intimidade que nos foi dada pelas entrelinhas, creio que você, meu amigo leitor, já saiba o quanto gosto de observar a vida, que dança, passa e me encanta; a mesma vida que caminha à minha e à sua frente todos os dias. Sei que já me conhece, o suficiente, para saber que da minha varanda – meu lugar predileto da casa, porque dali vejo o sol despertar e adormecer - gosto de apreciar e ver os personagens mais diversos que vão e vem e passam nas ruas. Eles vão compondo, vestindo e despindo os mais intrigantes enredos, é incrível! Nem tudo consigo descrever, muitas das histórias se perdem nos vãos da minha frágil memória, que, às vezes, teima em falhar. 
Mas, naquela tarde, ela estava afoita, agitada e, singularmente, ativa. Ainda bem, pois eu não queria e não quero que nenhum detalhe fique omisso. Quero que conheça esta história e divida comigo a angústia que senti naquela tarde, feita de sol ameno e cheiro de nova estação.
Na Praça Central (um lugar lindo, repleto de sons e cores e sentidos) um garoto brincava descalço no meio do jardim, debaixo de uma árvore que, ainda, estava vestida de flores. Já fazia um bom tempo que ele estava lá. Fiquei observando e percebi que ninguém se aproximava, sua companhia era, provavelmente, um anjo bom– que só ele podia enxergar. 
Então, enquanto ele brincava de nada, sem nada e com ninguém, um menininho muito bem vestido se aproximou e foi falar com ele. Embora, eu estivesse a uma distância considerável para enxergar detalhes, pude ver, ou melhor, sentir o brilho que nasceu naqueles olhinhos do pobre garotinho de pés calejados. Pude presenciar a alegria que nascia em sua solidão. 
O outro, que não via diferença, que não via pés calçados ou não, que não via a fome estampada na face cansada do seu “novo” amiguinho, que não via remendos nas peças incompletas que vestiam o garoto solitário; sentou-se junto a ele debaixo da mesma árvore. Aquele instante fecundo, deu à luz a uma sincera amizade. 
Ali, eles brincaram , não marquei, exatamente, por quanto tempo, todavia creio que tenha valido uma eternidade, especialmente, para o pequeno que estava acostumado à sua própria companhia. Acontece, meu caro amigo, que nem tudo é perfeito; sempre houve, há e haverá uma lacuna que não se pode preencher, porque ela independe de nossos sonhos, nossas convicções. Muitas vezes a ficção é o reflexo mais fiel de nossa insana consciência. 
Bem, mas vamos ao que me pôs em guarda, vamos ao que me fez parar para repensar a atitude do ser humano, este ser dotado de inteligência, de racionalidade, de amor (nem que seja por si mesmo), de conceitos e preconceitos. 
A alegria da brincadeira, da inocência, da paciência e da tolerância; o momento mágico em que um ser é igualmente ao outro ser, independente daquilo que ele veste, independente de sua condição social, ou de suas escolhas foi interrompida por uma brusca “selvageria” (esta é, para mim, a forma mais adequada de descrição). Um adulto – promovido ao cargo de ser responsável e ligeiramente culto – quebrou o encanto daquela tarde, daquele jardim sinestésico. 
O garoto de vestes perfeitas e atitudes idem foi advertido por estar ali, sentado ao lado do garoto de vestes imperfeitas, mas de coração nobre. Foi, severamente, castigado por dividir um pouco do seu tempo com alguém que precisava. “Onde já se viu, menino?!” 
O pequeno admirador do jardim (assim decidi chamar aquele menino solitário) ficou ali, parado sem entender nada. As crianças não têm certas malícias, isso é bom, dá-lhes o direito de verem anjos. 
Talvez eu devesse ter deixado a minha cadeira de balanço e ido até lá, talvez eu devesse ter dito à pessoa “grande” que a pessoa “pequena” conhece melhor o amor; talvez eu devesse, mas não fui, apenas fiquei estática e comprometida com minha covarde atitude. 
Hoje, lembrei-me desse episódio e desse enredo, lembrei-me dos personagens e cheguei à conclusão de que nada teria adiantado seu eu tivesse ido até lá, eu não teria mudado a história, porque não foi uma encenação, a ficção estava impregnando a realidade. Agora, posso compreender, meu caro, que o ser, dotado de capacidade intelectual e de suposta cultura, sofria de uma doença muito grave: ele tinha preconceito num grau muito elevado.
Quer saber? Acho que já inventaram um remédio para essa patologia, todavia poucos são os pacientes dispostos a ser curarem, mesmo porque todo medicamento costuma causar alguma reação adversa. Será adverso o amor ao próximo?
A tarde está muito interessante, hoje, está embriagada de nostalgia. Vou sentar , mais uma vez, em minha varanda!
Eliane Reis

 

 

 

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