Fora de moda - por Regina Alonso

Fora de moda - por Regina Alonso

Fora de moda                                                                                                                      

Regina Alonso

 

   O futebol brasileiro dita a moda dos cabelos.  É só olhar a cabeça dos jogadores  em campo – um festival de cortes inusitados. Difícil imitar com perfeição o visual do Neymar. O craque é soberano em sua imagem única: o penacho vem da parte de trás e aponta no alto, à frente,  como se fosse a coroa de um rei, a balançar com firmeza  nas jogadas que acabam em  gol.  Os corações dos torcedores estremecem cheios de emoção... o  meu, que não entende nada de futebol, também se contamina, acelera as batidas e nesse ritmo, afloram os anos 50.

   Nesse tempo, cabelos lisos não estavam na moda. Os meus, escorridos, não seguravam fivelas nem grampos, que pareciam descer num tobogã! Folheando revistas, não me conformava ao ver modelos famosos com penteados que emolduravam os rostos com ondas generosas. No cinema, o suplício era maior: as artistas adquiriam vida e cheias de glamour, desfilavam silhuetas perfeitas e... cabelos sinuosos. Verdade seja dita, eu invejava até as ondas que se movimentavam suavemente na cabeça das amigas, sustentando fitas, tiaras  e quetais. A tia, toda noite, fazia papelotes, umedecendo as  mechas com cerveja para fixar  os fios e dar-lhes a forma desejada. Inútil! Ao sair à rua, mantinha a cabeça imóvel para não desmanchar o penteado, mas ao primeiro sopro de vento, as ondas desabavam em demolição, arrastando-me em seus destroços. Vivia amuada,  isolando-me, respondendo por monossílabos. Para acabar com o meu complexo (ou caprichos de adolescente), minha mãe economizou e levou-me ao salão de beleza.

   Entreguei-me às mãos salvadoras e ao cheiro fétido do líquido que aplicavam nas mechas. Tudo vale a pena se a alma não é pequena,  pensava durante o sacrifício que me levaria à grande transformação. Finalmente, diante do espelho, não consegui impedir as lágrimas que me inundaram e – Pessoa que me perdoe – a pobre alma encolheu. As manas ajudaram a tia a fazer rolos largos para tratar da carapinha.  Quem sabe conseguiriam amansar o oceano bravio?

   À noite, as amigas vieram buscar-me para o ensaio do bloco Chineses do Mercado, ali, na Rua Cerquinho. Tentei recuperar o ânimo: o mar há de estar  pra peixe e juntei-me à turma, que me olhava sem conseguir disfarçar o espanto. Caminhava como um condenado à forca, de cabeça baixa e dentro de mim, o pensamento da beleza inatingível  ia e vinha como as marés em noites de tempestade.

   Logo chegou a rapaziada e o meu eleito,  cheio de delicadeza, ergueu-me o queixo e gritou: Hor-rí-vel! O que você fez com aquele cabelo liso que escorria até os ombros?  Desandei a correr pelas calçadas até chegar em casa. Entrei feito um furacão! No quarto,joguei-me à cama, num choro convulsivo, até me levantar feito sonâmbula e diante do espelho, cortar as mechas rente ao couro cabeludo, ouvindo de mim mesma a pergunta:  Por que só agora ele revelava sua preferência?

   E conheci a ironia do amor e da própria vida!  Aprendi a aceitar o que é minha natureza ou sina e que hoje, é motivo de riso, porque aprendi a rir de mim mesma, o que é grande prova de que estou evoluindo. Rir faz bem e me fez erguer a cabeça, afinal não sou avestruz... O olhar para a frente fez-me descobrir a beleza muito além das aparências. O interior é o mar cotidiano, na juventude, nunca desbravado. Neste tempo em que podemos ter a aparência e a cabeleira que quisermos,  deixo as madeixas seguirem o curso natural: águas livres como as corredeiras!

 

 

 

 

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