Fragmento do Conto Pedaços de Felicidade do livro Em que esquina se esconde essa tal felicidade?

Fragmento do Conto Pedaços de Felicidade do livro Em que esquina se esconde essa tal felicidade?

Fragmento do Conto Pedaços de Felicidade do livro Em que esquina se esconde essa tal felicidade?

 

Seus cabelos esvoaçavam na dança das rajadas de vento, assim que chegou ao topo do mais alto edifício do centro do Rio. Ele tirou de cada mochila três pequenos baús de madeira, que guardavam os segredos de sua arca e os ofereceu ao vento. A tempestade tornou-se mais violenta. Uma frente fria e uma massa de ar polar amanheceram sobre a cidade. A condição propícia para que elas se disseminassem no ar e realizassem seu destino consagrado pelos oráculos do universo, desde a gênese da humanidade. A intensidade das correntes de ar aumentaria mais ainda, em segundos. Arquitetara tudo com o auxílio meteorológico do canal do tempo e com várias visitas ao último andar deste prédio, para conhecer sua geografia, fingindo ser um servidor público, desesperado por um empréstimo consignado, quando ensaiava a hipótese de um dia executar aquele gesto extremo. Não haveria erro.

Alguns passantes o avistaram. Gritos na rua. Mãos lhe apontavam.  Todos se perguntavam quem seria aquele doido. Um interno fugido do Pinel da Praia Vermelha? Um romântico suicida abandonado pela namorada? Um desempregado desesperado com suas dívidas e sem senso do desatino, que seria pular daquela altura? Um ex-participante de um reality show, buscando o resto da fama perdida após o auge de sua superexposição na mídia? Um cidadão indignado com os ônibus queimados na guerra oficiosa da segurança pública contra o narcotráfico? Ou um crítico profissional, consciente do desprezo dos governantes mundiais diante dos sem teto, de sua vida, da do próximo mais distante, iraquiano, africano, esquimó, latino-americano, dos seus irmãos inferiores em extinção no polo ártico ou nas florestas tropicais. Ou, possivelmente, um pacifista, protestando contra os atentados à saúde da mãe-terra, dos seus continentes irmanamente solitários, interligados por inúmeras teias, quase sufocados por milhões de cabos virtuais a emitir apenas megabytes e poucos acenos de amor. Não! Mesmo que todos esses indivíduos pudessem habitar dentro dele, naquele momento havia apenas um homem entusiasmado, que lutou bravamente contra seus desejos mais egocêntricos, para transformar sua grande renúncia num gesto libertário e concretizar a opção mais coerente ao ente amado: encontrar-se com aquilo que chamava de felicidade.

Bombeiros e policiais chegaram, cercando o prédio. Todos alertas de segurança das autoridades foram acionados. Pensavam ser um traficante, pronto para fazer uma chacina do alto do prédio, como represália à prisão de alguns chefes de facções criminosas dias atrás. Um helicóptero com uma repórter e um cinegrafista da tevê dirigia-se ao local. Sua imagem seria transmitida em rede nacional.

Aquela arma teria um efeito beneficamente devastador. E já era hora de presenteá-la aos irmãos cariocas e à irmã humanidade. O silêncio, que antecede as grandes revelações, dominou o ambiente e o coração de todos que o observavam na Presidente Vargas. Seria tão potente quanto um terremoto, um tsunami, uma guerra bacteriológica. Abriu a caixa de madeira e, de dentro dela, carregadas pelas fortes rajadas de vento, elas saíram voando. Eram centenas... de todos tamanhos e formas... leves ou pesadas... centenas e mais centenas... de poesias escritas nas madrugadas, bilhetes jamais entregues, cartas de amor e de perdão, pedaços de conversas escutadas nas ruas, em lanchonetes, filas de banco, consultórios médicos, perto de frondosas árvores, que camuflavam o assanhamento dos amantes compulsivos, pescadas na areia das praias, nos templos religiosos. Todas navegavam no intenso vendaval, numa chuva de papel e lirismo que cobriu a cidade, à medida que Edgar abria o segundo e o terceiro baú, igualmente recheados, assim como a enorme mala de rodinhas. Confissões do presente e do passado, que poderiam ser de qualquer indivíduo, viajavam nas asas do vento, para a mão de homens e mulheres anônimos. Bombeiros e policiais se entreolhavam atônitos. Edgar simplesmente ria de felicidade, atirando milhares de poesias no ar. Alforriava-se de Manuela, de seus pequenos e grandes egoísmos e a concedia a possibilidade de percorrer seu próprio caminho, não por ter deixado de amá-la. Mas por saber que o verdadeiro amor não se impõe, construindo correntes ou algemas, que aprisiona o outro ao nosso universo particular, e sim permite a ponte saudável e enriquecedora entre dois mundos, duas almas maravilhosamente ímpares e singulares. Sua imagem era transmitida para os lugares mais remotos do país. O helicóptero com a equipe de jornalismo já sobrevoava o prédio.

Entusiasmado. Essa era a palavra certa para conceituar o estado de Edgar. Repleto de divindade dentro de si, estendendo seu universo interior e o aprendizado de todas suas boas e más experiências ao próximo, numa lírica chuva de poemas que cobria a cidade. Um entusiasta a exalar, por todos os poros, uma sensação de paz, algo contagiante, capaz de perfumar o ar com sonetos, odes, sentimentos, até então, invioláveis, mas que poderiam transformar a quem tocasse naquelas folhas entregues pelo correio vento, um novo Hermes.

As rajadas do vendaval levavam histórias apaixonadas, momentos de alegria e êxtase, confissões e desnudamentos indescritíveis, que poderiam ser de qualquer um, para diferentes cantos da cidade, trazendo reflexões e reatando laços dispersos. Um sentimento de leveza dominava o íntimo de Edgar, que se sentia estranhamente livre, amando Manuela mais do que nunca, porém despido de qualquer necessidade de controlar seus passos ou da angústia de saber se faria ou não parte do agitado destino fashion da sua quase noiva. De camisa e braços abertos, entregava-se passivamente àquela carícia, que o vento realizava em seu corpo, e ao entusiasmo incomensurável que o linkava diretamente com as energias mais arrebatadoras do cosmos.  Perto dali, outros seres entorpecidos, pelas ocupações diárias, despertavam a cada poesia, que caia em suas mãos.

Euforicamente antenado. Essa foi a expressão humana mais próxima, apesar de ainda pobre, para descrever o ciclone sentimental, que disparou os desejos e decisões de Jota Silvério, o moreno estagiário do Banco do Brasil, promissor executivo de cavanhaque sempre bem aparado, olhos brilhantes e pés apressados, quando um dos poemas de Edgar caiu em cima de seu copo de mate gelado ao sair da lanchonete, onde almoçava seu diário PF de cada dia. Naquela tarde, ele concluía seu período de experiência no trabalho e ganharia novos horizontes, numa agência do subúrbio, em Campo Grande. Aumentaria sua remuneração, mas também se distanciaria dos prazerosos minutos de deleite nas ruas vizinhas do Largo da Carioca, onde apreciava sempre, na volta do almoço, uma artista de rua, que desenhava com tinta nanquim o rosto dos passantes, misturada aos ambulantes descredenciados, que faziam a vida entre o ilegal e o necessário.  Ela tinha os cabelos ruivos estilo rastafári, pele branca, dedos amanteigados como luvas de seda. E ele não sabia se encantava-se mais com o sorriso daquela mulher ou com os traços perfeitos de suas pinturas. Só que, nesses cinco meses de estágio no Centro do Rio, ele nunca conseguiu trocar uma palavrinha com ela, só olhares... E que olhares! E estes claramente correspondidos, apesar de ela sempre estar apressada em atender seus admiradores ou fugir da ronda policial. Seu sotaque e olhar vigilante revelavam nitidamente sua condição de imigrante espanhola ilegal no país. Jota sabia que, naquela tarde, teria a última chance de vê-la, a derradeira oportunidade de enlouquecer num ardente romance ou transformá-la eternamente num fantasma do passado, musa platônica, perdida no oceano da memória em algum escaninho da mente, entulhada de informações desse mundo fragmentado e cibernético. Mas a poesia do nosso tresloucado emissário do vento detonou em nosso ex-estagiário uma coragem jamais sentida.

Só restou a Jota usar de toda sua impulsividade juvenil e confessar à ruiva desenhista de rua o evidente desejo estampado em sua face. Então, ele a arrancou de um tumulto gerado pela ronda policial, que prendia os ambulantes descredenciados, e num desses vários becos e ruelas do centro da cidade, respiraram ofegantes da fuga desenfreada, grudados a uma velha parede de alvenaria descascada, molhados por inteiro de suor. Conversaram com os olhos lânguidos e transparentes e começaram sua própria história.

Semelhante reação, descontroladamente saudável, teve o casal de irmãos médicos da equipe dos Doutores da Alegria, Crispim e Ema. Numa das bufônicas visitas à ala infantil de uma clínica, próxima ao epicentro do tornado de poema e poesias, eles assistiram à chegada do vendaval colorido de papéis, repletos de sentimentos esquecidos pelos pobres terráqueos. E um deles grudou entre o nariz de palhaço de Crispim e seus fios espetados da barba espessa.

Horas antes, ele recusara-se a atender a chamada da outra irmã por parte de pai. O adultério sofrido por sua mãe fora extremamente indigesto e terminou com o definhamento da mesma, numa depressão fatal. Crispim e Ema enchiam de entusiasmo os pequenos pacientes de inúmeras clínicas da cidade. Mas paralisavam cada vez que pensavam em rever o pai, que agora agonizava em estado terminal num sítio no interior de Minas Gerais, aos cuidados da filha do segundo casamento. Até que as íris de Crispim e de Ema levaram um bofetão dos versos líricos, que grudaram no nariz de palhaço daquele médico barbudo.

Depois desse sacolejo irônico a quem fazia rir, mas negava um sorriso àquele que mais próximo deveria estar, Crispim e Ema perceberam que, às vezes, puxões de orelha surgem dos momentos mais inesperados e que o tempo é veloz com tudo e com todos. Precisavam agora somente de duas passagens aéreas rumo a Minas, para ontem. O amor pede urgência. O perdão, nem te conto.

E disso a septuagenária Elizabeth não teve dúvidas, quando alguns poemas prenderam-se no cabo de seu guarda-chuva. Com relações cortadas com a irmã Brigite, desde a polêmica briga pelos bens do falecido pai, um boêmio flautista da Lapa, que deixou seu precioso instrumento de herança para a mais velha, Elizabeth, elas só trocavam ofensas pelo telefone, e-mails amargurados de ressentimento, xingamentos em via pública. Elizabeth nem chegou a conhecer a recém-nascida sobrinha-bisneta por conta dessa batalha familiar.

Na verdade, sentia muita falta da irmã, das conversas de mulherzinha, de saírem juntas para os bailes da terceira idade, em suas viuvices precoces, para apalparem o traseiro dos professores bonitões da aula de dança de salão, quando fingiam derrubar os óculos de propósito no chão. Sentia falta de confessar seus medos, desejos, pequenas alegrias e saudades, que tingiam o modorrento passar de seus dias. E pior de tudo: Elizabeth nem sabia tocar flauta. Não tinha o menor jeito para aquilo. Só uma admiração obsessiva pelo instrumento, como se ele fosse uma extensão do pai falecido a viver consigo em casa. Já Brigite descobrira sua musicalidade recentemente, com as aulas de flauta doce na igreja, mas o que ela queria era tocar a transversal do pai. Naquela tarde em que Elizabeth descobrira, no consultório médico, que uma forte artrose comprometia o movimento da articulação de seus dedos, a inutilidade de guardar aquela relíquia sagrada martelou sua cabeça até ler aquele poema.

 

 

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