Ingratidão - por Maria de Fátima Soares

Ingratidão - por Maria de Fátima Soares

As montanhas eram sentinelas vestidas de branco na paisagem. Os parcos ramos, cobertos de neve, lá longe, reclinavam-se num cansaço aparente. Há muito que tudo cristalizara, parando suspenso no tempo. Estar ali em pleno nada, rodeado de beleza, a tinir de frio, não era fácil. Ao que o conduzira o seu ódio? A raiva acumulada por anos, cobrindo-o de azedume. Tudo porque nascera num dia de Natal! Nunca se sentira alguém com identidade própria, para além do associar da mãe, extremamente religiosa, a que o seu menino, ao nascer no dia de Jesus, tinha sido uma dádiva. Dádiva que ficou sempre por isso mesmo! Ser o presente em si. Crescera sem afecto de pai. Conotado com a benta criança de Belém. E prendas, nunca as tivera, pois a dever-se fazer uma vida de humildade, a vida é o presente que devemos celebrar. Via os outros miúdos no dia seguinte, exibirem os seus brinquedos. Ele, nada tinha. Mal pôde sair de casa partiu, sem ligar se partia o coração à mãe! Que culpa tinha, se fora estúpida, deixando-se seduzir por alguém que a largara? Nunca tivera muito para lhe dar… Mais, que a sua inesgotável e patética fé, que era tudo que lhe sobrava a ele! Fez-se ao caminho, e à vida! Teve tudo, que a vida até aí lhe negara. Descrente de meninos em palhas deitados, no meio de vacas e burros, só se fosse burro continuaria a alimentar algo, pelo qual nutria um asco desmedido…

Hoje? Estava enterrado em vida. Numa cova no gelo, porque nunca se privara de nada, sem precisar de ninguém. Nem do guia turístico que o aconselhara a ter cuidado. E que o deixasse acompanhá-lo, mas recusou! Hoje, faltava-lhe pouco para morrer enregelado no meio de nenhures, vítima de sobranceria. Vivera bem! Percorrera o mundo. Tivera conforto, mulheres, poder, dinheiro. De que lhe serviam, agora? Morreria, se era o destino que o menino, santo, lhe reservara. A odiá-lo! Maldita, criança! Sempre vivera na sua sombra. Até o sobrenome lhe herdara. Todavia na sua lápide, pelo menos, não haveria um “aqui jaz Gustavo de Jesus.” Pereceria num maciço qualquer. Tossicou num esgar dorido. Estava ali há dois dias. Febril, faminto. Raiava as portas da loucura, quase cego pelo branco azulado da neve, mirrado pelo sopro cortante glaciar. Os pulmões a ressequir… Fosse por isso, que começou a ver luzes. Ouvir vozes? Seria ele? O menino, que viera apiedar-se? Ou o rosto da mãe, já morta, quiçá? Nunca mais soubera de ela! Parecia-lhe uma criança… Seria o filho que nunca teria no futuro, se o tivesse desejado? Mas nem isso o preocupara antes. Era uma criança loura, rosada. Olhos ternos, boca sorridente. Tão perto, de mão estendida que se mexesse a sua... Enlouquecera! Fechou os olhos e deixou-se ir. Desistiu entregando-se à morte.

Não entedia nada ao acordar! Como aparecera ali, rodeado de máquinas, de volta à civilização? Havia alguém lá atrás, curvada… Como se estivesse encolhida a um canto, com medo de se mostrar. Aquilo saiu-lhe, instintivamente…

- Mãe!

Talvez, fosse tudo um sonho! E no entanto O menino fosse mesmo salvador, por carregar o seu nome. Ter nascido no seu dia. Talvez… Pudesse viver. Não! Mais uma vez, era a febre.

Porém, agora, pensava seriamente nisso! Fosse ele a causa de estar ali, tantos anos passados. Homem casado a repreender os filhos para não saírem da pista de gelo? Outro, jamais voltaria a pisar neve. Jurara-o, mas… Que se não faz pelos filhos? Crianças, que no meio dum feixe de luz que, nos apareceram um dia, devolvendo-nos à vida? Como recusar um beijo na face duma mãe velha, que em breve já não estaria a seu lado e devia compensar. No fundo, ela sempre fez o melhor que podia e… Percebia-o tão bem, presentemente, quando fora impiedoso no passado. Como não retribuir o sorriso à mulher que se ama. E também ela nos redime? Para que se quer tanto dinheiro e poder, se não for para partilhá-lo com a família. Voluntariamente ajudar os outros na rua, tentando mudar-lhes a sorte. Naquele dia… Naquele malfadado dia, pensava que morria numa calota isolada no Ártico. Afinal… Não! Não havia melhor que ter isto! Estar, vivo. Crescer por dentro. Ter uma casa, família, o suficiente. E encarar aqueles olhos enrugados, cheios de lágrimas, que ainda hoje lhe chamavam o seu menino. O melhor presente da vida!

 

Maria de Fátima Soares (Lisboa, 10.01.2013)

 

Publicado 11/01/2014

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