Interpretando a poesia de São João da Cruz a partir da fenomenologia de Edith Stein - por Carlos Vargas

Interpretando a poesia de São João da Cruz a partir da fenomenologia de Edith Stein - por Carlos Vargas

Interpretando a poesia de São João da Cruz a partir da fenomenologia de Edith Stein

 

São João da Cruz, nascido Juan de Yepes Alvarez, em 24 de junho de 1542, em Frontiveros, escreveu poesias místicas que marcaram o “siglo del oro” espanhol. O século de ouro espanhol é considerado uma época de apogeu para a cultura espanhola, entre os século XVI e XVII.

Entretanto, a intenção original do frei carmelita descalço não era fazer um lançamento literário, mas expressar suas experiências místicas e orientar outras pessoas da mesma família espiritual. Seguindo a influência da Santa Madre Teresa de Jesus (1515-1582), ele escreveu livros comentando os ensinamentos espirituais dos seus poemas. Em obras como Subida do Monte Carmelo e Noite Espiritual, ele desenvolveu temas latentes em suas obras. Como escreveu o padre Teixeira-Leite Penido (1949), referindo-se ao período em que o frei era reitor de um colégio em Alcalá: “fiel a seus princípios, João da Cruz procurava fazer [...] contemplativos antes que sábios, ou por melhor dizer, servia-se da teologia para alimentar a contemplação”. 

Outra santa carmelita, séculos depois, faria uma interpretação da obra de São João da Cruz a partir da fenomenologia de Edmund Husserl. A doutora Edith Stein (1891-1942), que professou como irmã Teresa Benedita da Cruz, no Carmelo Descalço utilizou seu conhecimento filosófico para entender melhor o pensamento do santo espanhol, na época em que se preparava o quarto aniversário do seu nascimento.

Edith Stein ofereceu contribuições para a compreensão do cristianismo partir de uma fenomenologia da mística carmelitana, como foi explicado pela professora Angela Ales Bello (2009, p. 119): “esta fenomenóloga alemã dedicou algumas de suas importantes reflexões ao misticismo carmelita. Ela estava tão interessada que decidiu ingressar e tornar-se parte do mosteiro carmelita de Colonha como uma irmã de clausura”[1].

Edith Stein caracterizou a vida e doutrina de são João da Cruz como ciência da cruz (Kreuzeswissenschaft). Em um artigo publicado na revista Interações (2012), pude descrever o esforço intelectual de Edith Stein da seguinte maneira:

Partindo da análise dos principais símbolos de são João da Cruz (1996), Edith Stein pretende mostrar os elementos característicos da vida e obra desse autor, mas também desenvolve elementos antropológicos próprios que superam, em alguns aspectos, a obra comentada. Além disso, sem explicitar, ela utiliza um método de análise dos símbolos místicos que é muito parecido com a clarificação fenomenológica que ela havia aprendido diretamente com o filósofo Edmund Husserl (VARGAS, 2012, 166) .

Edith Stein analisou os sentidos simbólicos da cruz e da noite: “por esta razão, parece-nos conveniente examinar em profundidade a relação entre a cruz e a noite, a fim de obtermos a compreensão exata da importância da cruz da doutrina de são João” (STEIN, 2004, p. 40).  Entretanto, a relação simbólica entre noite e cruz passa pela distinção entre noite ativa, que aceita e toma a cruz sobre si, e noite passiva, relacionada com a crucifixão, entendida como morte para o pecado.  É complexo fazer uma descrição antropológica da aceitação da cruz:

Se [o santo] quiser partilhar com ele [Cristo] da vida, com ele deverá passar pela morte de cruz, e deverá passar pela morte de cruz, e deverá, como Cristo, crucificar a sua própria natureza por uma vida de mortificação e renúncia, entregando-se à crucifixão pelos sofrimentos e pela morte, conforme Deus determinar e permitir. Quanto mais perfeita for a crucifixão ativa e passiva, tanto mais íntima será a união com o crucificado, e tanto maior será a participação na vida divina. Eis os traços principais que caracterizam a ciência da cruz; sempre o reencontraremos ao penetrar a doutrina de são João e ao acompanhá-lo ao longo de sua vida. Haveremos de mostrar que foram essas forças dinâmicas que plasmaram profundamente sua vida e sua obra (STEIN, 2004, p. 35).

Se o ponto de partida de Edith Stein estava nos símbolos poéticos de São João da Cruz, ela passa a analisar a estrutura antropológica essencial que permite a experiência mística: “a corrente que desta fonte vem, é forte e poderosa, eu sei-o bem, mesmo de noite” (JOÃO DA CRUZ, 1996, p. 44). Em seu martírio, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, a autora teve chance de demonstrar, com a própria vida, a força de sua doutrina em relação à Cruz. Entretanto, como ela não chegou a terminar a obra Ciência da Cruz, ainda resta o desafio intelectual de desenvolver sua metodologia fenomenológica para verificar a relação entre o simbolismo místico joanino e a antropologia das manifestações dessa ciência dos santos.

 

 

Referências:

 

ALES BELLO, Angela. The Divine in Husserl and Other Explorations. Trad.: Antonio Calcagno. Dordrecht: Springer, 2009.

 

JOÃO DA CRUZ, São. Obras completas. Trad.: Carmelitas descalças de Fátima, carmelitas descalças do convento de Santa Teresa et alli. Petrópolis: Vozes: Carmelo Descalço do Brasil, 1996. 

 

PENIDO, M. T. L. O itinerário místico de São João da Cruz. Petrópolis: Vozes, 1949.

 

STEIN, Edith. A ciência da cruz: estudo sobre São João da Cruz. Trad.: Beda Kruse. 4ª  ed. São Paulo: Loyola, 2004.

 

VARGAS, Carlos E. de C. A clarificação fenomenológica de Edith Stein como ponte epistemológica entre a antropologia filosófica e a teologia simbólica.  Interações, Belo Horizonte, v. 7, n. 12, 2012. Disponível em:

 


[1] No original: “this german phenomenologist dedicated certain of her important reflections to Carmelite mysticism. She was so interested that she decided to enter and become part of the Carmelite monastery of Cologne as a cloistered nun”.

 

publicado em 22/04/2014

 

 

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