Janela interior - por Regina Alonso

Janela interior - por Regina Alonso

Janela interior                                                                                                                    

                                                                                                    Regina Alonso

 

   Tempo de visita, tempo que se faz quando buscamos o convívio. Não há desculpas: estamos atarefados, temos tantos compromissos, mas o encontro é como a respiração – essencial para a vida. E lá vamos nós...

   A primeira acolhida é no corredor do quinto andar, uma quebrada à direita, que termina num canto de luz, quadros e plantas. Abre-se a porta, o cãozinho salta à frente e logo atrás, o casal sorri. Na copa-cozinha, a mesa sempre posta para receber – um café quentinho, pão fresco... e o bolo caseiro perfuma o espaço com o cheiro de canela. Cadeiras e um banco tosco à cabeceira, lugar reservado aos donos da casa. Na pausa da conversa, o olhar atravessa a janela, na parede à direita . Não é uma abertura qualquer... deixa entrever um recorte da sala, mas o que nos aprisiona e encanta, é a composição afetiva sobre o parapeito.

   Vidros coloridos de diversos tamanhos com flores, algumas caídas em botões secos... outros exibem galhos de tempero – manjericão, cujas folhas vão à mesa, onde  são maceradas com azeite numa terrina de pedra –  molhamos o pão (e a alma comunga). Não pensem que a janela interior oferece sempre a mesma paisagem. Como um haicai, a cada estação revela um novo poema... Em tempos de Páscoa, coelhos de tecido e ovinhos coloridos fazem a alegria do neto e dos visitantes. No inverno, o casal retorna das férias em Campos de Jordão e pinhas e folhas de pinheiros juntam-se às espécies trazidas de Portugal... Todos viajam nessas formas e nas sementes secas, que serão plantadas no momento certo.  E renascerão surpreendendo-nos em qualquer retorno. Nos festejos juninos, miniaturas de balões de papel e lanternas, que nos iluminam enquanto saboreamos o bolo de fubá e o quentão. Santo Antônio, São Pedro e São João, imagens de barro, fazem a vigília pela noite afora.

   Nada é para sempre. O tempo é transitório. A dona da casa caminha pelas ruas, sempre com os olhos do coração abertos... E garimpa no lixo limpo, preciosidades,  inesperadamente compartilhadas quando nossos olhos tocam bules de porcelana, antigos e modernos, dispostos sobre o beiral afetivo. Prolonga-se o prazer da taça de vinho, da conversa sobre a caixa de papelão, ali, imóvel num canto da rua, à espera da descoberta e da nova morada.  Assim é para quem percorre os caminhos com os sentidos despertos, ou melhor, quem se deixa tocar pelo inesperado, pela vontade de descobrir atalhos e outras margens de viver em plenitude.

   Na sala de estar, sobre o tampo de madeira, a vida se esparrama. Uma vela acesa ilumina e mostra de quando em quando, as camélias cor de rosa em botão, sobre uma folha seca enrugada cheia de vincos... Dedos percorrem as saliências e tecem o imaginário – onde foram colhidas ou estariam caídas no chão de terra? As camélias desabrocham e sua cor nos atinge num momento surreal.

   Chega novembro e o casal já se prepara para o Natal. Prepara o seu dentro, pois é ali que se dá o milagre do renascimento. E a janela interior abre-se de par em par... nossos olhos, abelhas famintas atrás do néctar, pousam no beiral , onde o presépio é montado, cotidianamente, desde o alvorecer até o anoitecer de cada dia.  Partilhamos o pão, doce panetone que cresceu no tempo e na alegria da acolhida.

   Sabemos que para isso fomos feitos. Para amar incondicionalmente, ao descobrir que a felicidade faz-se quando portas e janelas se abrem. E vamos ao encontro do outro... ao encontro de nós mesmos e do mistério de simplesmente viver.

 

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