Joaquim Nabuco, o Educador - por Luiz Ernesto Wanke

Joaquim Nabuco, o Educador - por Luiz Ernesto Wanke

            JOAQUIM NABUCO, O EDUCADOR.

            Por Luiz Ernesto Wanke e Marcos Luiz Wanke.

 

                        Conhecemos Joaquim Nabuco como um advogado mediano, um diplomata competente, um notável escritor e jornalista, um político atuante e, principalmente, um abolicionista brilhante. Mas quem diria, Nabuco praticamente começou sua vida produtiva depois de formado, tentando estabelecer um plano de reforma para a educação imperial brasileira! É o que nos revela duas cartas de nossa propriedade, que estavam perdidas junto a um colecionador, não estão registradas pela Fundação Joaquim Nabuco e são dirigidas ao Conselheiro do Império Francisco Ignácio Marcondes Homem de Mello, amigo e ex-professor nos tempos do Colégio D. Pedro II.

                        SEU TEOR  

                        Nesse tempo o Barão Homem de Mello era o elo de ligação de Nabuco com o imperador, já que ele ocupava o cargo de Inspetor Geral da Instrução Pública. As cartas são da época que Nabuco, embora formado, ainda não tinha definido os rumos profissionais de sua vida. Passou a trabalhar na banca de advocacia do pai, José Nabuco de Araujo, no Rio de Janeiro, mas na maior parte do tempo ficava em Petrópolis por conta do medo de um contágio pela febre amarela. Dizia Nabuco: “Tenho de tal modo desabilitado do calor que criei uma constituição européia, e, por isso somente, estou retirado e longe da febre amarela, com prejuízo meu porque não assisto no escritório.” Em fevereiro de 1873, Nabuco preparava-se para sua primeira viagem à Europa e escrevia suas pretensões a seu ex-mestre: queria um cargo oficial para observar durante sua viagem os meios de educação desenvolvidos nos principais países da Europa e nos Estados Unidos:

                        “Tenciono partir em maio próximo para a Europa e estimaria poder lá ser útil a essa grande causa do derramamento e da elevação da instrução entre nós. Se o senhor quisesse encarregar-me-ia de ordem do ministro ou sua com autorização para isso, de estudar a instrução na Europa, e especialmente na França e Alemanha, podendo eu passar pelos Estados Unidos. Há muito que ver na Europa,e que introduzir aqui e esse trabalho só pode ser feito por quem conheça as necessidades e aptidões de nosso país, com a utilidade e exeqüibilidade das reformas. Na Alemanha e nos Estados Unidos vê-se a universalidade da instrução primária; na Alemanha e na França vê-se a forte e severa organização do ensino superior e é de notar que em nosso país não se sabe o que lamentar mais, se a ignorância das massas, se a instrução ligeira e superficial das classes superiores. Sem classe superior instruídas, na extensão das palavras, nada se pode conseguir e ainda que todo o povo saiba que os primeiros lugares pertencerão à mediocridade e a meia ciência. Estou convencido que há muito que reformar na atual organização do ensino superior e que a iniciativa de um homem basta para isso, como estou também convencido de que a má organização desse ensino e do secundário se deve atribuir à esterilidade de nosso talento e o período de ingenuidade literária e científica que atravessamos, quase no último quartel do século XIX!”      

                         Tal como queria o cargo (ou missão) pleiteado pelo idealista Nabuco não existia nos meandros da burocracia imperial. Ele mesmo esclarece onde se poderia achá-lo lançando a semente para seu futuro: “Os nossos funcionários diplomáticos têm essa incumbência, mas como a cumprem pode se ver nos relatórios publicados, que são compilações de algarismos e artigos nos jornais, sem vistas próprias nem originalidade. Oferecendo-me para estudar a instrução pública e num caráter oficial , quero sobretudo aproveitar-me das vantagens que tal comissão dar-me-ia, sendo então tudo franqueado e podendo pedir em toda parte auxílio de nossas legações.”

                        Nabuco pretendia ir na Exposição de Viena de 1873, dedicada à cultura e a educação, porque para ali “afluirão os diferentes sistemas de instrução publica” Também lera que o senhor Jay, da comissão diretora, enviara um pedido para que os Estados Unidos mandassem os modelos de edifícios da educação nacional, seus móveis e utensílios, os planos de sua distribuição interior, assim como os exemplares de seus regulamentos e compêndios, as estatísticas dos progressos intelectuais, enfim, “tudo que pudesse atestar que sob o ponto de vista da instrução popular os Estados Unidos com seu ensino comunal obrigatório, estão à frente de todos os países do mundo”.

                        Essa suposta missão de Joaquim Nabuco tinha até um tempo de duração previsto por ele, três anos: começaria em 1873 na Exposição de Viena e se encerraria em 1876 com a Exposição da Filadélfia, nos Estados Unidos e em comemoração ao primeiro centenário da independência. Portanto, está implícito que a missão deveria ser remunerada.

                        Suas opiniões sobre nossa realidade educacional eram cáusticas. Nabuco fazia críticas até com os livros didáticos (compêndios) que por serem feitos aqui mesmo e por qualquer um, eram fracos e desatualizados: “O compêndio, além do merecimento de ser verdadeiro e não conter faltas de nenhum gênero, deve ser o de facilitador do ensino. O método, portanto deve ser tão importante como o da exatidão e a falta desta leva o discípulo a errar e perder tempo.”

                        Mas as cartas são incisivas na análise da educação nos outros países. A França vivia uma crise no ensino secundário e estava tentando implantar uma reforma: “A França atravessa agora a mesma crise e nada deve ser mais curioso do que assistir a sua renovação que o senhor Jules Simon vai introduzir nos estudos e que já começou com a adoção do sistema grego: o saber e desenvolvimento harmônico do corpo, sendo notar que entre nós são completamente desconhecidos e que o corpo entregue desde a infância à indolência dos costumes tropicais torna-se um senhor em vez de ser um instrumento de força e espírito e essa inércia que desonra o Brasil os melhores talentos.”

                        Jules Simon ocupou a cadeira da Educação no primeiro governo de Thiers.  Na sua reforma, tentou introduzir – entre outras medidas - o ensino primário e universal gratuito. Infelizmente Simon caiu ainda em 1873, duas semanas antes do final deste governo. Sobre isto, Nabuco fez uma previsão e uma observação: “Mais cedo ou mais tarde (em breve tempo) a instrução francesa torna-se-há obrigatória, como será leiga. É essa transformação que julgo ser muito digna de observação, porquanto nós que temos de passar pela mesma crise, temos mais interesse em saber como os outros povos a atravessarão do que em saber como vivem com instrução; da mesma forma que para nós é mais interessante saber como se produziu nos outros países a transformação do trabalho escravo em trabalho livre, do que como eles vivem com a liberdade”.

                        Apesar de tudo, para Joaquim Nabuco a França é digna de ser estudada.  “Não é somente porque se encontra em Paris núcleos científicos e literários da maior importância, é também porque lá estão estudando nas mesmas instituições homens de todas as partes do mundo, é lá que chegam todos os progressos realizados sobre a Terra.” E continua: “Oposto ao sistema de privilégios de que a França é cabeça é o sistema inglês e é por isso que os Estados Unidos deram um extraordinário desenvolvimento no seu sistema americano.”

                        Quanto aos outros países europeus, Nabuco comenta: “Na Suíça vê-se a instrução obrigatória em cada cantão. Há muitos estabelecimentos a examinar neste país como a Universidade de Berna e da Basiléia, as escolas de direito de Friburgo e Sion, as Academias de Genebra, Lausane e sobretudo a Universidade de Zurique.”  Já na Bélgica destaca a liberdade: “Não tendo a instrução obrigatória, tem a Bélgica o ensino livre. Seria curioso ver porque motivos a Universidade Católica de Louvain prospera mais que as do Estado. Ali o Estado dá a instrução superior, mas deixa-a livre.” Na Itália, o respeito à tradição e memória: “Na Itália a instrução secundária acha-se muito desenvolvida e há o mesmo regime de liberdade da Bélgica. Para mim nenhum trabalho haveria mais cheio de recompensa do que o de estudar em cada uma dessas cidades que assistiram ao movimento mais belo do espírito humano, o do Renascimento.” Ou a eficiência do ensino na Áustria: “ A Áustria é um país muito curioso sob o ponto de vista de sua instruções porque 88 por cento dos conscritos sabem escrever!” Ou ainda a educação da Holanda: “Não se pode também deixar de ver a Holanda, célebre pela organização de seu ensino primário e por suas necessidades das quais a de Leyde é digna de renome pela iniciativa que tomou por sua escola histórica.” Mas é a educação alemã que entusiasma Nabuco: “É na Alemanha que estão reunidos os progressos todos da ciência e instrução moderna; ali tudo é objeto de estudo. É lá que as universidades florescem.”

                        Na Inglaterra Joaquim Nabuco assinalou os altos rendimentos financeiros das Universidades de Oxford e Cambridge, que não dependiam do Estado e tinham até representantes no Parlamento. No entanto, para ele, é nos Estados Unidos que se deve estudar o desenvolvimento universal da instrução.

                        Embora pretendia embarcar para a Europa em maio de 1873, Joaquim Nabuco só viajou em agosto daquele ano. Regressou ao Brasil no ano seguinte e no começo de 1876 seus pais conseguiram o cargo de adido da legação nos Estados Unidos, mas já em 1877, a pedido, foi transferido para Londres.

                        Justamente o que pretendia.

                        Luiz Ernesto Wanke é professor. Na aposentadoria adora escrever sobre História. Seu filho, Marcos Luiz é Engenheiro Civil e pesquisador nato e foi quem descobriu as cartas inéditas de Nabuco.  Pertence ao Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. Juntos publicaram oS livros: Brasil Chinês que trata do descobrimento da América pelos chineses no V século d.C.; O Grito do Ipiranga Segundo Pedro Américo e mais recentemente, Piás de Hitler sobre o nazismo no sul do Brasil.

                        SAIBA MAIS:

            Nabuco, Joaquim – Diários 1873-1910 – Bem-Te-Vi -2006

            Nabuco, Joaquim – Um Estadista do Império – Nova Aguilar - 1975

            Nabuco, Joaquim – Minha Formação – Editora Três - 1974

            Nabuco, Caroline – Vida de Joaquim Nabuco – José Olympio – 1958

            Viana Filho, Luiz – A Vida de Joaquim Nabuco – Martius - 1973

                        BOX 1 – “QUEM TEM PADRINHO NÃO MORRE PAGÃO”.

                        É razoável se pensar que Joaquim Nabuco não conseguiu seu cargo de “comissário” da educação imperial na sua primeira viagem à Europa por razões burocráticas. E que também tenha se decepcionado com o fracasso de seu pedido porque não fez nada que planejou para sua viagem de 1873 e nada registrou nos seus escritos (diários e livros) sobre o assunto. Mas baseado no teor destas duas cartas, mais tarde, por indicação do Barão Homem de Mello foi nomeado para o cargo de adido de primeira classe, o primeiro de sua carreira. Para isto certamente teve ajuda influente paterna porque na última dessas cartas Nabuco despede-se do Barão citando toda admiração pelo pai, que foi inspiração para sua obra prima, “Um Estadista do Império”:

                        “Tomei o dia de hoje para responder-lhe e envio-lhe esta por meu pai, com quem lhe peço que se entenda sobre tudo que me disser respeito; como ele pensar pensarei eu.”

BOX 2 – ESCOLAS MISTAS E PARA NEGROS.

                        Nabuco pregava que as escolas deveriam ser mistas, num tempo que no geral a educação das mulheres restringia-se ao estudo do francês – para um bom casamento – e prendas domésticas – para serem boas esposas. Diz ele: “Para as escolas mistas das quais se diz mais vantagens que inconvenientes, enquanto que na França são julgadas perigosas para os costumes e insuficientes para a educação” (ver o livro l’École de Jules Simon). Para ele esse preconceito estava ligado à índole latina e a religião.

                        Outra observação referindo-se aos Estados Unidos: “Para um assunto que nos interessa: as escolas para homens de cor, escolas que tanto desenvolvimento tiveram depois da guerra que representam tão interessante papel na transição da escravidão para a liberdade.”   

 

                        BOX 3 – UM PROTESTO CONTRA A NOSSA IGNORÂNCIA

 

                        No trecho abaixo das cartas, Joaquim Nabuco pratica o raciocínio e estilo que mais tarde desenvolveria à perfeição:

                        “É na verdade uma grande causa, a da instrução pública. É preciso fazer-se alguma coisa mais do que decretar o ensino obrigatório. Entre nós ele ficaria na letra da lei como em Portugal. É preciso formar as classes altas, essas das quais saem os ministros, os deputados, os senadores, os juízes, os médicos, os homens de letras, os advogados e os professores. Na verdade os estudos superficiais que se fazem entre nós, exceto por dois ou três, por jurisprudência, tem sidos fatais ao país. È preciso, porém, que fujamos dos estudos incompletos e precipitados. É tempo que façamos pela humanidade alguma coisa de útil. Colhemos os benefícios da inteligência, da ciência e da dedicação de outros, mas sem nada lhes dar. Por que não fizemos ainda dar um passo a nenhuma ciência, a nenhuma industria,a nenhuma arte? O que já descobrimos? (exceto o aeróstato, se é exato que a glória é nossa). O que já produzimos de duradouro, a não ser as nossas leis orgânicas? Nada! E no entanto não nos falta inteligência nem campo de estudo. Mas da mesma forma que nossa natureza é descrita pelos estrangeiros, são os estrangeiros que escrevem a nossa História. É triste a feição moral de um país cujo aspecto físico é sem rival no mundo. Quando leio essa bela página escrita sobre o Brasil em um dos livros que mais honra fazem ao nosso século, a História da Civilização, na Inglaterra, pergunto a mim mesmo põe-se aqui em um contraste com a natureza que o aniquila, ao passo que nas costas da Nova Inglaterra o contraste  da grandeza das instituições e da perseverança da industria com a esterilidade do solo eleva a inteligência acima de todas as causas físicas.

                        Creio que a grande esterilidade de nosso espírito provem da imperfeição de nossos estudos; enquanto, porém, não podermos levantá-lo, todos desenvolvemos o da química, da zoologia, da botânica, das ciências naturais, afim de que possamos por nós mesmos conhecer o nosso país. Dê-se também desenvolvimento aos estudos históricos que são a honra de nosso tempo para que quanto antes possua o Brasil uma história nacional digna de um povo livre e de uma geração culta.”  

 

 

 

 

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