Jorge Ferreira - Entrevistado

Jorge Ferreira - Entrevistado

Por João Paulo Bernardino – Escritor

 

Comecei a escrever aos 47 anos. Tenho tido diversas profissões desde segurança privada a técnico de gás. A escrita apareceu como um passatempo, um escape para o dia – a – dia. Há 2 anos para cá, tenho vindo a juntar-me a pessoas ligadas ao meio literário. Este meio tem permitido uma enorme fonte de inspiração para poder continuar com a minha escrita.   

“A idade não é um obstáculo, nem um estado de alma, é aquilo que cada um quer que seja, basta haver determinação, vontade e espírito criativo que pretendo nunca perder e escrevê-lo nas próximas décadas, nas obras, que já fervilham dentro de mim.”

 

Boa Leitura!

 

JPB – Antes de mais os nossos agradecimentos por aceitar conceder-nos esta entrevista para a Divulga Escritor. O Jorge Ferreira é talvez, um dos escritores que tive o prazer de entrevistar que mais trabalhos publicou nas mais diversas editoras, sejam livros em que é o único autor, sejam em colectâneas. Talvez por isso, se sinta mais à-vontade para nos confessar o que acha do facto de hoje em dia, os autores terem de participar financeiramente para que as editoras publiquem os seus textos? Acha que haverá possibilidade de mudar esta situação em breve ou considera algo normal nos dias que correm?

Jorge Ferreira – Nos dias que correm as dificuldades neste âmbito são sentidas com grande intensidade sendo praticamente um reflexo da ausência de apoios. Embora exista alguma ajuda da parte de poucas editoras que facilitam em participar financeiramente na publicação de textos, como por exemplo o “Instituto Camões de Portugal – “Apoio à Edição de Obras Literárias de Língua Portuguesa”, elas são uma gota de água. A maioria dos autores têm que suportar financeiramente a publicação dos seus textos, e, a quase inexistência de patrocínios limita sem dúvida a concretização de muitos sonhos. Eu conheço muitos escritores e todos eles se encontram nesta situação. As suas criações intelectuais do domínio literário muitas vezes de surpreendente qualidade não chegam ao domínio público. O ideal seria o apoio incondicionável aos escritores, com a criação de recursos económico-literários, criação de mais espaços estimulantes de leitura (Leitura de rua, Bibliotecas, escolas,…), livros economicamente mais baratos, maior produção e distribuição literária para que as obras literárias chegassem a mais leitores. Deveria também haver uma atenção especial para uma maior divulgação de autores e obras literárias, mas, porém, no contexto do panorama atual português e internacional, parece que neste momento não há forma de conseguir inverter o sistema de modo a dar ao escritor e às suas obras o valor cultural merecido. Mas acredito que se houver esforço entre todos, escritores, editoras, distribuidoras e meios culturais pouco a pouco tudo irá mudar, será uma questão de tempo e mudança de mentalidades.

 

JPB – Pressinto que seja um homem determinado e que segue os seus sonhos enfrentando todos os obstáculos que lhe surjam pela frente. Foi pela sua determinação de querer escrever que se decidiu definitivamente pelo seu primeiro romance “Amores & Separações”, à venda em Portugal mas também no Brasil? O que quis transmitir aos seus leitores e amigos?

Jorge Ferreira - Quando pensei em escrever este romance ele não passava de uma simples história real mas que merecia por si só torná-la inesquecível. Com o passar do tempo e depois de um período de reflexão começou a surgir no papel algo inesperado que fui criando pouco a pouco com muito carinho e intensidade.De repente, e sem me aperceber, tornou-se um escape ou algo terapêutico para descrever um estado de alma. Com a continuação do mesmo que fui dando a conhecer a outros, para minha surpresa, verifiquei o interesse e a crítica positiva e assim fui incentivado a continuar. Quando o finalizei não tinha qualquer intuito de publicar mas, fui convencido de tal forma, que o enviei para as diversas editoras. Fiquei grato e satisfeito ao saber que após algumas semanas, a Chiado Editora, acreditou nesse meu projeto e aceitou editar o meu romance. Esta obra transmite um labirinto entre a realidade e a ficção. Relata a vida de um casal com todos os problemas do dia-a-dia, e com a problemática do aparecimento de um terceiro elemento, que provoca múltiplas mudanças radicais no seio familiar dessa família.  É um romance em cujo contexto, o amor, a paixão e a aventura estão bem patentes desde o seu início até ao final.

 

 

JPB – O escritor e Prémio Nobel da Literatura José Saramago disse-me um dia, quando lhe confessei que também eu escrevia, de que “não tenha pressa e não perca tempo”, exatamente porque também ele começara a escrever tarde. O Jorge, com 47 anos, iniciou-se na escrita de espírito e alma há apenas dois anos. Partilha da opinião de Saramago e o que espera conseguir no mundo da literatura na próxima década?

Jorge Ferreira - Longe de mim discordar de Saramago, vulto inconfundível da literatura mundial, até porque estou totalmente de acordo com ele. As vivências nesta fase da Vida fazem-nos olhar à nossa volta o Mundo de outra forma, e seguir o trilho da Vida literária com outros olhos. Os olhos de quem observa as folhas que caem no outono, ou o voo ainda trémulo de um jovem pássaro ou ainda a essência verdadeira do amor… é como participar numa viagem na qual sei o seu ponto de partida, mas não faço ideia qual será o seu ponto de chegada. A idade não é um obstáculo, nem um estado de alma, é aquilo que cada um quer que seja, basta haver determinação, vontade e espírito criativo que pretendo nunca perder e escrevê-lo nas próximas décadas, nas obras, que já fervilham dentro de mim.

 

JPB – “Nós somos os heróis de nós próprios”, “ A União faz a força” e “ Por vezes lutamos contra as coisas que pensamos ser nossas inimigas” são três frases brilhantes que retive de si e que espelham bem a intensidade de “As Crónicas do Capitão Galo”, o seu último livro. Que mensagem quis de facto transmitir e porquê deixá-las tão bem vincadas na história que conta?

Jorge Ferreira - As Crónicas do Capitão Galo, resume a força de vontade, o espírito criativo que há no ser humano, e que pretendo transmitir às gerações vindouras. Neste caso, como o livro se trata de uma fábula adaptei os valores intrínsecos à história, criando um herói, neste caso um galo que irá transpor todas as barreiras para concretizar o seu sonho. Na verdade, foi mais fácil criar uma fábula, criando um meio fictício no reino animal para divulgar a minha mensagem com um lema combativo, a todos,“ A União faz a Força”, e principalmente à camada mais jovem que tanto necessitam destes valores.

 

JPB – “I AM STRONGER THAN FEAR “ é um dos seus últimos poemas em homenagem declarada ao actual Prémio Nobel da Paz Malala, mostrando a profundidade dos seus sentimentos. É um escritor e um homem de grandes sentimentos e afetos pelas pessoas que fazem o Bem neste mundo e sente “necessidade” de os espelhar nos seus textos?

Jorge Ferreira - Entrei no mundo da poesia há menos de meio ano, senti que o tinha de o fazer, tento ser versátil no que escrevo e este é um dos poemas temáticos entre outros. Estou a lembrar-me do poema que dediquei ao Robin Williams e um outro poema dedicado às mulheres que sofrem de violência doméstica. O poema dedicado ao Robin Williams traduziu-se numa singela homenagem à sua carreira, um verdadeiro ícone do cinema e do mundo artístico. O meu poema dedicado às mulheres que sofrem de violência doméstica é um grito do silêncio que é partilhado infelizmente por milhões de mulheres. Quanto à Malala, não pude ficar indiferente, pois, há milhares de Malalas por todo o mundo. Esta rapariga inspirou-me ao afirmar que “ um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”. À partida uma frase muito simples, mas, com grande poder, manifestado por ela que tem vindo a conseguir mudar a consciência colectiva.

 

JPB - Pertence à recente criada “MAR D'ARTES - Associação de Cultura e Arte – Portugal “, cujo intuito principal é a de promover e dinamizar as Artes e a Cultura, pautada pela criatividade e liberdade de expressão artística. Até que ponto é que considera, com tantas Associações do género no nosso país e numa altura de enorme crise cultural em Portugal, que esta nova Associação e o Jorge em particular poderá trazer de novo para que os jovens escritores possam ter uma palavra cativa?

Jorge Ferreira - As associações nunca são demais quando pautadas pelo mesmo objetivos, principalmente na conjuntura atual em que a cultura está sendo tão esquecida e tão maltratada pelos nossos governantes.  Quanto à Associação Cultural -A MAR D'ARTES pretende cultivar entre os seus associados, a paixão pelas Artes e pela Cultura, promovendo o são convívio e a partilha, acções de divulgação e formação no âmbito das técnicas e métodos respeitantes às várias artes. Pretende desenvolver e manter estreitas relações com outras associações, com as autarquias locais e com todas as instituições, nacionais ou internacionais, participando em iniciativas que conduzam à melhoria das condições para a exposição, divulgação e prática das várias artes criativas. Pretende ainda, organizar e promover convívios, exposições, intercâmbios, formação, ou outras actividades que vierem a ser consideradas úteis e dentro do contexto dos seus objectivos, entre os seus associados ou com outras entidades, que se insiram no mesmo contexto. Esta Associação é pautada pela criatividade e liberdade de expressão artística.

 

JPB – O amor é, talvez, o sentimento que mais define nos seus trabalhos, quer nos seus contos mas essencialmente na poesia que partilha no Facebook. “Ama o próximo como a ti mesmo/Ama como se não houvesse amanhã/ Ama sem lamentos / Ama e esquece os tormentos ...”. Posso dizer sem reservas de que se define como um apaixonado e que ao mencionar “Que o amor seja o farol que ilumina e encaminha a minha vida”, quer concluir que o amor é o sentimento mais importante na sua vida e enquanto escritor?

Jorge Ferreira – O amor é o sentimento mais importante da minha vida é um facto incontestável. Os meus poemas são o reflexo disso mesmo, daquilo que eu observo, vivo e sinto. O amor é a locomotiva que transporta as minhas palavras para o Mundo. Tanto na minha poesia, contos ou até mesmo livros já editados, o amor é a palavra mais dita e emblemática da minha escrita assim como na minha vida.

 

JPB - Poemetizou a frase “O passado ficou lá atrás/O presente vivo agora/O futuro quem sabe…”... Como acha que será o futuro da literatura portuguesa em Portugal e o papel dos jovens escritores como o Jorge que começam a dar os seus primeiros passos?

Jorge Ferreira - Como o citado acima eu gostaria que o futuro do meio literário fosse mais risonho e que os novos escritores tivessem mais portas abertas e mais meios para divulgarem os seus livros. Gostaria de acreditar que um dia, as pessoas pudessem divulgar a sua criatividade nas várias formas de expressão existentes, sem barreiras e fossem apreciadas como merecem.

 

JPB - Em tão pouco tempo quis diversificar a sua escrita da poesia e do romance para os contos infantis. A que se deve tal alteração? A alguma visão de um mercado em crescendo em Portugal no que respeita ao mundo infantil ou apenas porque quer ser eclético na sua forma de escrever?

Jorge Ferreira - Eu tento considerar-me eclético e enfrentar desafios e não a visão de mercado. Considero o livro infantil atraente, aliciante e muito importante. Na minha perspetiva a literatura infantil é fundamental pois é nessa fase que as crianças travam contacto com os livros, aprendem a conhecê-los: textura, formato, cheiro, manuseamento e mais importante ainda o seu “universo”contido em cada letra, em cada palavra, em cada frase, em cada estrofe, enfim um mundo de imaginação que a transporta para lá da realidade, criando bons hábitos de leitura que se manterão pela vida fora.

 

JPB - Foi um ótima entrevista mas não queria terminar sem antes agradecer a sua gentileza para comigo e com a Divulga Escritor e perguntar-lhe se no seu livro “As crónicas do Capitão Galo”, podermos considerar o Jorge como o próprio Capitão Galo, aquele que não pretende perder a sua identidade e, com determinação, inteligência e coragem tudo consegue resolver na sua vida, essencialmente na de escritor que agora tão bem abarca?

Jorge Ferreira -Tanto no Capitão Galo como todos meus trabalhos são um pouco do meu Ser, do meu estado de alma. Os valores intrínsecos criados para esta e outras personagens, revelam a essência que no fundo existe em cada um de nós, mas, muitas das vezes não manifestamos de forma tão clara, tão límpida, tão pura. Quanto a esta entrevista, considero de extrema importância tanto para mim, como para qualquer escritor como rampa de lançamento para o conhecimento crucial dos escritores, da sua visão do Mundo, das suas obras, dos seus projetos. Agradeço o terem-se lembrado de mim. Qualquer meio de divulgação é uma fonte motivadora que nos dá, a nós escritores, mais alento para continuar.

 

Contato com o escritor

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Contato com o entrevistador João Paulo Bernardino (JPB)

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