Juventude Trasviada - por Anchieta Antunes

Juventude Trasviada - por Anchieta Antunes

J U V E N T U D E    T R A S V I A D A

 

            Aconteceu num baile para idades avançadas, onde amizades fecundas existem desde tempos imemoriais. O mais jovem cidadão, um “braquicatacto matusalênico”, não comemorou o aniversário de seus cinquentinha, para não revelar o tempo de sua permanência no convívio social, porque não aceitava ver conspurcada sua vaidade devastada por uma informação supérflua.

            Todos bailavam como púberes desinibidos em festa de quinze anos. É fato que estavam meio anquilosados, com colunas precisando de uma revisão urgente, porém ninguém desistia da alegria do momento, onde o consumo de refrigerantes foi assustador. Muitos pastéis empurrados garganta abaixo, à custa de guaranás quase gelados.

            –Cuidado com o gelo, advertia o amigo da mesa vizinha.

            –Não se preocupe, já faz meia hora que está esquentando no copo. O médico disse que assim posso tomar sem susto.

            E a noite foi transcorrendo ao som do “Conjunto Musical Jovem Guarda”, que tocava com entusiasmo as musicas dos anos 60/70m com todo o embalo de Roberto Carlos em sem auge de fama e sucesso; Jerry Adriano, Erasmo Carlos, Wanderlei Cardoso e Wanderléia não permitiam que os adolescentes encurvados voltassem para suas cadeiras, para as quais olhavam com angustia e sofreguidão.

            Não pude deixar de notar a presença singular de um cadeirante”. Isto mesmo, você não leu errado, havia de fato um cadeirante todo entusiasmado com sua audácia de velho fraturado, aventureiro e louco. Ainda por cima de suas mazelas, chamou a mulher que tremia de medo de seus ardores irresponsáveis, para segura-lo caso ele viesse a perder o equilíbrio de uma perna só que o sustentava, já que a outra estava definitivamente comprometida.

            Diz ele que dançou, mas a meu ver aquilo não passou de uma demonstração de vaidade desatinada de um cidadão que devia estar em sua residência, guardando repouso em cima de uma cama confortável. Ser velho é uma benção, porém ser velho e vaidoso é um desastre irreparável.

            Fazia graça ver homens e mulheres tronxos e cambaleantes, rodopiando no meio do salão, como se fossem dançarinos folclóricos e experientes cumprindo os deveres de uma profissão desgastante. Cada casal queria rebolar mais que o outro, para mostrar que estava em forma, a despeito dos invernos e primaveras deixados para trás. A verdade é que se prestássemos bastante atenção repararíamos que um estava escorando o outro para evitar uma queda iminente e desastrosa.

O som ribombava nos quatro cantos do salão onde o riso, a alegria e o entusiasmo esfuziante era a tônica da noite da jovem guarda – de velhinhos e velhinhas.

            Não sei se por maldade ou para observar a resistência dos dançantes, a banda resolveu tocar um mambo, uma rumba, e não sei por que, não partiu para um frevo arretado de bom...

            Tenho certeza que ninguém ia dar parte de frouxo, ia se render frente a um ritmo alucinante vindo das ilhas caribenhas.

 –Aqui, velho morre teso, mas não perde a pose, como diria nosso velho Chico Anísio.

Havia um cidadão, talvez chamado João, que parecia ter seus ossos prendidos a pequenas molas e elásticos, pois que rebolava tanto que mais parecia uma marionete endiabrada. Nunca havia visto tanto malabarismo num cidadão que deveria estar cuidando de seus afazeres teatrais, sentado em sua cadeira de “DIRETOR”, dando ordens e distribuindo instruções para seus pupilos aprendizes de ator. Ou ele queria aparecer nas manchetes do dia seguinte, ou é mesmo um tremendo irresponsável alquebrado. Mas, deixa pra lá, cada qual que cuide de seus ossos como sabe, ou como pode.

Um outro, coitado, com o calcanhar arrebentado, esfacelado, juntado com colherzinha de sobremesa, de tão pequenos ficaram seus ossos do pé, dançava e se balançava tentando acompanhar sua dama (esposa) que rebolava mais que Marilyn Monroe. Bastava ela fazer um sinal para que o pequeno aventureiro corresse para a pista com um sorriso que luzia no salão, atracava-se à sua parceira de baile e rodopiava à custa de dores arrepiantes, contudo sem refletir no seu semblante que tudo aguentava em nome da juventude transviada. Viva a alegria da moçada desinibida, vivam os bailes beneficentes, viva a música esfuziante de uma banda entusiasmada com o cachê.  Vamos aproveitar a noite moçada, pois que ninguém sabe o que nos espera o amanhã... se vier...

Meu amigo Charles Brown, com a gola da camisa levantada, com o cabelo empinado pra cima a custa de “brilhantina”, e com um entusiasmo inaudito, puxava a mulher acanhada, e corria para o salão em busca de uma demonstração de juventude, já que eles eram os debutantes daquele museu dançante. Precisavam mostrar para todos que nem tudo estava perdido, que ainda havia esperança para aqueles corações palpitantes e receosos de um enfarte sem aviso prévio; deviam continuar insurretos, desobedientes e teimosos, e torcerem-se na pista de atletismo mesmo que à custa de uma noitada no hospital mais próximo do clube.

Não aconteceu nenhum vexame casuístico, nenhuma emergência médica, nenhuma ambulância solicitada. A noite foi maravilhosa e todos chegaram a casa, ainda alegres e felizes com a peripécia de meninos travessos que demonstraram ser. É verdade que alguns tiveram que apelar para gelol ou emplastro sabiá. Unguentos e derivados foram aplicados apenas como medida de precaução, prevendo um amanhecer acautelado e saudável.

Só sei dizer que a noite foi um sucesso, que a banda excedeu toda expectativa de entusiasmo e competência musical; a plateia não arredou pé antes de uma da madrugada, mesmo fugindo das recomendações médicas. Afinal ninguém é besta de ir contar uma aventura desta para seu médico.

Foi mais uma noite de alegria para a população avançada de nossa cidade serrana, com clima “que hiberna” todos os anciões que ali habitam.

Que venha mais baile, mais guaraná, mais filé com fritas e uma boa e confortável cadeira para um repouso antes da próxima contra dança.

Foi bom demais, só não sei se o cadeirante teve que baixar hospital para recompor seus ossos atrabiliários, melancólico e enfastiado.

 

Anchieta Antunes

Gravatá – 21/11/2015.

 

 

 

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