La Barca - por Rubens Silva

La Barca  - por Rubens Silva

LA BARCA

Por Rubens Silva

Como em toda viagem de ônibus, principalmente num percurso muito longo, mais de doze horas, chega-se ao destino literalmente cansado e implorando por um bom banho.

A reserva para nossa hospedagem fora feita com mais de uma semana de antecedência por telefone numa pousada chamada “La Barca”:

- Alô! É da “La Barca”?

- Pois não! É sim, senhor! – Respondeu-me do outro lado uma voz feminina com um acentuado sotaque estrangeiro.

- Falo com Dona Cristiane? – perguntei, para me certificar de que estava falando com a dona da casa. Segundo algumas informações, a proprietária é uma argentina radicada no Brasil há alguns anos.

- Sim senhor! O que deseja, senhor?

- Gostaria de reservar um apartamento triplo. É possível? – perguntei, cauteloso.

Ao perceber minha intenção de reservar acomodações, passou a descrever sua casa nos mínimos detalhes, pintando o pavão com as melhores cores possíveis.

- Senhor, temos, sim, apartamentos com três camas, ventilador e armário.

- Não tem frigobar? E nem ar-condicionado? – perguntei, surpreso.

- Não temos não, senhor! – respondeu.

- Sim, Dona Cristiane, e qual o valor da diária? – questionei, demonstrando interesse e, até certo ponto, compreendendo que numa cidade pequena do interior, na verdade, não se pode esperar o luxo de ter uma hospedaria com esses confortos, até pelo preço da diária.

- Senhor, como é o seu nome?

- Rubens, senhora!

- Sim, senhor Rubens, como ia dizendo, nossos quartos são “amplos”, têm ventilador, armário e internet wi-fi. – respondeu-me pausadamente, como se eu fosse sócio proprietário ou dono da companhia telefônica, falando lentamente.

Após informar-me o valor da diária, a senhora passou a desfilar uma série de considerações sobre o seu negócio, além de inúmeras conjecturas de caráter particular.

- Tudo bem Dona Cristiane, reserve um apartamento para três pessoas, por favor, em meu nome – bati o martelo.

- Senhor Rubens, como ia lhe dizendo, eu fiz um pacote para atender as pessoas que estão chegando para um encontro aqui em nossa cidade. E cinquenta por cento do valor das diárias devem ser depositados em minha conta-corrente. O senhor sabe, não posso correr o risco de o senhor reservar o quarto e não vir se hospedar, compreende? Quer anotar o número da minha conta senhor, por favor?

- Dona Cristiane, isso não existe! Em toda minha vida, e olhe que sou um sujeito vivido, nunca tive que pagar adiantado para me hospedar em lugar nenhum! – ponderei, contrariado e incrédulo.

- Senhor, não posso fazer de outra maneira, lamento muito, senhor! – ponderou com seu sotaque insuportável, repetindo senhor, senhor...

Não houve outro jeito, fui obrigado a concordar com suas condições, anotei o número de sua conta e prometi fazer o depósito tão logo fosse possível. Dois dias depois, depositei minha parte do adiantamento do pagamento das diárias para assegurar, enfim, o nosso local de estadia para o encontro.

No dia marcado chegamos à tal “La Barca”. Um de meus parceiros de quarto, coitado, chegou primeiro e passou a noite toda disputando, a tapas, espaço com os mosquitos, ouvindo o som de um ventilador de teto enorme, barulhento, num quarto que mais parecia uma cela, com uma cama beliche e um armário, cuja porta, para se abrir, era preciso desmontar uma das camas.

Meu outro companheiro e eu chegamos juntos, cansados, com sono, muita fome, sujos e ansiosos por um banho. A decepção foi unânime, para entrarmos no “apertamento” só seria possível se deixássemos as bagagens do lado de fora, no corredor. Nossos olhares se cruzaram e, como num passe de mágica, decidimos irredutivelmente mudar, nem que para isso fosse preciso brigar, espernear e passar por cima de todos os argumentos da portenha.

Depois dos nossos primeiros entendimentos por gestos, sorrisos e indagas, decidimos que não queríamos mais ficar ali, nem que fosse necessário pagar o dobro da diária que nos foi cobrada adiantada.

Um dos meus companheiros, mais jovem, dirigiu-se a outra pensão próxima e reservou um apartamento com ar-condicionado, internet, frigobar e outras mordomias, por um preço bem razoável.

Para alcançar nosso objetivo e não sermos ao mesmo tempo indelicados com a Dona Cristiane, fomos obrigados a ouvir uma interminável lista de ofertas, todas com a finalidade de não nos deixar sair. Logicamente rechaçadas.

Para prender seus clientes, a argentina não media esforço. Usava todos os artifícios possíveis, até colocar seu carro obstruindo a porta da garagem para ganhar mais tempo e assim tentar convencer seus clientes a permanecerem hospedados.  Na ânsia de não perder clientes, ela teve o desplante de perguntar a um dos seus hóspedes se ele se incomodava de receber como companheiro de quarto um chinês que acabara de chegar. Espantado, o cliente respondeu:

- É claro que me incomodo, eu não conheço esse chinês! Ora bolas!

Foi um parto, mas conseguimos sair da famigerada “La Barca”. Agora, reserva de hospedagem, nem pensar. É preferível chegar e procurar lugar a reservar hotel e ficar numa espelunca, enganados pela propaganda falsa.

 

Publicado em 13/04/2014

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