Lembranças de Itatinga - por Regina Alonso

Lembranças de Itatinga - por Regina Alonso

Lembranças de Itatinga                                                                                         

Regina Alonso

 

Naquele dia – há mais de cinquenta anos – a melhor notícia! Tio José, antigo funcionário da Companhia Docas de Santos, avisou: “Já está tudo acertado! Neste domingo, vamos a Itatinga!” O convite feito à nossa família espalhou-se pela vizinhança. As mulheres, horas e horas na cozinha, preparavam doces e salgados sob os olhares gulosos das crianças. Cada família encarregou-se de um quitute diferente, garantindo a variedade do cardápio e a quantidade suficiente para tantas pessoas.

Nas primeiras horas da manhã de domingo, partimos bem cedo, carregando as pesadas sacolas, num alvoroço que despertava a nossa Rua Bittencourt, ainda sonolenta, esparramando-se pelo Bairro do Mercado. No porto, quase em frente à imagem de Nossa Senhora de Fátima, o rebocador nos aguardava. Acomodados nos bancos ou debruçados no beiral, iniciamos a travessia, nosso porto cada vez mais distante...

Na chegada, a emoção ao embarcarmos no bondinho e seus reboques, que pareciam de brinquedo – as crianças disputavam os lugares que lhes permitissem observar a beleza de Itatinga. Com o toque da brisa em nosso rosto, passamos por córregos cristalinos, que nos saudavam com suaves murmúrios... Na cidade (ou vila?) propriamente dita, não acreditamos no que víamos – as casas pequeninas esparramavam-se como se ali tivessem brotado naturalmente; nenhuma fechadura nas portas!... O único cinema com o porta-guarda-chuva do lado de fora. “Para que preocupar-se?” – explicou o Tio José – “Em Itatinga não há um caso sequer de roubo, crime ou qualquer delito”.

O encantamento completou-se quando chegamos ao rio, próximo à usina geradora de energia. As águas claras deixavam transparecer pedras arredondadas e cascalho, junto às margens. Tranquilamente, estendemos as toalhas, onde as mulheres depositaram as deliciosas iguarias degustadas com prazer.

Os pequenos descobriam trilhas e voos de borboletas entre os arvoredos; trinados acompanhavam as brincadeiras e antecediam a surpresa do encontro de ninhos de pássaros. Os adultos conversavam em voz baixa, quase um cântico, talvez para não quebrar o momento de serenidade e harmonia com a natureza.

No percurso de volta, ainda os regatos em murmúrios sob os trilhos do bondinho e no céu, as nuances da tarde que findava. No rebocador, o anoitecer envolveu-nos com o brilho das estrelas e o rastro de luar, que nos acompanhou até a chegada ao Porto de Santos.

No aconchego do lar, enquanto esvaziávamos as sacolas, umas pedrinhas do rio trazidas pelas crianças, rolaram no chão da velha cozinha – as imagens retornaram fortes em nossa memória, em nosso coração... Com certeza, depois de conhecer Itatinga, nunca mais seríamos os mesmos!

 

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