Levissima nostalgia - por Eliane Reis

Levissima nostalgia - por Eliane Reis

Levíssima nostalgia

 

Tenho histórias para contar tão delicadas quanto a própria vida; outras são meras transcrições sobre fatos corriqueiros que, embora pareçam desinteressantes, têm o gosto secreto de certas saudades.
Quando éramos crianças, eu e meu irmão costumávamos dividir certos sabores com cúmplices de aventuras terrenas. Éramos heróis de contos inventados e construíamos nossos “fortes” em árvores de cheiros, cores e sabores. 
Essa atmosfera íntima, à qual pertencíamos, ficou guardada em algum lugar; alguns dizem que ela fica no âmbito da memória; outros que ela fica intacta no coração. Bem, acho que as minhas estão entre os dois e, às vezes, ela passeia por minhas linhas diárias.
A questão é: as lembranças costumam reconciliar as alegrias e medos do passado com o presente, elas voltam sem o menor pudor para provocar nossos sentidos.
Pois bem, vamos às reconciliações! 
Alguma coisa, hoje, me fez voltar naquele tempo, não tão remoto, a julgar pela presente e insistente lembrança. Pude ver com a mesma nitidez cada detalhe que fazia da minha infância esta sinestesia perfeita que ainda posso sentir.
Não queríamos entender nada, pois o entendimento, às vezes, desorganiza tudo. Queríamos apenas traçar planos mirabolantes para chegar ao topo das árvores e, de lá, avistar o futuro, que se apresentava para nós, cheio de promessas lindas. 
Não tínhamos armaduras, mesmo sendo guerreiros, nem espadas; mas tínhamos uma coragem menina que nunca quis ser adulta – ela ainda mora lá. 
Lembro-me que disputávamos para ver quem iria conseguir a primeira manga que despontava aos primeiros raios de sol e quem conseguiria atravessar primeiro o açude. Éramos tolos encantadores em busca de uma terra perdida, que existia somente em nossa imaginação.
Passávamos os finais de semana assim: o dia todo caçando pequenos tesouros que a vida escondia em lugares só nossos. Eu, meu irmão e nossos primos.
Só éramos detidos por uma força maior: o pão caseiro da nossa avó Mariquinha. Ele nos fazia largar as armas que não existiam e os tesouros para outro dia. Era a hora mais saborosa do dia.
Depois do café da tarde, descansávamos sob as sombras de uma grande mangueira que ficava em frente daquela velha casa que acolhia nossas histórias, nossas traquinagens.
O dia parecia interminável naquele recanto, as histórias pareciam ganhar vida em nossas mãos; ali ancorávamos os recortes que fazíamos de outras histórias que se juntavam às nossas como se fosse uma única. As brincadeiras pareciam não ter fim e, assim, íamos pouco a pouco construindo nossos castelos, feitos de pequenos pedaços despedaçados. 
Lembro-me que os meninos gostavam de estilingue e, às vezes, (inocentemente, por ainda não saber medir a dor) miravam andorinhas. A sorte é que nem sempre eram bons de mira e isso as poupava da interrupção precoce do voo. Hoje, o menino dos estilingues responde por nome de passarinho (Sabiá), acho que ele entendeu que voar é preciso e que ninguém tem o direito de abortar isso.
Assim, fomos nos reconciliando com a vida e com os caminhos que ela foi traçando para nós. Assim, fomos aceitando as despedidas que não fomos capazes de evitar (somos insignificantes diante de certas fúrias), fomos aceitando a dor de crescer e deixar para trás cheiros inebriantes como o do café coado na hora ou do bolinho de chuva. Assim, fomos fazendo as pazes com a vida e aprendemos a olhar para algumas cicatrizes com certa resignação – tudo há de ser curado em tempo certo.
Hoje, a palavra me consola e, em alguns momentos, me basta. Hoje, vejo essas lembranças sem a aspereza que costuma me afligir. 
Tivemos que aceitar virar as páginas e tivemos que continuar escrevendo nossas histórias. A avó, que nos mimava com doces, amores e rigores, não está mais aqui – essa é a parte difícil de digerir. Os primos, que eram nossos cúmplices, hoje têm outras histórias, mas, quando o destino se distrai, é possível encontrá-los em faróis ou caminhos cruzados. O meu irmão, com quem eu dividia balas e brigas, também está longe; todavia ele vive em meu coração mais forte que nunca. 
E foi me reconciliando com minha própria história que pude reescrevê-la. Não pense que esta doce nostalgia me traz sensações contraditórias ou amargas, ela apenas ajusta o meu passado ao meu presente; em uma comunhão perfeita, sustentando meus pilares. 
E a vida? Bem, há de seguir seu curso como um rio e, se houver necessidade, contornar aquilo que a impede de ir em frente.


Eliane Reis

 

 

 

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