Libório e a Sogra - por Anchieta Antunes

Libório e a Sogra - por Anchieta Antunes

LIBÓRIO    E    A    SOGRA

Que viagem atribulada...

 

         _Não! Eu não vou, não saio de casa, não ponho os pés na rua, muito menos num taxi. Pode ir embora e me deixar em paz!

         Foi assim que Libório foi recebido na casa da sogra. Um horror, ele sentia-se obrigado a colocá-la em um avião e trazê-la para o Brasil. Esta era a recomendação de toda a família, menos, lógico, da sogra, uma jovem de 93 anos, dona de suas vontades, senhora de si. Altaneira como uma gazela, não arredava pé de seus cômodos. Libório havia viajado 5.000 km. para buscá-la, e agora? 

         E agora  que: ou a levava para o aeroporto, ou levava mesmo. Para tanto contou com o concurso de um parente chegado; os dois tinham uma tarefa hercúlea pela frente. Por telefone todas as cadeiras de roda de todos os aeroportos foram solicitadas, engajadas, ajustadas, polidas e oleadas, para que não houvesse o menor entrave no passeio “aeropórtico” da ilustre Dama das Camélias, importada diretamente de Montevideo. Dom Pepe endossou a caravana turística, curandeira, recreativa. O gongo soou, começou a maratona centenária, “transportativa”, imaculada.

         Primeiro Aeroporto, cadeira a postos logo na entrada. Em Montevideo as coisas funcionam. Segundo Aeroporto: São Paulo: aí as coisas não funcionam. Não havia cadeiras. _Por que não há cadeira para esta velha senhora, debilitada de ossos, de músculos e de vontades?

         Em São Paulo não havia túnel para facilitar o desembarque. Do avião desceram numa escada bamboleante, entraram em um ônibus com o degrau bem alto, o que obrigou Liborio a empurrar a velha dama pela bunda magra.

         _A culpa é da TAM, disse o funcionário da Infraero.

         _Não senhor, a culpa é da Infraero, disse o funcionário da TAM.

         _Não! A culpa é do aeroporto.

         _E quem responde pelo aeroporto? Perguntou Liborio.

         _Ninguém sabe, respondeu ao longe uma passageira indignada com o atendimento. Acho que a culpa é nossa, que viajamos. Devíamos ficar em casa, ou viajar de carro.

         _ De carro não dá! Os ladrões nos roubam o carro, e o celular. Ficamos a pé e sem comunicação.

         Liborio achou por bem procurar alguém que encontrasse uma cadeira de rodas para facilitar a andança quilométrica no aeroporto. No meio do caminho encontrou uma cadeira de escritório com rodinhas. O apoio do braço estava quebrado. _Não importa, é só para levá-la pelos corredores até encontrar uma verdadeira cadeira de rodas.

         _Moço! Onde posso encontrar uma cadeira de rodas.

         _Em lugar nenhum, no momento está em falta.

         _E como eu levo esta senhora para a Alfândega?

         _Nos braços, ora! O Senhor é um homem forte, quer amarelar é? Que covardia, e outra coisa, a Alfândega não quer nada com uma pessoa tão velha. Pra ela só interessam as mulas com bagulhos!

         Liborio continuou empurrando a cadeira que pesava cem quilos. Aquele parente jovem vinha carregando a “mudança” ( cinco malas grandes e pesadas). Todas em um só carrinho que relutava em não avançar nem um metro por hora.

         O parente suava em gotas, Liborio gemia com  dores na coluna, e outros ossos pertencentes ao seu corpo e que ele nem desconfiava que existissem. Para ele o nome da novela era:”O DIA DA REVELAÇÃO DE MEUS OSSOS”. Liborio estava em sua competição particular de “10 metros rasos, em apenas 3’ e 45’’.

         Lá pras tantas, Liborio olhou através de um  vidro e pareceu ter percebido ver seu parente empurrando uma cadeira de rodas, sem ninguém sentado nela. Ele abandonou sua passageira no meio do nada e saiu correndo atrás a bendita cadeira. Suando, esbaforido e com os olhos esbugalhados, gritou seu último grito: _Estou aqui cara, quase morto e sem cadeira. Por favor, olhe pra trás e me socorra com esta carruagem andante.

         Voltaram para perto da velhinha e a colocaram em uma verdadeira cadeira de rodas.

         _A pobre da anciã perguntou :_O que está acontecendo Liborio.

         _Nada querida, ta tudo bem! Não se preocupe.

         _Não estou preocupada, e sim adorando o passeio; é certo que o piso deste prédio é meio esburacado, mas tudo bem. Estou achando ótimo, vendo tanta gente me admirando, pois não param de olhar para mim. Parece até que sou um grande personagem. Até a moça da Alfândega mandou a gente passar por uma porta secreta e nos adiantou muito o caminho, já estamos quase chegando.

         E assim aconteceu de entrarem em outro avião para a segunda perna da viagem. O lanche foi um sanduíche conhecido como:”bate entope”. Meta água pra dentro para dissolver aquele grude de goma.

         A chegada foi ótima, pois havia uma cadeira esperando na porta da aeronave. Tudo bem, sem problemas, sem canseira. Estavam em casa, ou quase, só precisavam viajar mais 80 quilômetros para diminuir a distancia de uma cama suave e acolhedora. 

         Depois de um lanche, de a filha mostrar a casa para sua velha mãe, depois de encaminhá-la para seu quarto, mostrar o banheiro novinho e imaculado, a velhinha disse: _Esta casa vai ser assaltada ainda esta noite.

         _Vai não, mamãe, aqui não tem ladrão!

         _Não tem pouco!!!

         _Aqui tem cerca elétrica.

         _Ele entra por baixo.

         _Tem cachorro.

         _Ele mata com bola.

         _Tem alarme.

         _Ele queima.

         _Tá bom mamãe, vá dormir, amanhã a gente conversa.

         _Se eu chegar até amanhã!!!

         Assim foi a primeira noite da sogra de Liborio na casa da filha em Gravatá. O melhor é que já faz uma semana e não apareceu nenhum ladrão para chatear a família feliz.

         A filha  armou acampamento na sala de estar e lá dorme todas as noites, ou, pelo menos, é que ela diz: dormi a noite toda, e eu para não perder a amiga do peito, finjo que acredito.

 

Anchieta Antunes

Gravatá – 30/03/2015.

 

 

 

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