Libório no Pantanal - por Anchieta Antunes

Libório no Pantanal - por Anchieta Antunes

Libório no Pantanal                          

 

            –Sonia, vou viajar, por favor, faça minha mala.

            –Libório, meu marido, o enunciado está errado. Você devia ter dito:

            –Sonia, meu amor, minha linda mulher, nós vamos viajar. Vamos preparar nossa bagagem? Com carinho você consegue qualquer coisa comigo, mas, na força bruta eu nem dou atenção ao que você diz. E por falar em viajar, pra onde nós vamos? Europa, Estados Unidos, China, Coreia? Qual o destino afinal?

            –Nada de estrangeiro, vamos curtir nossas paragens domésticas, nós vamos para o Pantanal, ficar uma semana da casa de nosso compadre Euzébio. Faz um tempão que ele nos convida e nós nunca fomos.

            E lá se foram os dois, um casal unido, cheio de amor pra dar. Nunca tinham viajado praquelas bandas, e estavam ansiosos para conhecer o velho pantanal mato-grossense. Mais uma aventura de tirar o fôlego para uma dupla tão acostumada a peripécias desastrosas, principalmente quando o Libório capitaneia a excursão.

            Aeroporto, avião, amendoim, batata frita, novamente aeroporto, outro avião, mais amendoim com batata frita e um copo de refrigerante. Resultado: barriga grande, estômago vazio, bunda quadrada, pernas cansadas, e lá estava o velho Euzébio aguardando com ansiedade os amigos queridos.

            Duzentos quilômetros de asfalto de primeiro mundo para Bonito, mais 172 para o Pantanal propriamente dito. Poucos quilômetros de terra bruta na velha camioneta do amigo, passando por cima dos buracos, entortando costelas, remoendo pernas cansadas, o estômago na boca e finalmente uma grande cadeira de palha para descansar o esqueleto. Estavam na casa do amigo Euzébio. A expectativa era começar as atividades pantaneiras bem cedo no dia seguinte, depois de uma longa noite de sono, no silêncio da vastidão de águas e matas selvagens.

            –Compadre, que mal pergunte, o que foi aquela barulheira toda ontem à noite? Eu misturei sonho com realidade e me vi no meio de uma batalha em plena Guerra do Paraguay. Estava com uma escopeta velha, sem munição e me vi correndo de um lado pro outro, sem saber pra onde atirar, nem onde me esconder. Aqui é assim toda noite? A paz na ponta da baioneta?

            –Foi nada não, meu compadre, apenas uma vara de caititus, aqui conhecidos como catetos, que queriam invadir meu depósito de milho. Eu tive que dar uns tiros para afugentá-los. Aproveite que já se levantou e vamos lá pro curral ordenhar umas vaquinhas para trazer o leite fresco pro café da manhã. Aviso que nosso café tem que ser bem reforçado, pois que depois vamos ganhar o pantanal em busca de novas aventuras, quero que vocês conheçam tudo, cada pedaço de natureza desta maravilha de um Brasil desconhecido da maioria dos brasileiros.

            Libório tentou ordenhar um úbere, mas só conseguiu cansar a munheca para não ver nem uma gota de leite pingando da teta da vaca. Ele não leva jeito pra essas coisas. Quando voltaram com o leite ainda quente, e Libório viu a mesa posta, não se conteve em fazer um comentário.

            –Pelo tamanho da mesa, pela quantidade dos pratos servidos, pelos bules fumegantes, isto é um café, almoço e jantar, tudo ao mesmo tempo, em um hotel 5 estrelas. Comadre, pra que tanto exagero? Somos apenas cinco pessoas, contando com a comadre e Zequinha, seu filho. Está esperando um batalhão de sapadores para nos acompanhar na jornada matinal?

            –Nada disto compadre, apenas nosso singelo café da manhã. Precisamos estar bem alimentados para aguentar o dia todo no mato. Aqui no Pantanal chamamos a este café de “quebra-torto”. Ele é composto basicamente do que sobrou do jantar de ontem, com alguns acréscimos, tais como: farinha de mandioca para “empamonar”, ou seja, para engrossar o caldo, o feijão, o bucho, para secar as tripas, pode-se também colocar na peixada.

            –Mas eu estou vendo muito mais coisas na mesa, como torresmo, arroz carreteiro, carne com banana, carne com macaxeira, com inhame, com cará, com batata-doce, estou vendo carne de gado e de porco. Tem até galinha frita e guisada. Quem vai aguentar comer tudo isto?

            –Libório, não é por estar na mesa que é de obrigação comer tudo, disse a comadre, chamando a atenção para a gulodice do compadre. Você come até se sentir satisfeito. O único critério a ser adotado é que seja uma refeição “forte”, que aguente o homem no roçado até que chegue o almoço.    “Aqui nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, já dizia o velho Lavoisier. O que sobrar do café da manhã fica para o almoço e da mesma maneira para o jantar, até que se consuma tudo.

            –Bom! Acho que comi mais com os olhos que com a boca, mas mesmo assim estou satisfeito e pronto para nossa aventura no mato. Quero caçar catetos, comer catetos no jantar, e palitar os dentes com uma costela de pacu.

            E lá se foram os três aventureiros mata adentro. A comadre ficou cuidando da casa, da comida, da lida diária. Quem carregava a espingarda mais potente era Euzébio, que sabia o que estava fazendo, pantaneiro de longas datas. Libório e Sonia tinham no ombro umas escopetas enferrujadas que o compadre guardava penduradas na parede da sala fazia um século. O importante é que funcionavam, atiravam com chumbo grosso.

            Libório caminhava na retaguarda cuidando de Sonia que estava entre os dois homens. Ele, que fechava o pelotão de três, não parava de olhar pra trás com medo de ser apanhado de surpresa por uma onça, um jacaré, um porco do mato, daqueles que têm os dentes de sabre, o famoso queixada.

            Libório para dissimular sua preocupação com os animais silvestres, não parava de assobiar, como se estivesse no parque da cidade. Chutava a terra como quem não quer nada, apenas  para se divertir naquela aventura que para ele não passava de mais uma. Sonia, contudo que conhecia bem o marido que tinha, sabia com seus botões que ele estava morrendo de medo, mas não queria entregar os pontos.

            De repente Euzébio fez um sinal com os braços para que todos parassem e ficassem quietos e em silêncio. Parecia até filme de guerra com Mel Gibson. Passado um longo e interminável minuto, Euzébio saiu desabalado em direção à primeira árvore na sua frente e gritou:

            –Subam na árvore depressa, não demorem, venham logo e subam rápido.

            Com três passadas Libório passou na frente de Sonia gritando que ela não demorasse, que viesse logo. Esperou aflito que ela chegasse ao pé da árvore e a empurrou com toda sua força pelas ancas da mulher, como se ela fosse um saco de farinha. E gritava: –Sobe mulher, sobe mulher, o bicho (que ele não sabia qual era) vai me pegar.

            Os três escanchados lá na cumieira da árvore olhavam pra baixo vendo os caititus furiosos rosnando e arranhando o tronco grosso do ipê florido.

            –E agora meu compadre o que é que nós vamos fazer? Ficar aqui em cima até que esses lazarentos cansem de nos esperar e se mandem? Por que você não atira e mata logo uma porção deles?

            –Porque é muito difícil acertar um tiro desta posição, de cima pra baixo. O melhor é você urinar em cima de um dos bichos.

            –Você só pode estar de gozação! Urinar em cima de um porco, exatamente pra quê? Por acaso quer banha-lo antes do sacrifício? E neste caso, por que você mesmo não urina, talvez sua pontaria seja melhor que a minha, já que você tem experiência disto.

            –Compadre, por favor, não me peça isto, a comadre está aqui com a gente, fica mal eu fazer isto. Você, ela conhece, já que é sua esposa. Eu me recuso a fazer isto na frente da minha comadre. Libório, tome tento, homem!

            –Eu tenho certeza que vou errar, pois não acerto nem no vaso sanitário de casa. Sou muito ruim de pontaria, principalmente agora que estou tremendo de medo de cair e ser devorado por estes bichos imundos e teimosos. Só uma pergunta: o que a urina provoca neles? Por acaso vão sair correndo para tomar banho no primeiro rio que encontrarem?

            –Meu compadre, você tem que tentar acertar, eu não vou conseguir nem urinar com a comadre por perto. E quanto à sua pergunta a resposta é a seguinte: se um dos bichos exala odor de urina, os demais vão em cima dele e o devoram, depois vão embora satisfeitos, e nós podemos descer e seguir nosso caminha sossegado. Como é, vai ou não vai tentar?

            Sonia que ouvia tudo calada, e já aborrecida com tanta indecisão por uma coisa corriqueira, gritou para os dois:

–Vocês dois, seus babacas, deixem de besteira e resolvam logo isto; bota logo estes pintos pra fora e mijem nos bichos. Estou cansada de ver coisa muito mais feia que estes dois molambos indecisos.

E assim fizeram os dois ao mesmo tempo. Dois bichos ficaram encharcados de urina, e os outros se refestelaram com o banquete. Terminado o almoço de porco por porco, os sobreviventes com as panças cheias foram embora, talvez dormir a sesta. Uns quinze minutos depois, os três heróis desceram da árvore com o maior trabalho e foram às pressas de volta pra casa. O dia de aventuras estava terminado, com nada, absolutamente nada acontecido que valesse a pena ser registrado. Antes do meio dia chegaram à fazenda, provocando a maior surpresa para a comadre que preparava o almoço que seria servido lá pelas três da tarde. Tudo foi antecipado, até mesmo o tereré.

–O que foi que aconteceu? Perguntou Terezinha curiosa. Viram o zumbi da mata?

–Vimos foi um zumbi em forma de porcos famintos querendo nos almoçar, e estes dois homens corajosos se mijaram todo. Que vergonha! Foi a resposta de Sonia, gozando da cara dos aventureiros.

–Faz mal não, isto acontece, vamos aproveitar para tomar nosso tereré, na sombra do terraço, e apanhar uma fresquinha, que tá quente pra danado. Tem castanha assada pra beliscar enquanto o almoço não sai. Tem água quente na chaleira comadre. Sirva estes homens pelo amor de Deus.

Libório foi logo dizendo que sair pra caçar com a perspectiva de ser caçado não era com ele, portando se tivesse outro passeio, ou uma pescaria com peixe abundante, ele ficaria aquela semana reservada para o pantanal, do contrário iria embora no dia seguinte. Euzébio preparou uma grande pescaria para daí a dois dias. Peixe era o que não faltava nos rios e brejos do pantanal.

O fato é que a pescaria foi um sucesso e passaram o resto da semana comendo peixe de todas as maneiras de preparo; com alho, com coco, com azeite de dendê, com azeite de oliva, e simplesmente cozido, o que chamam de caldeirada.

Se não levarmos em consideração o susto do primeiro dia, eles passaram uma semana maravilhosa, desfrutaram de tudo, principalmente das comidas tão variadas. Uns quilinhos a mais nos pneus da barriga não iria incomodá-los de maneira nenhuma.

Voltaram comendo amendoim e batata frita.

 

Anchieta Antunes

Junho de 2016.

 

 

 

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