Limbório e a impressão perdida de seu amor - por Anchieta Antunes

Limbório e a impressão perdida de seu amor - por Anchieta Antunes

Libório

            e a impressão perdida de seu amor.

 

         Todos sabem que nosso amigo Libório tem suas idiossincrasias continuamente em turbulência, sempre em voo de angústia, senão de perigo iminente. Talvez para se conseguir uma melhora em seu caráter eternamente em motim, seria conveniente convocar alguns “xamãs”, e esperar que suas orações e ligações com os espíritos, tragam para Libório um pouco de fleuma, de paz para sua alma atribulada.

         O fato é que quando sua amiga, amada, confidente, a negra caixa de seus segredos mais íntimos, foi embora Libório entrou em depressão. Nada  fazia melhorar seu ânimo. Libório com depressão é um acontecimento raro, senão impossível, digo, quase impossível.  Mas, para todos acontece uma primeira vez; assim Libório estava mesmo precisando de ajuda profissional psicológica.

         A amiga dele foi embora não porque não gostasse mais de sua companhia, mas sim por estar exausta de tanto trabalhar para nosso amigo incansável. Tenho que esclarecer que Libório não escolhia hora para maturar suas fantasias, e fazer “ralar”, quem estivesse por perto. Muitas madrugadas, digo, duas ou três horas da matina, o homenzinho levantava da cama e corria para o computador aflito para redigir alguma bobagem que lhe havia surgido durante um sonho travesso. Sua amiga bocejava não sei quantas vezes, resmungava, dizia-se indisposta para a tarefa tão tarde, e partia para a faina exaustiva. O fato é que Libório não lhe pagava nenhuma remuneração a título de salário. Nada, apenas a cada trimestre comprava um vidro de tinta e lhe entregava para que ela pudesse desenhar suas garatujas. Não me  lembro de ter ouvido Libório ter dito:­– Obrigada minha amiga impressora. Você continua fazendo um ótimo trabalho, continue assim e um dia, quem sabe, vou poder lhe retribuir... não sei como ainda.

         Nunca retribuiu, pois não há como retribuir o desempenho de uma impressora sem vida quando não está conectada à energia elétrica. Sou obrigado a esclarecer que Libório vinha submetendo aquela pequena ajudante sem direito a um advogado para reclamar seus pleitos trabalhistas, a trabalhos forçados durante dez anos ininterruptos. Não há máquina que aguente. Um dia ela, claudicante e sem voz para bradar sua revolta, apenas deixou de imprimir, ou para se vingar de uma maneira cavilosa, imprimia tudo errado, faltando letras, palavras e pontuação, até mesmo mostrando uma nesga de tinta praticamente ilegível. O fato é que a impressora de Libório pediu, exigiu, e assumiu sua aposentadoria compulsoriamente, sem direito a petição solicitando revisão do processo no INSS. Foi para a oficina, e com o concurso (ou conluio) do mecânico fez-se desmanchar, esfacelou-se, espatifou-se,  desmilinguiu-se  todinha. Não servia para mais nada, a não ser para ferro velho (de plástico)  se alguém quisesse adquirir uma caveira inerte e imprestável. Não foi o caso, hoje ela, coitada, está à beira de entrar num programa de reciclagem de  para se transformar, quem sabe, numa caixa para guardar pão à mesa de refeições de uma casa do subúrbio. Talvez nesta nova roupagem ela viva mais dez anos, pelo menos não tem que se sujar de tinta, nem trabalhar de madrugada.

         O jeito foi Libório perder o amor aos seus minguados reais escondido no colchão e comprar outra escrava para sofrer em suas mãos noturnas.

         Hoje, Libório tem uma super EPSON – L355 – luzindo competência e talento para quaisquer trabalhos, por mais pesado e demorado que seja. A loja que vendeu a nova impressora assegurou que ela é a melhor, mais invejada pelos não adquirentes, aplaudida pelas suas concorrentes, e amada pelas gráficas.

         Nosso amigo está satisfeito (até agora), mas não dá trégua à exuberante e incansável batalhadora.

         Libório e a impressão perdida de seu amor, ou seria melhor dizer escrava.

 

Anchieta Antunes

Gravatá – 07/07/2015.

 

 

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