Limbório no Mercado da Encruzinhada - por Anchieta Antunes

Limbório no Mercado da Encruzinhada - por Anchieta Antunes

Libório no

Mercado da Encruzilhada

 

Aos domingos eles levantavam mais tarde. Dia de descanso, não há nada para fazer. “OU HÁ” ?  _Até Deus descansou no sétimo dia, por que Libório não pode acordar mais tarde? Poderia ter ficado na cama até oito ou nove horas, mas o hábito não o deixa aproveitar o dia de repouso. Sete e meia já estava embaixo do chuveiro. Bermuda, uma camisa bem fresquinha e a famosa “chinela domingueira”.

            _Amor, vou dar uma saidinha para comprar um cigarro. É coisa rápida.

            _Aproveite vá até o Mercado e compre uma corda de caranguejos. Hoje é o que quero almoçar. Não se “empalhe” conversando com seus amigos –(empalhar: termo do nordeste que não significa empalhar animais ou aves e sim, não demorar – não perder tempo ).

            _De jeito nenhum, é um pé lá e outro cá, responde o marido todo feliz porque conseguiu o “alvará”.

             Quando chegou ao Mercado as primeiras caras que vê, são as de seus amigos de todos os dias. Os três acenando como loucos, chamando o amigo que raramente aparece aos domingos.

            _Vem cara, vem cara, já estamos tomando a primeira e com ova bem fresquinha.

            _Meus amigos, hoje não posso, prometi pra patroa que não ia demorar. Saí para comprar meu cigarro e ela pediu pra levar uma corda de caranguejo. É o que vamos almoçar hoje. Perdoem, mas já vou embora.

            _Caaara,  não acredito que vai virar a cara para uma “ova de cioba” chegada hoje! Não estou lhe reconhecendo. E a cervejinha? Tá gelada de doer nos dentes!!! Dizia todo alegre o “Bigode”, o mais falante. Sim! Faltou apresentar os amigos de nosso amigo. A ordem de apresentação será do mais velho para o mais novo.

1º - Seu Lucio – 70 anos – fazendeiro pecuarista (bem de vida);

2º - Totonho – 58   anos – fabricante de portas e janelas (mais ou menos bem de vida); e

3º - Bigode – 49 anos. Cambista de jogo de bicho -  era o mais feliz de todos. Bigode não pagava despesa nenhuma, os companheiros não deixavam. Valia mais o papo do cambista que tinha uma sutil filosofia de vida, embora falando errado. O que vale é o sentido das palavras, não as palavras em si.

             Nosso amigo Libório tem uma papelaria no centro da cidade. Com uma esposa dedicada e três filhos estudando. Tá bem de grana.

            Amigos há mais de vinte anos, encontravam-se no Mercado da Encruzilhada quase todos os dias. Tomavam uma cerveja, comiam ova de peixe ou um pastel de carne. Depois cada um ia para suas obrigações. O encontro era para colocar em dia os “acontecidos” do dia anterior. A cerveja para lubrificar as “juntas”. Pelo menos é a desculpa que dão.

            O sol já ia alto quando nosso amigo mais uma vez confere o relógio e diz pela décima vez que precisa ir embora.

            _Só a saideira! Dizia Bigode.

            _Mas já é a quinta saideira, tenho que ir.

            Sou obrigado a informar que entre uma cerveja e outra tomavam uma “bicada de cana”. Já estavam vendo “três em um”. De repente o corredor ficou apertado quando tinham que ir ao banheiro. Mas, domingo é domingo...

            Lá pras duas ou três da tarde a mulher que não parava de andar de um lado pra outro no terraço, como se estivesse pisando em rastro de corno e que queria comer uma comida diferente, não tirava os olhos da rua à procura do marido... Até que o avistou e lhe custou entender o que estava acontecendo. O marido, com uma vara na mão, correndo de um lado para outro, como se estivesse varrendo aquele caminho de terra. Tinha que perguntar...

­–Libório, o que é isto, pelo amor de Deus? Ficou maluco, foooi?

            Lucia deixe de reclamar e venha me ajudar, não está vendo a trabalheira que esses bichos estão me dando? Disse o “inventivo e rápido” marido, que minutos antes havia soltado os caranguejos, na intenção da desculpa perfeita para a demora em voltar para casa. La vinha ele tangendo aquele bando de crustáceos como se fosse um pastor de caranguejos, empurrando os bichos ladeira abaixo.

            Ela mais que ligeiro foi ajudar o “safado” do marido.

            _Tadinho, só Libório mesmo para fazer um sacrifício desses só pensando em me satisfazer. Pra que fui pedir um negocio tão difícil, e logo no domingo, o único dia que ele tem pra descansar!

            O bafo de cana embriagando quem chegasse perto, levou a dedicada esposa a perguntar:

­           –Libório, você bebeu foooii?

            Mulher, você sabe a quanto tempo eu venho empurrando esses bichos pra casa? Tive que parar na bodega de seu Eufrásio pra molhar a goela. Tomei uma bem gelada para matar o calor. Desde aquela hora que faço um sacrifício do cão e você fica aí reclamando? Tenha dó!

            _Tá bom! Eu ajudo, mas o almoço vai demorar a sair, não reclame.

            _Por mim tudo bem. Por você faço qualquer coisa. Tem uma geladinha no refrigerador?

            Tanger uma corda de caranguejos espalhados pelo chão, só Libório para pensar numa saída destas.

            Malandro é malandro e Mané é Mané...

 

            Anchieta Antunes

            Gravatá – 03/04/11

 

 

 

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