LOBO DO MAR - Regina Alonso

LOBO DO MAR - Regina Alonso

       Por Regina Alonso

Às vezes a inquietude toma conta da gente. E não sabemos o porquê. Estamos bem instalados. Paredes sólidas. Janelas, varanda e jardim para arejar os pensamentos. Comida farta e saborosa. Cardápio variado. Roupas para o frio ou calor. Sapatos para festa, tênis para o dia a dia e chinelos para horas de folga. Assim foi à época da mudança para o campo. O casal e os dois filhos menores. E o cachorro é claro!

   Tudo foi se acomodando... Numa camionete, após o almoço, levavam as crianças à escola, que ficava no pequeno centro comercial do vilarejo. Na estrada poeirenta, canto de passarinhos, borboletas, o doce borbulhar da água dos riachos trazia-lhes beleza e paz. As crianças cresciam como espigas no meio do milharal. Pele rosada, corpo em movimentos livres pelos arredores da casa, a perder de vista! À noite, logo após o jantar estavam tão cansados, que dormiam antes que a mãe acabasse de lhes contar uma história.

   O cão, amigo fiel, assim que o dono saía bem cedo, para o trabalho na cidade próxima, subia a escada latindo e no quarto puxava as cobertas das crianças acordando-as. O cheiro do café invadia a casa e atraía todos para a cozinha. Broas de milho, bolo de maçã ou laranja, leite fresco, coalhada, pão sovado em casa e assado no fogão à lenha. A manteiga escorria pela côdea e lambuzava a cara dos pequenos. Na mesa da sala, faziam as tarefas escolares e sobrava tempo para jogar bola, procurar rastro de tatu, descobrir ninhos de passarinhos e protegê-los de algum pedrador. A mãe entretia-se preparando as refeições, lavando e passando pilhas e pilhas de roupa, cuidando do jardim, da horta e do pomar. Nos finais de semana contava com a ajuda do marido no trabalho pesado, como podar árvores, consertar o telhado da casa e a grade do galinheiro.

   E naquela segunda-feira, o telegrama. A viagem para a cidade onde moravam os avós maternos. A enfermidade da avó, o agravamento e a morte. Num abrir e fechar de olhos. Na quarta-feira, o enterro. O avô calado entre os pêsames e o olhar amoroso da filha única. Os netos agarrados à saia da mãe, até que o pai conseguiu levá-los até a camionete para o cortejo. Na casa de frente ao mar, o rugido das ondas contrastava com o silêncio do viúvo. No final de semana, as crianças retornaram com o pai. A mãe permaneceria contatando um advogado para tratar do inventário. Tudo encaminhado. O viúvo não aceitou a proposta de morar com a família no campo.

   – Filha, sou um velho independente! Dirijo, faço as compras, preparo o café da manhã... Vou ao banco, pago as contas. Da casa, Filó vai continuar cuidando, como há tantos anos...

   A negra sorriu. Adorava aquele homem e sua filha que ajudara a criar desde de menina, pois Dona Matilde, depois do parto, tivera problemas cardíacos que limitaram muito sua saúde.

   E a filha retornou tranqüila. Sabia que o pai estava em boas mãos. Telefonavam-se constantemente. Nas férias dos netos, o avó vinha passar alguns dias no campo. Era uma folia! Caçar lagartas nas folhas das verduras, à noite, com a luz da lanterna que o velho segurava; ensinar o cachorro a rolar o corpo ao toque de três palmas; colher ovos no galinheiro, entre os pios dos pintinhos e o olhar vigilante do galo! E o avô, no aconchego da lareira, com um neto em cada perna, contava histórias fantásticas. Mesmo assim, antes que se completasse uma semana, o avô partia cheio de pressa. Não atendia aos apelos da filha nem aos pedidos das crianças e do genro para que ficasse mais alguns dias.

   – Tenho compromissos. Contas a pagar. Ah, Filó precisa de mim para governar a casa.

   E a volta à rotina... Flores de espécies cada vez mais variadas.  Frutos abarrotando as cestas. Idas e vindas do avô. Só nas férias e por alguns dias... Todos acabaram se acostumando.

   Naquela noite de inverno, o frio congelava e o vento assobiava forte. O marido já acendera a lareira. As crianças enroladinhas nas mantas dormitavam no tapete da sala. Ao toque do telefone, a mãe deixou cair a agulha de crochê e atendeu apreensiva. Viajaram toda a madrugada. Filó explicou:

   – Ele não me deixou ligar antes... Caiu da escada. Ele diz que tropeçou. Sei não...

   O velho com o pé engessado. Um corte no supercílio. E a rápida decisão da filha:

– Filó, apronte as roupas de papai! Todas! Ele vai morar conosco! Você permanece na casa. Pelo menos alguns dias por ano, viremos para cá, aproveitar a praia.

   O velho nem conseguiu argumentar. Os netos estavam em êxtase. Ah, ter o avô todos os dias!... Ao final de sessenta dias, o gesso foi retirado e com a fisioterapia diária, a recuperação rápida possibilitou ao avô o retorno à velha forma. A casa de campo enchia-se de vida! Os pequenos adoravam quando o avô dirigia levando-os à escola. Por todo o trajeto ouviam seus comentários sobre a bela natureza que ladeava a estrada. Nada lhe escapava – o azul do céu, o movimento das nuvens, a revoada de pássaros, uma cutia apressada cruzando o caminho...

   Após alguns meses, perceberam o avô cada vez mais taciturno. Poucas palavras à mesa. A maior parte do tempo na varanda, olhar perdido na imensidão do campo. Ninguém conseguia interessá-lo em nada. Não atendia aos chamados do genro para assistir ao jornal da tevê, nem aos pedidos da filha para cuidar da horta, pois adorava plantar. Diante da insistência dos netos para levá-los à escola, arrumava uma desculpa qualquer. A família desanimava... O que fazer?!

   Numa segunda-feira, ainda no breu da madrugada, batidas à porta do quarto. Era o velho pai. De malas e cuias. Diante do espanto do casal, sua voz trêmula:

   – Perdoem-me! Mas não posso viver num lugar, onde não se vê a linha do horizonte... Numa fração de segundo, na memória da filha, a casa da infância e o oceano – azul e ondas arrebentando nas praias!

   E lá se foi o velho marujo. De volta à cidade natal e ao mar. Mar por onde conduzia as lanchas transportando mercadorias e garantindo o sustento da família . De novo os olhos no horizonte. Fio entre o céu e o mar. Águas de tantas travessias!  

 

 Publicado 17/12

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