Maria Rita - por Antonio Eustáquio Marciano

Maria Rita - por Antonio Eustáquio Marciano

Maria Rita

 

       Era manhã de domingo e eu caminhava pela Avenida Augusto de Lima, na capital mineira, praticando uma atividade muito prazerosa para mim. De passagem pela cidade, onde fui participar de um evento cultural, eu estava livre naquela manhã e decidi matar a saudade do tempo de jovem, quando eu morava, naquela mesma avenida da capital, tão querida por mim. Quando eu nela morava, nos fins da década de 1970, tirava as manhãs de domingo para caminhar pelas ruas cheias de vegetação bem cuidada pelos órgãos públicos. Saía da Rua Bahia, subia a Avenida João Pinheiro, passava pela Praça da Liberdade, onde parava um pouco para admirar uma obra de Oscar Niemeyer que existe por ali. Apreciava a bela praça, o conjunto arquitetônico que compõe o Palácio do Governo. Gostava muito de ficar assentado em um dos bancos da praça, a olhar o trafego, normalmente, bem menor que nos dias de semana. A combinação dos elementos: ruas com asfalto, sol, céu azul e límpido ou às vezes com uma ou outra nuvem branca, o verde das árvores e plantas rasteiras dos canteiros da frente das casas ou das sacadas dos edifícios, me fazia muito bem. A tudo isto, muitas vezes, juntava-se suave brisa matinal. Eu me sentia num paraíso. Após algum tempo, eu continuava a caminhada até à Assembleia Legislativa, parava diante do prédio, e ficava a imaginar o que teria sido discutido naquela casa na semana que passara. Depois tomava o rumo do centro da cidade, esticando a caminhada, pela Avenida Amazonas, passando pela Praça Raul Soares, até à rodoviária. Daí para casa, pela Avenida Afonso Pena. Nunca deixava de dar uma passada no Parque Municipal, para absorver o perfume das folhas e flores ali existentes.

       Naquele domingo, vinte anos depois, eu tentava repetir o trajeto. Não tinha a mesma disposição, mas tinha o mesmo prazer. Eu havia percorrido pouco mais da metade do trajeto, quando, já próximo à Praça Raul Soares, ouvi uma voz feminina me chamar atrás de mim. Olhei, mas não a reconheci. Quando ela chegou mais perto, percebi que era Maria Rita. Tinha um belo sorriso no rosto, quando me disse: quem é vivo, sempre aparece! Eu custara a acreditar que estava diante de uma pessoa que eu julgava nunca mais ver. Depois de um grande abraço, caminhamos juntos até à Praça e nos sentamos num dos bancos, onde havia sombra. Tanto ela quanto eu estávamos muito surpresos e felizes. Não me lembro quanto tempo ficamos na praça a relembrar nosso passado. Dalí fomos ao Shopping, passeamos um pouco. Quando percebemos, três horas tinham se passado e tivemos de nos despedir, não sem antes, trocarmos telefone e email. Não vamos mais nos afastar, disse me ela. Não vamos, respondi. Trocamos longo e forte abraço e vi minha amiga desaparecer no meio da multidão que trançava de um lado para o outro, dentro do estabelecimento.

       Sozinho, depois, me assentei em um dos bancos da praça de alimentação do Shopping. Um atendente se apresentou e eu pedi uma garrafa de água. Na verdade, o encontro com Maria Rita, ao tempo em que me deixara feliz, me provocara reflexões. O que nós fazemos com nossas amizades? Por que deixamos escapar as pessoas de quem gostamos e que gostam de nós? Pus, então a me recordar da última vez em que Maria Rita e eu nos encontramos, havia tanto tempo. Naquele dia eu acabara de chegar à rodoviária de Divinópolis. Eram onze horas da manhã. Desci do ônibus, procedente de Belo Horizonte. Eu tinha iniciado longa viagem às quinze horas do dia anterior, da cidade de Itamarandiba, município que situa-se no Alto Vale do Jequitinhonha. Estava maravilhado com o que houvera visto. O município estende-se sobre os domínios do bioma Mata Atlântica, a leste, e Cerrado, com um relevo marcado pelas grandes chapadas e pela Serra do Espinhaço.  Recém formado Técnico Agropecuário, eu fora chamado por uma grande empresa de reflorestamento, para trabalho. Visitei os campos e, apesar de ter apreciado o lugar e trabalho, recusei. Eu queria cursar uma Faculdade, a pequena cidade não oferecia esta possibilidade. Preferi, então, morar na capital. Viajando de ônibus, eu chegara à capital mineira quase meia noite. Tinha dinheiro no bolso apenas para pagar a passagem para minha cidade e mais uma moeda, valor de uma passagem de coletivo e uma ficha telefônica. Eu tentaria encontrar meu amigo. Ele trabalhava, em noites alternadas no pronto socorro do Hospital, como assistente de enfermagem. Inseri uma ficha no orelhão e aguardei ansioso a voz do outro lado. Alô! A voz conhecida me aliviou. Meu amigo providenciou para que eu matasse a fome de quase nove horas.

       De manhã viajei pra Divinópolis, desci do ônibus e me dirigia ao guichê para comprar a passagem para Perdigão, minha cidade., quando ouvi uma voz feminina a me chamar pelo nome. Voltei-me e deparei-me com Maria Rita. Era uma amiga dos tempos de criança. Morávamos agora em cidades diferentes, cada um tentando cuidar do seu futuro. Nós nos aproximamos e, quando a abracei, percebei que seus olhos estão marejados de lágrimas. Estava abatida e triste. Seus olhos, que eu tanto conhecia, haviam perdido o brilho. Ela permaneceu abraçada comigo por alguns instantes. Percebi o quanto estava sofrendo. Quanto se afastou um pouco, fitei seus olhos e lhe perguntei o que se passava. Há um mês, perdi minha avó, respondeu-me. Sua avó era quem a tinha criado, pois, a mãe ela tinha perdido quando criança. Meu Deus – pensei – minha amiga está sofrendo muito! Eu sabia muito bem o que ela estava sentindo, pois eu tivera vivido a mesma situação, havia pouco mais de três anos, quando minha mãe falecera. Eu estava já com muita fome, não tinha dinheiro para um lanche, mas fiquei ao lado dela, que, aos poucos, foi mudando o estado de espírito. Entre caminhadas e paradas, ficamos cerca de quatro horas juntos. A fome fazia doer meu estômago, mas eu não tive coragem de chegar até à casa de minha amiga e pedir algo para comer. Coisa de jovem tímido. Eu não tinha nada a oferecer àquela minha irmã em Cristo, a não ser a minha companhia até à sua casa.. Quando a deixei, próxima à sua casa, ela estava bem melhor. A vida me levou para uma cidade distante. Nunca mais nos vimos, até aquele domingo, por acaso, em Belo Horizonte. Contudo, meu pai sempre me falou dela e do quanto ela era grata a mim por aquele dia. Mandou-me muitos recados, através dele! Mandava dizer sempre que nunca se esquecia de mim. Que bom – eu pensava. Eu concluí que fazer o bem faz bem ao nosso espírito e à nossa alma. Não esperava mais ver Maria Rita. Contudo, naquela bela manhã de domingo, distante mil quilômetros da minha casa, eu pude rever Maria Rita e gozar da sua amizade, consideração e gratidão. Uma amizade que será eterna.

 

 

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