Meia cancha de luz - por Rubens Silva

Meia cancha de luz - por Rubens Silva

Meia cancha de luz

Tradição que até bem pouco tempo existia no Rio Grande do Sul. A corrida de cancha reta acontecia sempre aos domingos. Em cima de uma coxilha geralmente nas grandes fazendas. Também podia ser realizada em qualquer lugar. Dependia do humor e da vontade da rapaziada. As carreiras eram atadas com qualquer cavalo. Assim, sem mais nem menos. Uma forma de testar quem era o melhor cavaleiro, ou o melhor cavalo.
Todas as semanas um de nós lá em casa era escalado para comprar carne num açougue que ficava a quatro léguas. Às vezes a cavalo outras de charrete. Trazíamos carne para todos os trabalhadores da turma. Para àqueles que podiam comprar é claro. Na frente do açougue juntava aquela multidão de cavaleiros, de todas as idades. Alguns montavam cavalos bonitos, bem arreados, fogosos e inquietos. Qualquer afrouxada nas rédeas era perigoso. Era gostoso de ver. Também apareciam matungos em condições precárias. Magros. Mancos. Quase cegos. A nossa égua, o único meio de transporte que tínhamos, sofria de um garrotilho crônico. Uma tosse terrível. Expelia uma secreção amarelada das narinas. Um pus fedorento que dava nojo. Passei muita vergonha com ela.
Enquanto a gente esperava iam surgindo apostas. Um cavaleiro da minha idade viu o estado lastimável da minha montaria e resolveu me desafiar. Talvez para mangar de mim.
- Quer apostar comigo? Vinte passos de luz! – disse já prevendo o resultado da carreira.
- Ta louco tchê! Com esse teu cavalo eu não tenho a menor chance! – respondi recusando o desafio. Era um cavalo baio. Crinas loiras. Sarado. Fogoso e saltitante. Covardia diante da minha égua tordilha toda escacheretada.
- Vamos lá? Meia cancha de luz então! – Insistiu.
Pensei com meus botões. Vou ganhar desse cara! Com toda aquela vantagem me parecia fácil. Aceitei o desafio. Montamos e fomos para o local de partida. Ele junto à porteira, bem atrás de mim. Eu na metade da cancha. Olhava para trás e via ele distante. A frente uma porteira, uma multidão de cavaleiros e uma cerca de arame farpado.
Foi dada a partida. Cutuquei minha égua com os calcanhares e ela custou a reagir. Bati com o relho em suas ancas e ela só troteava. Não galopava. Eu desesperado. Batia, batia e nada! – Vamos! Infeliz – eu pensava. De repente: “perere-perere-perere” o meu adversário passou por mim. Finalmente a égua começou a andar mais rápido. Indo direto a cerca de arame farpado. Eu puxava sua rédea, mas ela não obedecia. A cerca ia crescendo na minha frente. A bendita égua não enxergava de longe. Ela parou de repente. Eu passei por cima do seu pescoço e fiquei pendurado na cerca de arame farpado. Lanhei-me todo. Rasguei minha roupa. Imaginem a diversão da galera. Alguns amigos correram para me acudir. Levaram-me para a casa do dono do açougue. Fizeram alguns curativos. Estava pronto para outra carreira.
Essa foi mais uma história da minha adolescência.

 

publicado em 23/04/2014

Conheça outros parceiros da rede de divulgação "Divulga Escritor"!

 

       

 

 

Serviços Divulga Escritor:

Divulgar Livros:

 

Editoras parceiras Divulga Escritor