Mendigando Beleza - por Regina Alonso

Mendigando Beleza - por Regina Alonso

  por Regina Alonso

 

 Quinzena terrível! A programação da cidade nos píncaros e eu de cama: nem cinema teatro ou bate-papo literário. A contemplação da lua faço entrincheirada atrás da janela do quarto: eu o mar a lua, solitários, ensaiando versos. Notícias secas lidas no jornal, tentando imaginar como foi o acontecimento ao vivo.

   Deixo a casa, o isolamento e o suor. Atravesso a rua a luz o trânsito caótico até o consultório médico. Inspirar expirar tossir. Pedido de exames. Fundo alérgico (não se sabe do quê). De volta, no táxi, o rádio ligado para informações de próximos passageiros e endereços, entre chiados e interferências. A cabeça lateja, parece que vai explodir. Peço ao motorista a gentileza de desligar. Ele não atende e avisa que precisa ficar alerta aos chamados dos fregueses. E prosseguimos da Ana Costa, altura da linha da máquina, até a Ponta da Praia, ao lado do aquário municipal.

   Suor em bicas. Calor e frio. Desconforto. Extravaso o mal-estar esparramada no sofá. Olhos semicerrados e quase adormeço, não fosse pela música “dita” sertaneja, que invade o apartamento sem pedir licença.  Não é música de raiz, mas caipirês da pior qualidade em alto e bom som. Não sei se vem de algum vizinho ou de um carro estacionado frente ao mar. Audácia, gente! Mendigando beleza, fecho as vidraças, mas o som ultrapassa, martelando os ouvidos.  Mendigando beleza reafirmo: ninguém deveria ser obrigado a ver ouvir sentir aquilo que o agride. Não falo de proibições, pois “é proibido proibir”, graças a Deus! Falo de bom senso para não incomodar, achando que todos gostam do que apreciamos. Tenho certeza que a beleza se aprende no convívio com o harmonioso do que está à nossa volta: não incomoda, não fere, mas toca recônditos de silêncio da alma e daí sentimos aquela paz, aquele bem-estar. Aprender beleza, aprender verdade implica em avaliação e descarte. As prateleiras do cotidiano abarrotadas de “perfumaria” enganosa. “É preciso saber viver”, versos para serem cantados pensados vividos.

   A freada brusca da moto, o carro que invade a faixa de pedestre, a bicicleta na contramão, o jovem atleta musculoso sentado no ônibus fingindo não ver a senhora de pé... O quitandeiro que faz a entrega das compras enviando sempre alguma banana podre, a laranja mofada e o pacote de arroz cheio de bichinhos, porque mal armazenado. São detalhes, foi engano, tentam me consolar, quando me queixo ao telefone: como se fosse possível alguém não perceber o que está deteriorado pelo cheiro ou pela aparência.

   Mendigando cada vez mais a beleza nossa de cada dia, escorrego na titica na calçada e a senhora de roupa esportiva estilosa, nem aí, continua a puxar pela coleira reluzente o cão de boné e sapatinhos. Pro garoto que lhe carrega as sacolas pesadas da feira, estende a mão; nos dedos reluzentes de anéis, a moeda de cinqüenta centavos e olhe lá!

   A conta mensal de táxi foi estratosférica. Ainda fraca, forço-me a dirigir. Enquanto faço a manobra, um espertinho de cabelos brancos adianta-se, ocupa a vaga e diante do meu olhar perplexo, sorri como se dissesse “que pena”, sem esconder a ironia (e o orgulho da malandragem).

   Mendigando beleza continuo a transitar neste espaço-arena que chamamos cidade. Impossível enclausurar-se, morrer em vida. Abro a porta e saio, mendiga que sou, atrás da feli(z)cidade.

 

Publicado 24/01/2014

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