Momento Kit Kat - por Fernanda Comenda

Momento Kit Kat - por Fernanda Comenda

MOMENTO KIT KAT

 

Sentada numa cadeira virada para o Tejo, Marília comia um chocolate Nestlé. O chocolate derretia-se na sua boca lentamente, enquanto Marília contemplava o brilho que as águas do Tejo emanavam. A ponte Vasco da Gama brilhava e desenhava sobre o Tejo uma longa curva arredondada e recheada de pequenos pontos em movimento, carros que lá circulavam, fazendo parecer-lhe um bordado a ponto Richelieu.

O chocolate espalhava-se pela língua e o seu paladar era doce, quente e revigorante. Lembrou-se e quase sentiu os beijos quentes e doces de Francisco. O primeiro tinha sido assim, ela tinha acabado de colocar na boca um pequeno quadrado de chocolate, Francisco aproximou o rosto do seu, a boca da sua, uniu os lábios aos seus e o pedaço de chocolate foi saboreado pelos dois em simultâneo… um beijo doce, irresistível, duradouro, parecia não terminar…

Eram imagens e sensações bem presentes em si. O tempo passava, avançava, mas as lembranças ficavam…

    - Posso sentar-me? Posso sentar-me? – Alguém lhe perguntou.

Marília levantou os olhos, saindo dos seus pensamentos e respondeu:

    - Sim, pode! –

O prazer da recordação estava materializado no sabor do chocolate, mas o pensamento tinha sido cortado pelo intruso. Fixou-o, olha quem ele era, o seu colega de trabalho, o Ricardo! Não convivia muito com ele, mas havia uma certa empatia entre ambos.

      - Então, por aqui a descansar? – Perguntou-lhe Ricardo.

      - Sim, estamos na hora do almoço, ou não? – Retorquiu-lhe Marília.

      - E o Tejo está tão lindo! Tão romântico!– Exclamou-lhe o colega, continuando - até é pena estar tão sozinha!...

       - Agora já não estou, estou com o chato do colega Ricardo!

       - Além disso, querida colega, também já não estava só, olhe a quantidade de pessoas que estão sentadas nesta esplanada da varanda do segundo andar do centro Comercial Vasco da Gama!

Marília olhou à sua volta e deu-se conta de que tinha voltado ao mundo real, o momento Kit Kat, tinha terminado!

      - Bom, vamos lá para o escritório, é preciso trabalhar!... – Disse a jovem mulher.

   O resto da tarde foi de muito trabalho e de empenho, mas o gosto do chocolate e do beijo de Francisco estavam bem presentes… só era pena que Marília e Francisco tivessem terminado há dois anos. Tinham sido dias de grande sofrimento para Marília. Ela amava-o bastante, as saudades não a deixavam e cada vez eram maiores…

O fim do dia chegou e Marília saiu calmamente, caminhando em direção à estação do Oriente. Olhou para o relógio, ainda havia tempo, entrou no Centro Comercial, passeou pelos corredores, entrou na Woman’Secret, experimentou um pijama quentinho, com as calças de cor de chocolate às bolinhas brancas, e sweatshirt branca com a imagem do bambi. Era quentinho, fantástico e confortável. Comprou-o. Foi a correr para o comboio. Subiu para a gare. O comboio rapidamente apareceu e num ápice estava  em Moscavide, uma terra a que ela não achava encanto mas estava próxima do trabalho, o que na sua opinião era importante. Entrou no seu pequeno apartamento e sentiu um desejo enorme de vestir o pijama com cor de chocolate. Vestiu-o embora não fosse seu hábito vestir esse tipo de roupa sem a lavar primeiro. O cheiro de chocolate quente subiu aos seus sentidos, à sua memória; foi,então, rapidamente preparar uma bebida do mágico néctar, visto que tinha sempre um pacote de cacau na sua despensa. Pôs água num fervedouro, quando aquela fervia, juntou-lhe duas colheres de sopa de cacau, deixou ferver uns segundos e apagou o lume, para que o cacau não derramasse devido à fervura.Fez uma torrada. Ligou a aparelhagem com uma música calma e romântica. Sentou-se no seu sofá com uma mantinha cor-de-rosa sobre as pernas. Na pequena mesa de sala em frente a si, um tabuleiro com uma grande caneca de cacau quente e um prato de sobremesa com a torrada. Agarrou na caneca e em pequenos golos ia saboreando o maravilhoso néctar, uma dentada na torrada e um golo de chocolate. A torrada desfazia-se lentamente na sua boca,misturada com a manteiga e o doce, todas as suas papilas gustativas estavam ativas, levando-lhe sensações quentes e doces ao seu cérebro que energeticamente lhe transmitiam bem-estar e prazer a todo o seu corpo. Lembranças de criança vinham-lhe à memória: noites frias e de neve, na sua terra natal, na Guarda, com a sua família, pai, mãe, irmão e avós, à lareira. Via o dourado do lume que no seu leito desenhava animais fantásticos, que ela não tentava agarrar, mas que não se fartava de admirar… ouvia a voz da mãe que lhe contava lindas histórias ou a voz de toda a sua família a conversar, a falarem da vida! Como tinha saudades, como desejava vê-los e, sem mais, pegou no telemóvel e ligou para o pai, pois a sua mãe já falecera.

- Pai, querido pai, como estás?

- Vou andando, filha, e tu?

- Também, telefonei porque queria ouvir a tua voz, tenho saudades!

 E a conversa prolongou-se durante um quarto de hora. Pousou o telemóvel, acabou de comer, enroscou-se na manta e adormeceu. Sonhou que voltara a ser criança e a viver na Guarda com a sua família e o sabor do chocolate quente sempre na sua boca…

Trimtrimtrimtrim ecoava no quarto o som do despertador, Marília que tinha dormido toda a noite na sala, acordou sobressaltada e arrepiada, pois tinha arrefecido durante a noite. Tomou consciência de que não tinha ido para a cama. Levantou-se ainda aos tropeções, tomou o seu duche, arranjou-se e lá foi para a estação apanhar o comboio para o Oriente. Passou mais um dia, um dia normal, normalíssimo, sem graça, nem um bom chocolate Marília saboreou. Só o fim do dia a alegrou: era sexta-feira, portanto, os próximos dois dias, fim de semana, seriam exclusivamente para fazer o que lhe apetecesse!...

     Em casa, já tinha jantado, ia-se deitar, quando o telemóvel tocou, tintintantantintintantan…

    - Sim, está?

    - Olá. Sou eu o Ricardo!

    Marília com o ar meio admirado responde:

   - Olá! Aconteceu alguma coisa?

   - Aconteceu! Lembrei-me que poderias querer ir comigo tomar um café!...

   - Um café? A esta hora da noite?

   - Sim, o que tem? Todas as horas são boas para tomar um café!

    Marília hesitou, mas num impulso respondeu:

 - Está bem, vou tomar um café!

 - Então, dentro de uma hora passo por aí. Dou-te uma apitatela do telemóvel, desces e levo-te no meu carrinho.

  - Ok. Até já!

  - Até já!

   Marília guardou o telemóvel dentro da mala. Tomou um duche num ápice. Passou um creme pelo corpo, ainda por cima, este cheirava a chocolate. Maquilhou-se levemente, vestiu as suas jeans “Ana Sousa”com piripiri, na loja disseram-lhe que o tecido massajava enquanto ela caminhava, tornando-a mais elegante. Ela não sabia se era verdade, mas que lhe ficavam bem, ficavam! Vestiu um camiseiro justo, azul, um casaco preto de linhas elegantes, uns brincos compridos com pequeninas pérolas pretas e azuis. Escovou os seus cabelos dourados. Bâton nos lábios e aguardou o toque do telemóvel. Pouco depois ouviu-o e desceu. Entrou no pequeno Fiat Punto de Ricardo.

    - Onde vamos? – Perguntou a Ricardo.

    - Onde quiseres! – respondeu-lhe o amigo

    - Leva-me às Docas!

   Nas Docas entraram num pub. Olharam para o interior, mas preferiram o exterior, a esplanada. Pediram dois cafés e um uísque. Em frente, viam o rio, com as luzes refletidas, parecia uma animação.

   Ambos os amigos bebiam o café e olhavam-se em silêncio. Marília sentia o gosto do café de uma forma diferente do habitual, tinha o paladar de um caminho novo, de um possível novo amor. Ricardo tinha os olhos cor de chocolate, cabelos de avelã, pele lisa e apetecível com provável sabor a café com leite…

    Uma música muito antiga mas fantástica aos ouvidos de Marília começou a ouvir-se “LoveStory” … o café terminou, mas as chávenas continuavam nas mãos de cada um, o olhar deambulava do rio para o olhar um do outro, o coração de Marília batia apressadamente, parecia que lhe ia saltar do peito, mas ela queria demonstrar calma, e num tom pausado disse que era melhor passearem um pouco. Assim o fizeram, mas sem antes Marília levar o pequenino chocolate que no pires tinha acompanhado o seu café. Caminharam lado a lado a conversarem sobre a beleza e calma da noite, as mãos tocaram-se, Marília levantou as mãos, desembrulhou o pequeno chocolate, colocou uma parte na sua boca, virou-se para Ricardo, aproximou o seu rosto do dele, a sua boca da dele, ofereceu-lhe uma parte do chocolate, os lábios uniram-se, o chocolate ora derretia-se na boca de um ou de outro, as papilas gustativas ativas transmitiam vibrações ao cérebro, o cérebro ao corpo que de segundo para segundo unia os dois seres num beijo e abraço mágico, duradouro e feliz!

 

 

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