Morte na Praça - por Anchieta Antunes

Morte na Praça - por Anchieta Antunes

MORTE     NA     P R A Ç A

 

            Brilhava ao sol poente quando, sem se anunciar um chuvisco embaçou o brilho do velho calçamento da praça. Uma praça arredondada. Um milenar de histórias. Um fulgor eterno.

O menino descalço corria atrás de sua roda de ferro tirada de uma pipa de vinho, e empurrada por um aro de arame. Toda a alegria do mundo estava contida nos olhos e no sorriso escondido do menino que corria descalço. A liberdade materializada nos anseios de uma criança alegre. A calça rasgada nos joelhos, a camisa por fora e os cabelos ao vento. Um eterno sorriso de prazer nos lábios. A vida era toda dele.

            Do lado esquerdo da praça, fincada nos alicerces da austeridade, sobrepunha-se a imponente construção do Palácio da Justiça. Uma porta pesada de madeira de lei, fechando seus segredos, com seu  arco medieval, e dobradiças de cobre, sustentava a justiça, a última palavra, o destino de muitos. Sua entrada impunha respeito e silêncio como se ali existisse para sempre a única verdade do homem togado. Sua cúpula refletindo o ouro da sentença refulgia os sóis de cada dia. Uma jovem com os olhos vendados ditava a imparcialidade. Gárgulas aladas nas alturas atribuíam medo a quem as olhasse de baixo. O receio inerente ao desconhecido. A culpa dos indecisos.

             Do outro lado da praça uma moça vinda da Hungria, trouxe seus cabelos bronzeados nos caracóis, e desfilava mistérios e deslumbramento. Olhos redondos e lentos brilhavam segredos aconchegados em sua alma de “gitana”. Os arcanos decoravam sua saia rodada, colorida e endiabrada. O arpejo de sua voz encantava os desprevenidos, e assombrava as mulheres cautelosas de seus homens. O ciúme delas rondava os passos da morena trigueira. A palavra dita podia ser maldita. Sutil interpretação. Sua quitanda era frequentada por pessoas que se pensavam ocultas das demais, em plena luz do dia. Segredos seriam revelados e destinos alterados ao sabor dos desejos. Uma moeda de ouro e a esperança brilhavam nas testas ingênuas.

            Os trilhos dos bondes reluziam nos seus cruzamentos e círculos, prodigalizando a singeleza do lugar; uma praça com bancos de madeira, com postes de pouca monta e luzes antigas, ruelas desmontando ao seu chegar. Ao fim da tarde os acanhados e barulhentos veículos elétricos traziam a algazarra dos jovens em busca de pequenas aventuras. Subiam, desciam, empurravam, sentavam, saltavam e debochavam dos medrosos, quando o bonde ainda não havia estacionado. Uma vez estático todos se dirigiam para as mesas ao longo das marquises que circundavam a praça de calçamento vetusto. Vinhos e petiscos eram servidos aos borbotões, e a alegria começa a caminhar praça afora à procura de outras serventias acabrunhadas.

            No meio da praça um sino de bronze arriado em seu desmazelo, dobrava em nome da paz mundial quanto alguém remontava  seu badalo e o soltava de vez. A Capela que existia desmoronou quando o terremoto avassalou a cidade incipiente. O homem morreu, o sino quedou. Uma memória de sangue e desespero. De vez em quando o sino suspira o ronco das entranhas da terra enfurecida, e respinga o sangue dos inocentes. A praça foi construída ao seu redor e o calçamento cobriu as lembranças carentes de esquecimento. Um momento funesto deve ser apagado dos olhos e da mente.

            Todas as quartas feiras ele chegava em sua caleça puxada pelo seu nobre Orloff puro sangue, para degustar  seu vinho de safra especial. Era proprietário de um vinhedo nos arredores da cidade. O “pub” era seu, e o vinho, sua produção. Alto, musculoso, queimado do campo prenhe de uvas selecionadas, não era homem acomodado, não tolerava burocracia, papelórios, e assinaturas. Tinha gente encarregada de levar a carteira de trabalho enquanto ele trotava nos caminhos tortuosos de um vasto campo semeado de “Bacos”. Sugava as uvas como quem bebe vida. Misturava as mãos com a terra roxa para nela se inserir e produzir mais raízes e rebentos chorões e briguentos. A vida, a carne, o sangue, vontades, prazeres, êxtases e paixões, um vulcão, um ser, o homem. Assim era Carlos, e seus caminhos aventureiros, suas vontades indômitas.

            Naquela tarde, 4 de março, uma quarta-feira fatídica, ela caminhava nas sombras do quase anoitecer, ocultando-se dos olhos de Carlos, a quem pretendia dar um presente letal. Glória buscava vingança. Queria ver jorrar da ponta de seu punhal de bronze a cor nobre do sangue tingido de uvas. Queria ferir o âmago de um coração apaixonado pela cigana vinda da Hungria. Glória suava a morte prematura de sua irmãzinha que fora ludibriada e enganada em sua inocência, pelo diabo vestido de homem que se chamava Carlos; o homem do vinhedo. Sonia havia se suicidado, diante de tanta vergonha no seio da família cigana. Crenças e tradições não aceitavam estupros. O “haraquiri” cigano era uma gota de cicuta numa taça de cristal. Uma vez tombada em terra a tradição estava salva, a honra lavada, e a família exaltada. Cabia a Glória vingar-se do algoz.

            De longe ele percebeu um vulto esgueirar-se nas sombras das colunas e correu no encalço do que imaginava ser sua amada cigana. Ao aproximar-se de uma coluna percebeu já tarde demais, um punhal ocre vir subindo em direção ao seu tórax. O impacto o estremeceu, porém não sentiu dor nenhuma, a não ser a dor da desilusão. Caindo sobre a mulher, com voz de súplica, ainda teve alento para perguntar: –Glória, o que você fez? Por que fui apunhalado por você, minha amada?

            Seu sangue escorria da chaga aberta em seu peito e  manchava a blusa dela, que respondeu compungida: –Você fez sucumbir minha irmãzinha, de apenas 15 anos! Você a matou com sua voracidade sexual! O pecado da carne. A luxúria do homem sem limites.

Em  estertores ele escutava incrédulo:

 –Eu também o amo, mas não posso deixar de lavar a honra de minha família, de minha inocente irmã. Você tem que pagar pelo seu crime hediondo. Esqueceu que somos ciganos?

            Estendido aos seus pés com uma nevoa de voz, sendo seu último argumento em vida, ele consegue pronunciar:

            –Não fui eu, minha amada! Foi meu irmão gêmeo. Ele é louco e foi expulso de casa no momento em que soubemos de sua loucura premeditada. Eu estou morrendo inocente. Pelas tuas mãos entrego minha vida...

É o destino do homem. É a vida feito teatro. O último ato e as cortinas se vão cerrar. O público aplaude a morte. A tragédia se perpetua.

            Glória não suportou a dor do sofrimento. Jogou-se de um precipício em voo livre, dois dias depois.  A família cigana foi embora da cidade. Duas famílias, duas desilusões, três funerais, muitas lágrimas. A saudade plasmada nos olhos dos pais desventurados, nômades, agora sem filhas.

            O bonde continuou a chegar e partir, trazendo e levando gentes de todas as raças, estirpes e humores. O sol seguiu luzindo nas pedras do velho calçamento. O Juiz julgando mais casos a cada dia. As gárgulas nunca riram dos acontecimentos relatados. Os jovens embriagavam-se com os vinhos de Carlos.

            A vida continua...

 

Anchieta  Antunes

carnaval de 2017.

 

 

 

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