Mouzar Benedito

Mouzar Benedito

Por Shirley M. Cavalcante (SMC)

Mouzar Benedito da Silva é jornalista e geógrafo. Nasceu em Nova Resende (MG), em 23 de novembro de 1946. Atualmente é colunista das revistas Fórum e Revista do Brasil. Como jornalista, trabalhou ou colaborou em mais de trinta jornais. Entre eles, Gazeta de Pinheiros, DCI, Shopping News, Brasil Agora, Juventude (Uruguai) e Jornal dos Bairros (Belo Horizonte).

Trabalhou ou colaborou também em cerca de trinta revistas, entre elas, o Guia Rural Abril, Globo Rural, Almanaque do Globo Rural, Teoria & Debate, Caminhos da Terra, Fórum, Revista do Brasil, Querida, Contigo!, Marie Claire, Crescer, Família Cristã, Náutica, Carreteiro, Brasileiros, Ana Maria, Ligação, Metal e Som Sertanejo. Na televisão, foi editor regional do Jornal do SBT, em Brasília e coordenador de rede na TV Record, em São Paulo.

Tem 31 livros publicados, entre eles os romances “Pobres, porém perversos”, “O tropeiro que não era aranha nem caranguejo” e “João do Rio, 45”, os livros de causos “Trem doido” e “Santa Rita Velha Safada”, o infanto-juvenil “Saci, o guardião da floresta” e os perfis biográficos “Meneghetti, o gato dos telhados”, “Barão de Itararé, herói de três séculos” e “Luiz Gama, o libertador de escravos, e sua mãe libertária, Luíza Mahin”.

 

Agradecemos imensamente ao escritor Mouzar Benedito por participar do  projeto Divulga Escritor. Muito bom conhecer um pouco melhor sua carreira literária, suas dicas...

 

 BOA LEITURA!

 

 

SMC - Nobre escritor Mouzar Benedito da Silva, para nós é um prazer imenso contar com a sua participação no projeto “Divulga Escritor”.  Escritor Mouzar você já escreveu para mais de 30 jornais, você lembra qual foi o primeiro jornal onde você iniciou sua carreira jornalística? Sobre o que escreveu?

Mouzar Benedito - Comecei escrevendo em jornais de estudantes, na Geografia da USP, e os temas eram relativos à militância da época, como o imperialismo, a ditadura, a reforma universitária e a defesa do socialismo, mas sempre procurei encarar isso tudo com uma boa dose de humor.

O primeiro jornal “de verdade” foi o Versus. Depois de terminar o curso de Geografia, em 1971, passei dois anos no interior, meio “fugindo” da ditadura, voltei para São Paulo, estudei um pouco de chinês e tupi e decidi fazer o curso de jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, achando que a forma de militância contra a ditadura mais adequada naquele momento (entrei em agosto de 1974) era a imprensa alternativa. Conheci Marcos Faerman, que liderava um grupo de jornalista e intelectuais que pretendiam fundar um jornal nos moldes da revista Crisis, de Eduardo Galeano. Eles me aceitaram e eu ajudei a fundar o jornal, que tinha uma proposta latino-americanista, e contava com colaboradores como Eduardo Galeano, Gabriel Garcia Marques, Benedetti, Ariel Dorfmann... Eu tinha uma coluna chamada Dólar Furado, que teoricamente era de economia, mas era mais de humor.

 

SMC - Quais os principais temas que você aborda em sua escrita? O que lhe inspira a escrever sobre estes temas?

Mouzar Benedito - Meu primeiro livro foi de causos, escrevi em 1983. Eu morava numa república e contava muitos causos, não tinha ideia de escrever livros. Mas um dia, pedi demissão do cargo de assessor parlamentar na Assembleia Legislativa de São Paulo e não conseguia dormir, de tão feliz que me sentia. Sem o que fazer, porque os demais moradores trabalhavam e tinham que acordar cedo, fiquei sem ter o que fazer e escrevi em três noites o livro Santa Rita Velha Safada, que só foi publicado quatro anos depois.

Em seguida, veio o romance Pobres, porém perversos, inspirado na vida de rapazes que deixaram o interior e outros estados para estudar e trabalhar em São Paulo.

Tenho outros livros de causos, e a inspiração é aquela coisa de mineiro. Na barbearia do meu pai, ouvia muitos causos, trabalhei numa selaria, numa loja de “turco” onde rolavam muitos causos também.

Outros temas... Um é a cultura brasileira, e no caso minhas inspirações são os fatos de ter viajado muito pelo Brasil e de ser geógrafo. Outro é a ditadura, ou melhor, a resistência a ela, que tem a ver com a minha própria história. Outro, ainda, é a mitologia indígena, que me interessa muito e tem a ver com a questão da cultura brasileira, que já citei.

 

SMC - Escritor Mouzar, resumidamente, conte-nos de que forma você colaborou para as dezenas de Revistas que contaram com a sua participação? Hoje, você trabalha para alguma especifica?

Mouzar Benedito - Em algumas revistas, fui empregado, como no caso do Guia Rural Abril, onde escrevi sobre agricultura. Uma época, eu era editor regional do Jornal do SBT, em Brasília, e me convidaram para trabalhar numa revista para meninas adolescentes, a Querida. Topei, para espanto dos amigos. Os assuntos eram beijos, a primeira menstruação, coisas por aí. Para a Revista del Sur, publicada em espanhol por uruguaios exilados na Suécia, escrevia sobre política no Brasil. Recebi convites para colaborar em revistas de assuntos mais variados, como a Crescer em Família, Marie Claire, Caminhoneiro, Teoria & Debate, Brasileiros... E sempre topei, desde que não fizesse nada que me contrariasse a consciência. Hoje, sou cronista das revistas Fórum e Revista do Brasil.

 

SMC - Você já realizou trabalhos de criação, redação e tradução para três peças teatrais, conte-nos, a peça que mais marcou em sua carreira teatral foi a peça que teve maior sucesso? Qual foi a peça que mais lhe marcou e por qual motivo marcou tanto?

Mouzar Benedito - Duas dessas peças nunca foram montadas. Uma exigia um elenco muito grande e caro, era sobre a vida de Van Gogh. A peça que foi montada chama-se O Frio e o Quente, do argentino Pacho O’Donnel. É um drama com uma carga emocional e psíquica muito forte, sobre uma prostituta e sua mãe que moram numa casa. Ela teve mais de cem apresentações no TBC, em São Paulo, sempre com sala lotada, 100% de ocupação... Mas isso é uma brincadeira, pois o TBC tem várias salas e a nossa peça foi apresentada na menor delas. Eu assisti a peça na apresentação e mais uma vez depois, e nessas duas ocasiões vi gente chorando na plateia.

 

SMC - Escritor Mouzar, você hoje tem vários livros publicados, conte-nos qual o livro que demorou mais tempo para ser escrito e publicado? Que temas você aborda neste livro?

Mouzar Benedito - O romance O tropeiro que não era aranha nem caranguejo foi pensado por mim e um amigo como roteiro de cinema, em 1974. Iríamos trabalhar juntos nele, mas o tempo passava e não tínhamos tempo pra reunir e começar os trabalhos. Enquanto isso, eu ruminava sobre o assunto e pesquisava. Em 2002 ou 2003 resolvi fazer o romance e me esquecer do filme. Aí já tinha tudo pesquisado, e escrevi. Mas ele só foi publicado em 2008, quando o inscrevi no Proac – Programa de Apoio à Cultura, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, e ganhei o prêmio. Ele trata do tropeirismo na região em que nasci, o Sul de Minas, entre o final dos anos 1920 e 1932, época em que o trem e as estradas faziam as tropas perderem sua função ali. Era época também do fim da política do café com leite, em que paulistas e mineiros se revezavam na presidência da República. Havia ainda o coronelismo, e nesse período ocorreu a crise de 1929 e as revoluções de 1930 e 1932. Tudo está no romance, em que um rapaz aventureiro começa a trabalhar numa tropa atípica, violenta, e ao mesmo tempo desenvolve uma paixão por uma moça que era contra tudo aquilo.  

 

SMC - Qual o livro que demorou menos tempo para ser escrito e publicado? O que o motivou a escrever de forma mais intensa que os demais livros escritos? Que temas você aborda neste livro?

Mouzar Benedito - Meu primeiro livro, que já citei, Santa Rita Velha Safada, foi escrita em três noites. Foi uma catarse, uma alegria imensa por ter saído de um emprego que não gostava. Não conseguia dormir, escrevia matérias para o Pasquim e outros jornais até 3h da manhã e continuava sem sono, nessas três noites. Então, das 3h às 7h, escrevia causos... São causos ambientados na minha cidade, Nova Resende, que já se chamou Santa Rita Velha. Procurei, com humor, revelar o modo de vida de uma pequena cidade mineira, com seus pobres, seus loucos, suas prostitutas, seus poetas, seus boêmios e sua pretensa elite. Tenho uma fascinação pelas pessoas desvalidas e elas são personagens que prefiro e privilegio.

 

SMC - Em sua opinião qual foi o livro que fez maior sucesso através dos críticos/mídia? Foi o mesmo que teve maior número de vendas?

Mouzar Benedito - Acho que Meneghetti, o gato dos telhados, foi o que teve mais destaque, com matéria de primeira página inteira na Ilustrada, caderno de cultura da Folha de São Paulo, duas páginas na Isto É e uma na Época, além de muitas entrevistas em rádio e TV. Meneghetti foi um ladrão romântico, não violento, o mais famoso da história de São Paulo. Mas sua fama se estendeu por boa parte do Brasil, é um personagem fascinante. Os livros que escrevi sobre o Saci e outros personagens da cultura popular brasileira também tiveram bastante destaque na mídia.

O mais vendido, acredito, foi um livrinho com ilustrações de Maringoni, que fiz de graça para movimentos contrários ao pagamento da dívida externa brasileira, nos anos 1990. Chama-se Dívida Externa – eles gastam, nós pagamos. A primeira edição teve 30 mil exemplares, depois veio outra de não sei quantos. Um que vende bastante é Luiz Gama, libertador de escravos, e sua mãe libertária, Luíza Mahin, publicado pela Expressão Popular. É um livrinho pequeno, barato, voltado para um público de movimentos populares, especialmente negros.

 

SMC - Onde podemos comprar seus livros?

Mouzar Benedito - Tá aí uma coisa difícil... Na Livraria da Vila, localizada na Vila Madalena, em São Paulo, há alguns deles. A maior parte dos livros que publiquei tem distribuição bem precária. A Boitempo, que publicou, entre outros, o Meneghetti e o Ousar Lutar – memórias da guerrilha que vivi, distribui bem. Mas pode-se comprar diretamente dela, pela Internet. Também pela Internet, pode-se comprar livros publicados pela Editora Limiar (João do Rio, 45; Trem Doido; O tropeiro que não era aranha nem caranguejo, e a série Bill Ferrer, detetive heterodoxo). Na editora Publisher Brasil (na Internet, é a mesma da revista Fórum) há o 1968, por aí – memórias burlescas da ditadura e Pobres, porém perversos. A coleção Mitologia Brasílica (Saci, Boitatá, Iara, Curupira, Caipora e os importados Mula sem Cabeça, Cuca e Lobisomem) pode ser adquirida na Cepar Cultural. E na Expressão Popular tem o livrinho que citei, do Luiz Gama e um do Barão de Itararé.

 

SMC - Quais os seus próximos projetos literários?

Mouzar Benedito - Está saindo aí, pela Melhoramentos, um livro que considero importante, chama-se Paca, tatu, cutia... Glossário tupi ilustrado. É uma espécie de “dicionário” informal, sobre palavras que usamos no dia a dia que as pessoas pensam que são originárias da língua portuguesa, mas são de origem tupi.

Da coleção Bill Ferrer, detetive heterodoxo, foram escritos até agora oito volumes, mas só quatro foram publicados – em agosto saiu O detector de mentiras e outras histórias. Pode ser que em novembro a gente publique o quinto volume, Pamonhas de Piracicaba e outras histórias.

Sou conselheiro do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, e editei um texto que deve sair como “Agenda do Barão”, em outubro.

 

SMC - Quais as melhorias que você citaria para o mercado literário no Brasil?

Mouzar Benedito - O que melhora, acho, é a crescente compra de títulos pelos governos, para bibliotecas públicas e escolares, além de livros adotados como paradidáticos. Mas é preciso facilitar o acesso aos organismos governamentais que fazem as compras, pois tem muito livro bom que fica de fora, enquanto grandes editoras especializadas nisso conhecem o “caminho das pedras” e sempre levam vantagem nisso.

É crescente também o número de feiras e festas literárias no Brasil, algumas delas são mesmo eventos de divulgação e venda de livros. Outras, nem tanto.

Quanto à venda em livrarias, temos muito mais títulos publicados a cada ano, mas as distribuidoras e as grandes redes de livrarias ficam com a parte do leão. Quem escreve e as pequenas editoras ficam nas mãos delas. Tornou-se moda cobrar para expor livros nas estantes mais à vista. Quem não paga, pode até ter seu livro nas grandes livrarias, mas escondidos em estantes pouco freqüentadas.

 

SMC - Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista, agradecemos sua participação no projeto “Divulga Escritor”, muito bom conhecer melhor o Escritor Mouzar Benedito da Silva, que mensagem você deixa para nossos leitores?

Mouzar Benedito - Não sou um bom mensageiro, mas digo a todo mundo que gosto de livros e tenho o vício de escrever (e de ler). Espero que mais e mais brasileiros fiquem viciados em ambas as coisas também. E que não acreditem na propaganda de que o fim do livro está próximo, pelo menos o publicado em papel. Manusear um livro é bem mais gostoso do que ler numa telinha. E quanto aos meus livros, divirjo de quem não gosta que seus leitores emprestem seus livros, acham que isso desestimula a compra. Livro é para ser lido, por quanto mais gente melhor. Fico muito feliz quando vejo um livro meu todo desbeiçado por ter passado por muitas mãos. Então, quem tiver livros escritos por mim, que empreste para mais e mais leitores.

 

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