Muito além da praca - por Regina Alonso

Muito além da praca - por Regina Alonso

Por Regina Alonso

Vila Nova para mim significa Mercado. Na Praça Iguatemy Martins, desembocadouro de ruas, o centro majestoso: Mercado Municipal de Santos. Décadas de 40 e 50. Tudo plausível. Sobrados amplos, porões altos, moradia de várias famílias, que viviam com dignidade, dividindo espaços e despesas. No comércio local, atacadistas de frutas e produtos de granja. Um vaivém de mulheres apressadas com sacolas transbordando. Poucos caminhões. Transporte de cargas às costas dos carregadores ou em carrinhos empurrados à mão. Moleques montados em perna-de-pau entre as cirandas das meninas.

     Produtos que faltavam inesperadamente eram providos de porta em porta pelos ambulantes: cestos de palha e um arco-íris de frutas, verduras, condimentos... À soleira, às vezes, ainda a garrafa de leite e o saco de pão aguardavam o despertar dos sonolentos. Ah, mas a glória, o prazer de subir as escadarias do Mercado Municipal era incomparável. Verdadeiro ritual: mulheres de roupas engomadas, cabelos em coque, à moda da época; algumas com avental de linho para proteger a vestimenta. Outras nem tanto, mães de menores posses, em trajes caseiros, vestidinhos de algodão e sacola grosseira contrastando com as de vime e palha colorida nas mãos tratadas das senhoras, que habitavam os casarões da Avenida Conselheiro Nébias.

    Diante das barracas, nenhuma diferença. Ninguém resistia! As frutas em pirâmides de forma e cor ofereciam-se às mãos prestimosas: caquis, laranjas de umbigo, uvas, bananas da terra, branca, nanica e ouro! Buquês de couve-flor e brócolis eram disputados com respeito: tudo era da melhor qualidade e o preço acessível ao bolso da freguesia. Temperos verdinhos, salsa, coentro e louro ladeavam as sacolas, que pareciam esculturas naturais. As moradoras do bairro paravam na loja em frente para comprar tecidos e aviamentos, numa variedade que só os libaneses sabiam oferecer. No caminho para casa, pausa para a conversa cordial: o noroeste, algum problema na família, que se tornava mais leve ao ser compartilhado.

     O bonde parava defronte ao mercado. Senhoras desembarcavam com empregadas.  As do bairro, às vezes, mandavam as filhas fazer as compras: os maridos não se encarregavam desses afazeres, envolvidos no trabalho assalariado para garantir o aluguel e a mesa farta.

     No mercado de peixe, aos fundos do prédio, ainda menina aprendi com o pai, homem do mar, a verificar o vermelho das guelras, garantia do frescor do produto. Mãos de tantas cores, ásperas e macias, lado a lado, escolhiam entre tantas espécies. Lembro de que me demorava diante do prédio do mercado, magnetizada pelas flores expostas nos balcões altos, como se fossem jardins suspensos contornando a construção. A sensibilidade dos japoneses transformava em arte o ato de ir às compras.

     Hoje, no projeto de revitalização do nosso mercado municipal, a ocupação da área com estacionamento e lazer. Meu olhar atravessa a praça. Percorre os arredores. Alcança o Paquetá. Os cortiços imperam: espaços exíguos para famílias que se amontoam sem privacidade, higiene, boa alimentação e condições de saúde. O desemprego campeia... Percebo que a revitalização do mercado depende de políticas amplas para melhorar as condições de vida de toda a comunidade.  E a beleza e o convívio amorável (re)florescerão  aqui e além, muito além da praça...

 

Publicado em 15/01/2014

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