Mulher FFF - por Márcio Dias

Mulher FFF - por Márcio Dias

Mulher FFF

 

            Era tão feia que dava até dó. Nunca tinha visto tanta feiura numa mulher só. Em menos de dois minutos, ela era capaz de assombrar uma casa de seis cômodos fácil, fácil.

            Se criança coloca apelido até na avó, imagine o que não é capaz de fazer com a amiguinha de classe?! Ainda bem que naquela época não existia por essas bandas esse tal de bullying.

            E foi daí que surgiu o primeiro “F”. “F” de feia. Feia com força.

            Sorte a nossa, azar o dela.

            Descrever beleza é fácil. Difícil mesmo é explicar tamanha feiura. Mirradinha, miudinha, magrinha e mais um tanto de “inha”. Tadinha! Quando chegavam os meses de julho e agosto, eu e meus colegas ficávamos sempre alerta: era só dar o primeiro pé de vento que já corríamos para segurá-la. Iríamos deixá-la sair voando igual a uma bruxa na vassoura só por que ela era feia daquele jeito? Não mesmo!

            E foi daí que surgiu o segundo “F”. “F” de fraca. Fraca com força.

            Sorte a nossa, azar o dela.

            Também num era muito chegada a banho não. Um amarelão danado nos dentes, o cabelo meio ensebado e as unhas sujas de terra. Andava sempre meio fedidinha. Parecia a Cascona, esposa daquele sujeitinho sujinho que é cria do Maurício de Sousa.

            E foi daí que surgiu o terceiro “F”. “F” de fedida. Fedida com força.

            Azar o nosso, azar o dela.

            Ali por volta dos doze anos, depois das férias do meio do ano, aconteceu uma coisa que espantou todo mundo. “FFF” apareceu na escola limpinha, cheirosinha, dentes brancos, cabelo escovado e unhas aparadas. Ninguém entendeu nada, mas também ninguém reclamou.

            E foi aí que perdeu o primeiro “F”. Não era mais fedida, mas continuava feia e fraca. Feia com força. Fraca com força.

            Sorte a nossa, azar o dela.

            Mulher é um bicho meio estranho mesmo! O homem, pra melhorar um pouquinho de nada, precisa de uns quinze anos. Mulher não. Pra melhorar um tantão sem fim, a mulher precisa de três coisas: peito, bunda e uma roupa coladinha.

            Depois das férias de janeiro, ela voltou bunduda, peituda e decotada, dentro de uma roupa bem colada. Ninguém entendeu nada, mas também ninguém reclamou.

            E foi aí que perdeu o segundo “F”. Não era mais fedida, nem fraca, mas continuava feia. Feia com força.

            Sorte a nossa, azar o dela.

            Na sua festa de debutante, era a garota mais linda da noite. Bunduda, peituda, decotada (dentro de uma roupa bem colada), cheirosa, limpinha e bonita. Bonita com força. Ninguém entendeu nada, mas também ninguém reclamou.

            E foi aí que perdeu o terceiro “F”. Não era mais fedida, nem fraca, nem feia.

            Sorte a nossa, sorte a dela.

            Hoje em dia nem liga mais para os amigos de infância. Só anda com grã-fino lá da capital, tomando champanhe e fazendo comercial.

            Virou miss, atriz e até imperatriz.

            Azar o nosso, sorte a dela.

 

 

 

 

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