Não é o que parece - Regina Alonso

Não é o que parece - Regina Alonso

Por  Regina Alonso

   A velha manjedoura agora é berço. O menino (re)nascido em dezembro traz o novo. No jornal de 2012, descubro rotundas figuras de Botero. Obesidade explícita? Não é o que parece. É preciso sentir para ler essa passagem da vida de Cristo. A luz roxa, suave, à entrada do Palácio Nacional da Ajuda. O silêncio, as sombras no interior da galeria permitem que o olhar atravesse as telas. Botero fala(sem dizer) da violência na Colômbia, seu país de origem. Beleza na arte-denúncia, que não se desvincula do tempo, do que acontece, do que é.  O homem nas mãos do algoz é um policial fardado, não um soldado romano. A ironia sutil é percebida muito além do relógio de ouro no braço do traidor... e surge Pablo Escobar, o Judas contemporâneo e a alusão aos cartéis da droga. A igreja não sai ilesa.  Qualquer mulher pode enxugar o rosto do Cristo humanizado. O cotidiano explode em Verônica, cabelo em rabo de cavalo e vestido vermelho.

   As cores parecem mais fortes neste tórrido 2013. O mundo não finda apesar dos prognósticos, mas ameaça em súbita ressaca no quebra-mar, em ventania derrubando árvores sobre carros, em passos rápidos de gente que há pouco, derretia inerte aos 40º. Tudo o que os nossos sentidos recolhem do mundo reduzem-se aos corpos e às suas manifestações, isto é, aos fenômenos.

   Olhos abertos e teimamos em não ver. O presente do amigo diretor e dramaturgo é o sinal vermelho. Paro diante da obra de Bispo do Rosário. Estandartes caixas cruzes panos torcidos... Não vejo o Arthur que me espia entre os fios da tessitura, história-ação de sobrevivência, de direito ao exercício da própria loucura. Homem prisioneiro e ao mesmo tempo, livre impetuoso. Botões listas de números canecas, obsessão de Arthur. De Jesus? Repetição em agregar ritmos simétricos continuados, totens e ritmos assimétricos, mais o arcaísmo de uma escrita para além da linguagem, raízes ancestrais de momentos mágicos. A expressão vai além do inconsciente para unir com agulha e linha sua segunda pele, construção visceral:  bordados imagens atitudes e memórias. Buquê de pedras com flor, estandartes podres, lençóis encardidos, restos...

  Sua obravida é a reconstrução de como se vive em uma grande cidade. Relato plástico da trajetória do artista sem conhecimentos eruditos. Filho de mãe tapeceira e restauradora herda a ideia de reparação. Sua costura é medo de separação e abandono. E passa a vida fazendo e desfazendo em busca de uma garantia de sanidade. Em Arthur, o azul vem da cor do uniforme de seu hospital psiquiátrico, tecido-vida desfeito em fios para a aranha tecelã expressar a si mesmo... mistério, beleza e liberdade.

   1938. Aos 29 anos, em noite quente de dezembro, é encaminhado para o Hospital Nacional dos Alienados e diagnosticado: esquizofrenia paranóide. Transferido para a Colônia Juliano Moreira é alojado no pavilhão de pacientes mais agressivos e agitados. De 1940 a 60 alterna momentos. Dribla a burocracia do hospício e trabalha do outro lado (o de fora), aranha multifacetada fiando boa parte de sua obra. Em 64 retorna à Colônia para nunca mais sair. Trabalha incessantemente na mais profunda solidão, navegante das pequenas naus perdidas no inconsciente, na memória.  E dança com seu manto sagrado de muitos fios e estandartes de versos  bordados, repetidos como prece ao infinito.  E comove na sua agonia, cosmogonia para além de seu tempo e  de sua morte em 1989... para além de sua dor.  

   Agora vejo Arthur

 

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