Nada é tão longe... Regina Alonso

Nada é tão longe... Regina Alonso

   Por Regina Alonso

   Estação de trem do Valongo. Chega de São Paulo para o Natal na casa da avó. Segura forte a mão do pai e, ainda menino, vai aos solavancos pelas ruas do Centro até a estação do bondinho, linha funicular. Do colo da mãe, espia pela janela: bananeiras, chalés, a subida íngreme. O vento noroeste sopra pelo caminho ensolarado... ê, poeira!

   Ao desembarque, percorre o espaço com olhos brilhantes de curiosidade. É a primeira vez que vem a Santos. O pai fala do esplendor do Cassino, e quase o arrasta para o salão de espelhos mágicos: mãe gorda fica magra, pai magro fica gordo, ele pequenino espicha feito girafa!...

   Lá fora, no gramado, a mãe estende a toalha sob o arvoredo. Do cestinho de palha, bolo, sanduíches e guaraná “Caçula”. O pai leva-o no cangote até a beirada, bem no topo. Mãe, logo atrás, recomenda cuidado: é tão alto! Súbito, entre os olhares perdidos no mar, que parece não ter fim, o moleque começa a choramingar... – Quero pra mim! Quero! Pai e mãe perguntam a uma só voz: – O que você quer, meu filho? Um barquinho... um deles, e aponta. A mãe explica-lhe com doçura, que um navio é grande, não dá para pegar... – Pega pra mim, pai! Pode sim! – agora chora alto, esperneia. O pai aflito repete: – Filho, não posso!... Navio é grande, muito grande! O menino inconsolável berra: – É mentira! Estou vendo! É do tamanho da minha mão! Gente olhando de tudo que é lado, comentando... A mãe achega-se. Puxa-o ao colo, afagando-lhe os cabelos, enquanto caminha até a Capela do Monte Serrat.

   – Meu barquinho! Meu barquinho! Eu quero!, o pequeno chora sem parar, interrompendo as rezas. A mãe atravessa a nave. Entra por uma portinha de madeira até o veleiro: ao tremular das chamas e ao calor, os gritos do filho cada vez mais altos. Em passos firmes, a senhora ultrapassa a arcada e adentra a saleta. Aflita, tenta comprar um dos barquinhos de madeira ao lado de pernas, troncos, cabeças, pés, tudo de cera. O padre diz que nada está à venda: as peças são de devotos por graças alcançadas. O menino é apenas soluços. O pai chega com algodão doce, branco feito a neve. As lágrimas misturam-se com as lambidas, lágrimas açucaradas, as primeiras que experimentou na vida...

   Fazem a descida a pé. A mãe reza a cada Cena dos Mistérios esculpidos nas paredes brancas incrustadas nas pedras. Ao lado do pai, o pequeno salta os degraus de olho no passaredo... O canto de recolhida ao fim da tarde entretém o menino, esquecido agora da choradeira e do motivo.

  Lembra-se disso hoje, à véspera de mais um Natal, no convés do cargueiro onde trabalha embarcado. Vida no mar. Só travessias. Quando o navio entra pela barra, olha o monte, os chalés feito procissão até a capela, lá no alto, tão longe e pequena.

   Fecha os olhos e faz-se menino outra vez. Estende o braço... Nada é tão longe.

   A Capelinha do Monte Serrat na palma de sua mão.

 

 

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