Náufrago de mim - por Regina Alonso

Náufrago de mim - por Regina Alonso

Náufrago de mim                                                                                    

     Regina Alonso

 

   Outra vez criança, abro o saco de papel e retiro as bolachas de maisena com uma fatia de goiabada. Os colegas comem pães com salame, presunto, queijo e espiam.  Devoro meu lanche com prazer, revendo minha mãe e o cuidado para que o vermelho do recheio não ultrapasse as beiradas. Naquele dia, porém, fui atingida pelo brilho da maçã encarnada nas mãos de outra menina, que se comprazia lustrando-a sem parar, como num ritual, antes de dar a primeira mordida. Petrificada, pus o lanche de volta na mala. A mãe encontrou-o intacto e no dia seguinte, agradou-me com um  pão de creme, redondo e fofo. Dei-o para um colega de olhar guloso; à minha frente a imagem vermelha reluzia e o desejo de experimentá-la era incontrolável.

   Cheguei em casa ardendo em febre! Mãe e tias acudiram com termômetros, remédios caseiros e jantar especial, que não consegui engolir. No dia seguinte, faltei à escola, e no almoço, recusei a torta de camarão, meu prato preferido. A avó afirmou categórica, "a menina está aguada" e pediu à mana mais velha buscar um pouco de comida em sete  casas vizinhas — o prato seria minha cura, mas rejeitei-o, de boca trancada; a febre fazia-me delirar: bola, vermelho, bruxa, palavras desconexas que ninguém entendia. Eis que meu pai, após uma semana, volta do sítio e corre ao  meu quarto,  abraçando-me e do cesto pendurado em seu braço, rolam as maçãs... Ergo o corpo, agarro a primeira que alcanço, lustrando-a com o lençol e devoro casca e polpa num segundo. A febre some, enquanto como outra e mais outra... Os irmãos chegam e entram no banquete.

   Hoje, adulta (velha, para falar a verdade), leio "Ka" e Roberto Galasso faz-me lembrar que mesmo antes de respirar, os homens desejam. Diante dos olhos o desejo não é nada, mas por trás dos olhos acende-se alguma coisa e em mim, criança, acendeu-se a imagem da beleza e do fruto proibido, pois não me pertencia. Isso que estava atrás veio para diante dos olhos, pelos cuidados de minhas mães (sim, porque é mãe quem cuida), suas crendices e o imponderável presente de meu pai-mãe, navegante do largo oceano para nos abrigar nas águas seguras do velho casarão e do afeto. A ação, o gesto é que possibilita descobrir o caminho: quem bebe água repetirá sempre esse mesmo  gesto ao beber água.  Antes, a menina via a fogueira na rua aquecendo a família, os vizinhos,  os mendigos... Hoje, a vasta memória reconhece o mesmo fogo dos antepassados, renovado por parentes ao longo dos anos. O único conhecimento é a aproximação, como se fôssemos tocados por uma rede, sabendo que nunca veremos suas bordas, porque não existem. Na origem mais remota, onde não se separam o existente e o não-existente, temos um resíduo e não um início. Todo um mundo existiu antes para que se formasse aquele pequeno coágulo que navega sobre as ondas como um resto. O início é um naufrágio. Os filhos nascem para resgatar os pais.

   Náufrago de mim, atônita, descubro-me fruto de muitas árvores de Gaya e conto uma história pontual, história de um indivíduo (alguns ou muitos?) de um certo tempo, em uma combinação de circunstâncias que se manifestam ao juntar o todo, voltando para trás e projetando-o para a frente, correndo como a água... Tudo aquilo que está aqui também está em outra parte. Mas o que não está aqui, talvez não esteja em parte alguma.

   O mundo é como a impressão que deixa uma história contada, mas é preciso atravessar todas as histórias. Ouvindo esta história de mães, matrizes, história de origem, talvez todas as outras soem ásperas, como soa a voz do corvo ao ser ouvido pelo cuco.

 

 

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