Noite e Dia - Anchieta Antunes

Noite e Dia - Anchieta Antunes

N  O  I  T  E        E        D  I  A

 

            Fisiologicamente diz-se que o sono noturno repousa mais que o diurno, ou seja, que a noite foi feita para dormir, e o dia para se trabalhar, ou vagabundear, dependendo do caráter de cada um.

            Poeticamente podemos apresentar uma versão completamente diferente desta que é seca, cáustica e sem graça nenhuma. Mona Lisa não estaria sorrindo até hoje seu sorriso enigmático, se não fosse o senso de humor e da veia poética de Da Vinci. Julieta não teria se apaixonado perdidamente pelo seu Romeu, se não dependesse do esforço hercúleo de Shakespeare para desenvolver uma obra que vem atravessando séculos de historia e contemporaneidade.

            Gostaria de saber quantas horas esses homens de letras e artes gastaram durante suas noites procurando o traço certo, a palavra que melhor poderia ser encaixada no texto, e a satisfação de ter-se entregue durante todo um período noturno para dar continuidade ou mesmo terminar sua obra; deslumbrar-se com a imagem viva da criança que ele gerou, criou, amamentou e deu vida em folhas ou telas. A satisfação de uma obra concluída com seus traços artísticos, ou mesmo de genialidade. 

Eu mesmo trabalho melhor durante a noite e sua paz, seu silencio, e sua cumplicidade com minha inspiração notívaga. Não imaginem que estou me comparando com esses homens do passado que atravessaram tempos e eras com suas obras; apenas segui uma linha de pensamento.

Vejo a noite como um espectro de sombras mágicas e repletas de imagens suspensas no ar da imaginação.  Quando a lua aparece no firmamento brincando de espelho, vemos os lagos, e logo pressentimos uma veia liquida de pensamentos aleatórios e abstratos, percorrendo nossa espinha dorsal à procura do texto sedutor, que atraia leitores e amantes da poesia. Inspiração não é vinho inebriante que se pode comprar na bodega da esquina.

Quando a noite apaga o sol e veste seu véu negro de viúva do dia, os espíritos nervosos dos poetas alvoroçados começam a borbulhar como champagne em taça de cristal, como se o milagre da noite tivesse sido inventado apenas para eles, seresteiros irreverentes. Seus pendores artísticos entram em ebulição e de suas mentes espremidas pela urgência da palavra escrita, ou pelo traço genial na tela, surge uma obra de arte para ser lida ou admirada nos museus e bibliotecas.

Nos tempos de antigamente, quando os trovadores eram solicitados pelos jovens apaixonados para dedilharem seus instrumentos, a louvarem suas poesias românticas sob o balcão da janela da virgem deslumbrada, tendo como cumplice uma lua cheia, a harmoniosa voz do seresteiro cantava letras arrebatadoras.

Quando as emoções pululavam nos olhos, nas cordas, e nos corações dos apaixonados irremediáveis, eis que chega a mãe zelosa da pureza de sua filha, e atira por sobre o balcão um urinol cheio de líquido amarelo e malcheiroso, e o romantismo vai por água abaixo, ou melhor, desce a ladeira do desencanto, molha a roupa do trio ou quarteto, e lava todas as esperanças de um episódio que estaria apenas no primeiro capítulo de uma longa historia de uma vida a dois. Cuidados maternos, transferências eternas.

Para aquele jovem que sonhava acordado em conquistar a deusa de seus sonhos,  com a música do poeta, a noite transformou em pesadelo todo seu empenho em despertar na mente da sua amada inocente uma realidade que era só sua: o amor que sempre sentiu (há mais de uma semana) por aquela que viria a ser a mãe de seus filhos.

A noite que é viúva do dia, configura o anseio e dá-lhe forma de sonho dourado, quando a caravela do amor afunda nas procelas de um revolto mar de realidades inesperadas. A noite prima por cobrir com seu véu negro e soturno os sonhos, as nossas realidades, e os desejos mais inesperados que nos acometem.

Os sonhos só são realidades quando estamos dormindo, e deles não devemos esperar nada de concreto, a não ser que saibamos ler nas entrelinhas de nossas ansiedades mais recônditas. Não podemos esquecer que a noite tem curta duração e que os raios da realidade vão aparecer a qualquer momento na beira do horizonte que vai, aos pouquinhos, trazendo a vida de verdade, o pão nosso de cada dia, o trabalho e o salário, o real e o imaginário, o desejo e as vontades. O sol abre as cortinas da vida autêntica, transforma a viúva noturna em esposa prestes a vestir luto novamente.

O cotidiano diurno e noturno repete-se involuntariamente e pela eternidade enquanto vibrarem em nossos corpos os esgares de um coração falível. A noite é linda para cantar louvores à vida que acontece com o raiar do dia.

 

Anchieta Antunes

Gravatá – 27/11/2015.

 

 

 

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