Nos braços do pai - Rô Mierling

Nos braços do pai - Rô Mierling

Nos Braços do Pai

 

Escrever baseando-se em fatos reais é uma prática cada vez mais comum entre os escritores. E eu, como contista, inspiro-me na realidade, principalmente na realidade brasileira.

Eu tenho um filho, e ele é minha âncora, minha vida, meu amor. E se a vida dele fosse ameaçada? E se ele fosse rejeitado por mim, que sou a mãe dele, quem iria amá-lo? Isso aconteceu no interior do Rio Grande do Sul e hoje a mídia explora a triste história de Bernardo. Em sua homenagem deixo um conto de minha autoria.

 

(In Memoriam Bernardo Boldrini (Três Passos – RS)

 

Ele não aguenta mais a indiferença do pai. Ele sempre escutou que pai era amor, figura e fonte de carinho. Carlinhos tem 11 anos e sua mãe já é falecida. Ele mora com sua madrasta e seu pai. Dia a dia, Carlinhos se sente isolado dentro de casa, ignorado, sem atenção. Ele é um excelente aluno, é uma criança saudável e até onde consegue, se dá bem com todos. Mas quando ele chega em casa do colégio espera por seu pai para conversar, debater algum assunto escolar já que sua madrasta o ignora sumariamente.

O pai de Carlinhos é médico e está sempre ocupado, sempre atarefado e quando chega tarde encontra Carlinhos sentado no sofá a sua espera com um sorriso no rosto. Carlinhos só quer um abraço, só quer um minuto de atenção que seja. Mas o pai de Carlinhos se diz cansado, passa direto pelo menino e vai para seu quarto, toma seu banho. No quarto mesmo faz um lanche rápido e fechando a porta se dedica a sua esposa, ignorando que na sala ficou um menino triste, amargurado, isolado e rejeitado pela única pessoa que tem o dever moral de amá-lo e protegê-lo.

O pai de Carlinhos não bate nele, não deixa faltar comida e roupa, paga um bom colégio. Mas Carlinhos é ainda uma criança e espera do pai só um minuto de atenção diária.

Semanas e meses se passam sem que Carlinhos consiga alguém com quem desabafar, um sábado até tenta falar com o pai na sala, afinal seu pai está de folga, mas de novo o pai ignora Carlinhos dando atenção somente à nova esposa. A madrasta mal vê Carlinhos pela casa, mal sabe sequer que ele existe dentro da casa.

“Porque viver assim?” – pensa Carlinhos.

Seus amigos na escola debatem histórias familiares onde até brigas e discussões são descritas como histórias engraçadas. Mas nem isso Carlinhos tem, ele não tem nem mesmo a atenção de seu pai para brigar com ele.

“Porque ele me ignora? Porque não me ama? O que eu fiz?” – pensa Carlinhos cada vez mais triste e introspectivo.

Não existem tias, avós ou madrinhas, só existe Carlinhos, sua madrasta e seu pai. Dia a dia, Carlinhos vai sentindo seu mundo ficar menor e menor, isso já vêm de anos, anos de isolamento e solidão dentro de sua própria casa. Carlinhos é um menino inteligente, lê muito, assiste diversos programas na televisão e sabe que existem os tais Direitos Humanos, Direitos da Criança e do Adolescente, mas como reclamar se ele nunca apanhou? Se ele nunca foi vítima de violência e se nada material falta para ele?

“Eu preferia não ter o pão, mas ter amor.” — pensa Carlinhos.

E assim sua vida passa, dia a dia, mês a mês e ele se sente agredido, humilhado diante da ignorância completa em que vive dentro de sua própria casa. A impressão que Carlinhos sente é que ele vive sozinho. Um dia Carlinhos vê na televisão que isso que ele sente é uma forma de violência. Violência grave denominada abandono afetivo e com uma coragem que não sabe bem de onde saiu, anota um número de telefone que a televisão anuncia para aqueles que se sentem nessa situação de abandono afetivo ou para aqueles que sabem de alguma criança nessa situação. Sua madrasta sai de casa, seu pai ainda não chegou e Carlinhos entra em contato com o tal número.

A ligação de Carlinhos é encaminhada ao Centro de Defesa da Criança e do Adolescente e sua queixa vai para o Ministério Público, que em sua morosidade e burocracia só fala e providencia papéis inúteis, sem nada efetivamente modificar. O juiz da Vara da Infância e da Juventude que recebe a queixa de Carlinhos intima ele e seu pai. Carlinhos se assusta, nunca achou que chegaria tão longe, só queria mesmo chamar a atenção do pai, tentar um diálogo, tentar entender porque no dia a dia de sua existência, ele era renegado a solidão doméstica. O juiz conversa com Carlinhos e seu pai e decide suspender o processo para que pai e filho possam “em casa” tentar resolver “sozinhos” seus problemas, quem sabe “conversando”. Mas o juiz não conhece o pai de Carlinhos, não conhece a madrasta de Carlinhos que diz em alto e bom tom que prefere a “cadeia” a continuar vivendo com Carlinhos. Ninguém conhece a realidade de Carlinhos e nem imaginam o que ele sente ou vivencia.

Semanas se passam e Carlinhos desaparece, ninguém sabe dele na pequena cidade. O corpo de Carlinhos reaparece uma semana depois, nu dentro de um saco. Carlinhos foi morto por pedir amor. Pronto! Problema resolvido! Agora ninguém mais precisa dar atenção, carinho ou amor a Carlinhos. Carlinhos está nos braços de Deus, que tem todo amor do mundo para dar.

 

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