O adeus que ficou para depois - por Eliane Reis

O adeus que ficou para depois - por Eliane Reis

 

O adeus que ficou para depois

 

A rotina, por vezes, alimenta-me a alma (especialmente quando me dá a chance de apreciar os personagens que transitam por ela) ; outras devora-me os pequenos prazeres que a vida traz, diariamente, para o meu jardim. São tão pequenos que já cheguei a pisá-los tão cega eu estava, tão anestesiada  eu estava de compromissos e deveres que descansavam sobre meus ombros.

Acontece que, nem sempre, a vida é complacente, nem sempre essa via de duplo sentido dá-nos a oportunidade de passar pelo mesmo caminho, ainda que pareça o mesmo, acredite: ele não será o mesmo depois da primeira vez. Haverá nele uma folha distraída, uma pedra no lugar errado, um cheiro diferente, um vento mais travesso, uma precipitação de chuva ou um sol irritante. Acredite: ele não será o mesmo! Só temos uma chance de apreciar de olhar para o inédito, porque a efemeridade dita as regras dessa estrada chamada vida.

Então, eu, na minha loucura diária e litúrgica, sempre saio correndo para o trabalho, e tenho me esquecido de olhar o caminho com a urgência que o mesmo solicita. Ando, às avessas, estou sempre na contramão e com a nítida impressão de que logo ali, naquela esquina, ou naquela curva, outra pessoa qualquer, desligada como eu, virá chocar-se contra minha distração.  A vida é tão frágil e, ao mesmo tempo, tão rígida.

Dia desses, desses qualquer, em que o sol é o mesmo de sempre, que o pão tem o mesmo gosto de todo o dia, que os olhos se cruzam, na mesa do café, com a mesma indiferença de todo o dia e que a pressa nos impele com a mesma ira de todo o dia. São dias comuns, mas isso para nossa  consciência inapta  que não consegue compreender a singularidade daquele dia único; outro não será igual, a vida despede-se dia a dia de cada dia; para que ele renasça no dia de amanhã. Bem, dia desses, aconteceu-me algo que não é costumeiro, a rotina – distraiu –se  – e não percebeu a alteração no trajeto singular da vida. Não foi capaz de interromper o presente peculiar que eu estava recebendo: mais uma vez o mesmo caminho.

Era uma segunda-feira, dessas cinzas e azedas que nos dão nos nervos; eu estava atrasada para o trabalho e não poderia perder nem mesmo um segundo. Saí apressada e enquanto tirava o carro da garagem, lembrei-me que havia me esquecido da pasta com os relatórios  da reunião daquela manhã. Ácida, tal qual a segunda, fiquei murmurando que teria que voltar em casa e pegar a maldita pasta. Fazer o quê, não é mesmo?

Para não me atrasar, ainda mais, deixei o carro ligado e pedi ao porteiro que desse uma olhada para mim; entrei correndo no prédio, abri a porta do meu apartamento e peguei a pasta. O elevador não colaborava, por isso desci pela escada mesmo.

Ao chegar ao térreo, parei estática diante do porteiro que estava da mesma forma: o meu carro estava em chamas! Naquele instante, perdi o chão, a voz e a lucidez. Apenas chorei e encostei-me no senhor José (ombro amigo que me olhava e questionava-me mudamente “E agora?”).  Bem, a festa ainda não havia acabado, e, de fato, eu caminhava, mas eu sabia para onde.

Assim, nessa via de duplo sentido, onde os caminhos são sempre inéditos eu tive a chance de reprisar o meu e deixar para depois um adeus precoce.

 

 

 

 

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