O Aprendiz - por Anchieta Antunes

O Aprendiz - por Anchieta Antunes

O     A  P  R  E  N  D  I  Z

 

            Aconteceu mais rápido do que a intenção. Não sei se a burla fechou um de meus olhos para provocar o inevitável, ou se foi o meu Pai Celestial que precisava aplicar-me um corretivo, ensinar-me o bom proceder, educar-me, como todo bom pai faz.

            Faltou um degrau e o baque foi fatal. Para a dor que senti não existe ainda um adjetivo que o descreva com fidelidade; a perna esquerda ficou paralisada sobre a direita, e com as mãos fui tentando e gritando, até que consegui coloca-la em seu lugar de direito; do lado esquerdo de meu corpo.

            A esta altura já estavam ao meu lado o meu filho Yuri, meu neto Yves, e meu genro Marcelo. Três homens fortes e assustados, e por trás deles, também chocadas estavam minha mulher Dea, minha filha Larissa, e minha neta Letícia.

            Faltavam três degraus para eu ter chegado ao fim da escada de minha casa, esta escada que fiz com tanto desvelo, observando e corrigindo cada detalhe, para alcançar a perfeição em uma escada doméstica. Digo com orgulho de construtor que ela ficou perfeita, e, sem duvida, com todos os degraus. Acontece que o destino não presta muita atenção, nem dá o menor valor aos detalhes dos homens, O destino é cego para os cuidados humanos, e determinado quanto aos seus propósitos. Ele simplesmente chega, invade seus domínios, deixa sua marca e parte para o infinito desconhecido. Ele é assim, e não há para quem reclamar, pois ele é servo obediente do Pai Supremo.

            Aos berros ensurdecedores, fui levado para o carro de meu filho, para Caruaru, para o Hospital Santa Efigênia, onde fui atendido por um jovem ortopedista que ordenou fosse colocado uma tala na minha perna que não parava de gritar (e eu com ela). Em seguida Dea foi aconselhada a me levar para o Memorial São José em Recife.

            Quando fui colocado novamente no veículo de Yuri senti uma gota rolando pelo meu rosto nodoso de acabrunhamento e agonia. Não era uma santa lágrima provocada pelo sofrimento da dor, mas sim, uma gota que momentos antes se encontrava diluída sob meus poros, esperando o momento de decisão, que logo chegou e ela, a gota de suor, escorreu pela minha face, solidária e constrangida, apenas para me fazer companhia naquele momento de provação. Com ela sorri agradecendo seu rolar suave e carinhoso. Aquela gotinha de suor até hoje umedece minha turbação agônica.

            Uma vez no hospital, fui levado para a Emergência, e em lá chegando colocaram-me numa cama hospitalar, sedaram-me invadindo minhas veias indefesas, e líquidos multicoloridos misturaram-se ao vermelho carmim de meu sangue. As dores foram substituídas pela paz da inercia muscular, onde nenhum elemento estranho caustica ossos e tendões.

            As barreiras burocráticas foram vencidas pela internet e sua operadora, com aplicativos e autorizações do plano de saúde. Em maca e na horizontal, o elevador levou-me para o 3º andar, quarto nº 36, onde uma exuberante cama com dispositivos elétricos me acolheu como se eu tivesse sido sempre o seu dono. Outras agulhas, introduzidas por enfermeiras simpáticas e alegres, novamente invadiram meus braços, como se lhes pertencessem, e enfiaram uma multidão de filetes de aço, soros e sedativos. As dores... que dores? Foram substituídas por um cansaço infinito e o sono logo fechou meus olhos. Era tarde da noite e só acordei no dia seguinte com um Anjo de Luz à minha cabeceira, chamado Tiago, ou melhor, Dr. Tiago.

            Na noite anterior, antes do sono me acolher em seus braços macios, matutei alguns minutos no propósito do por que do meu acidente doméstico. Sempre soube que nada acontece por acaso, tudo tem uma finalidade, um objetivo, um sentido. Eu ainda não sabia qual o alvo de minha perna fraturada, no dia dos pais, num final de domingo, e pensava:

–Pode demorar um dia ou um século, mas um dia vou descobrir, ou meu Pai vai me dizer.

                                              E a resposta veio através de um sonho, três  dias  depois.

            Para melhor compreensão, cito alguns antecedentes. Sou o caçula de uma prole de 7 filhos, sendo         duas mulheres e cinco homens. As duas mulheres logo se casaram, uma com um homem, a outra com Cristo (Irmã Religiosa). Meu pai vivia no “oco do mundo”, trabalhando e mandando dinheiro para minha mãe tocar a vida. Quando criança nunca me senti protegido, minha mãe não tinha tempo para dedicar a cada filho. Crescemos como “rama de batata”, plantando bananeira na rama balouçante.  

            Na idade adulta tive que romper o mundo para fazer meu espaço; queria constituir família, ter uma esposa, filhos, netos e bisnetos. Não contava com ninguém, apenas comigo mesmo, e nunca olhei pra trás esperando um milagre. Na força bruta construir meu castelo, com direito a gárgulas ferozes para afugentar os intrusos. Venci, cheguei onde queria. Sempre  repeti:

–Nunca vou ficar na mão de quem quer que seja. Nunca...Foi quando meu Pai Eterno disse: _Vou lhe ensinar a ser humilde, cabra! Simplesmente surrupiou um degrau de minha linda escada e eu sucumbi à sua artimanha educativa. Continuo na cama e continuo aprendendo a ser humilde, a olhar o mundo com mais serenidade, e principalmente, estou aprendendo a ficar nas mãos de outros, até mesmo para tomar um banho.

Ao longo do meu caminho colhi e degustei muitos frutos da “Árvore da Vida”, adquirindo sabedoria e eternidade, paciência e conhecimento, e a vontade de continuar sendo o que sempre quis ser: um homem – do bem.

Subi em seus galhos, dancei ao sabor dos ventos sabendo que não cairia, acariciei a brisa que nunca parou de soprar, e apossei-me da inteligência que Deus havia guardado pra mim. Sonhei todos os sonhos que um humano tem o direito de sonhar, e com eles escorreguei nas cascatas de aguas imaculadas, mergulhei no fundo do oceano, abri minhas asas sobre a brancura das nuvens, e brinquei com os anjos, meus guardadores, meus fieis protetores.

Da Árvore da Vida, apanhei a fortaleza de seu tronco e o implantei em meu coração, e quando envelheci roubei, com a permissão de meu Pai, algumas rugas profundas, irredutíveis e sensíveis às fortes emoções. Hoje me sinto completo e bem alimentado.  

            No hospital e na minha casa recebi e continuo recebendo tantas demonstrações de puro amor, de paciência com este velho teimoso e rabugento que me espanto com a capacidade que meus familiares têm para amar o amor sem barganha, mão de uma via só, amor misturado com compaixão, com generosidade. Só me falta ser resignado e agradecido pelo resto de meus dias.

            Quanto à minha mulher Dea, nem sei como começar a descrever seus cuidados comigo. Todas as suas forças foram arregimentadas para total dedicação ao seu velhinho teimoso e impaciente. De madrugada eu a chamo para ela me trazer o “bico de papagaio”, para eu fazer xixi, ou a faço levantar para afastar minha cama, trazer a cadeira especial de ir ao vaso sanitário, dar-me um meio banho e retornar à cama. Para ela não há uma hora especial para me atender. Coitada! Está morta de cansada e nunca reclama, está exausta e só pede um momento para dormir um pouco e descansar seu velho corpo dolorido. Santa, eu sei que ela não, porém é de uma dedicação e de um amor tão grande, que não sei como expressar. A única coisa que sei dizer é: obrigado, meu amor.  Sei que isto não é nada comparado à sua dedicação exclusiva, mas, não sei mais o que dizer. Vou continuar apenas dizendo:­– Obrigado meu amor!!!

            Outra mulher incansável e dedicada é minha filha Larissa. Brincando, eu a chamo de “zumbi” pois sinto quando ela, de madrugada, chega ao lado de minha cama, me olha, me cobre, põe a mão na minha testa e volta sorrateira e silenciosa para não me acordar. Larissa dorme no 1º andar da casa. Durante o dia está sempre entrando no meu quarto para perguntar se preciso de alguma coisa, se estou sentindo dores, se estou bem acomodado na cama, se...se...se...

            Outro sentido de amor pujante, constante e puro. Como eu agradeço? ­–Obrigado, minha filha. Eu acho tão pouco isto, mas, dizer o quê?

            Todas as noites peço a Deus e à Virgem Maria que me ensine a viver com humildade, com amor ao próximo, com magnificência e sem o menor vestígio de arrogância. Gente! É muito difícil ser puro, e não sei se vou conseguir chegar nem perto do que devo ser.

            Meus amigos foram solidários, magníficos, companheiros nesta minha hora amarga e recebi incontáveis orações, e muita cordialidade. A cada dia aprendo uma nova lição de amor e complacência. Não sei como vou chegar ao fim de minha jornada na terra, mas, certamente, muito melhor que quando tinha as pernas inteiras. Deus não castiga, Ele ensina, educa e sofre conosco pela nossa teimosia.

            Rogo aos santos que nenhum de meus familiares e amigos precise ter uma perna quebrada para aprender lições de vida.

 

Anchieta Antunes                                

 ALAOMPE – Gravatá      14/09/2015.

 

 

 

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