O céu é aqui mamãe - por Regina Alonso

O céu é aqui mamãe - por Regina Alonso

“O céu é aqui mamãe”                                                                         Regina Alonso

 

Através do tempo, a Literatura mostra a mulher, sua personalidade, seus papéis... Medéia, peça escrita em 431AC, retrata a mãe e a vingança maior: tirar do homem sua descendência. E pelas próprias mãos.

Em muitas sociedades africanas, a identidade da mulher é determinada pelo fato de ser mãe. Mães poderosas, particularmente em sociedades matriarcais, onde a mulher é reverenciada como doadora de vida, garantia da ligação com os antepassados, portadora da cultura e centro em torno do qual gira a organização social. As crianças são a riqueza da sociedade, garantia da segurança dos pais na velhice e continuadoras do clã familiar: Um filho é como uma piroga: se tens um, um dia far-te-á passar o rio. Um dos frutos mais conhecidos do movimento Negritude, corrente em oposição à hegemonia branca, foi a figura da “Mãe África”, considerando a mulher africana como metáfora da mãe pátria e guardiã idealizada da tradição. Novos escritores examinam as bases antropológicas e culturais da maternidade. Buchi Emecheta, em Alegrias da Maternidade, traz Nnu Ego, vítima permanente da maternidade, primeiro por não ter filhos e depois por ter muitos, acabando os seus dias frustrada e só. Flora Nwapa propõe uma maternidade alternativa à biológica, demonstrando que cuidar e proteger os membros da comunidade não é patrimônio exclusivo das mães. As escritoras ganesas Amma Darko e Ama Ata Aidoo não tentam idealizar o universo feminino: mostram que a maternidade perfeita não existe..

   Na literatura brasileira, Adélia Prado consegue evocar Eva e Maria ao mesmo tempo, como arquétipos do feminino. Meu coração bate desamparado/onde minhas pernas se juntam/É tão bom existir!/(...)No topo do altar ornado/(... aspiro, vertigem de altura e gozo,/a poeira nas rosas(...)/- a santa sobre os abismos– /À voz do padre abrasada/Eu nada objeto,/lírica e poderosa.  Vertigem e gozo juntam-se à poeira das rosas. E as duas, Eva e Maria, desejo e poder, juntas na bela imagem a santa sobre os abismos. Adélia nada objeta. Reflete as inseguranças de muitas mulheres brasileiras na absorção das profundas mudanças dos papéis sexuais  na sociedade ou na intimidade. Adélia reage com a poesia, como reagem as teólogas feministas ou muitas mulheres, sem nem mesmo saber, às imagens de um passado escrito, em parte, pela religião católica, e que ainda exerce sua influência de um modo ou de outro. Eva, porém, habita as profundezas da alma feminina.

   Adélia Prado formou-se em filosofia depois que seus filhos estavam mais crescidos. Estudiosa da teoria junguiana, detém conhecimento sobre a trajetória da mulher dentro do catolicismo, e tece seu posicionamento ao longo da vida, dos acontecimentos e experiências pessoais. Ainda que eu não saiba do que(...)Eu tenho culpa, eu sou culpada.(...)eu já nasço dividida, diabolizada. Adélia entra em contato com o feminino reprimido da psique, e não por caso, repete que a salvação está na poesia, através da qual exerce a construção de si num processo contínuo. Passa, entre tantas evocações determinantes, pela figura da mãe, pela culpa religiosa desta, que vai sendo elaborada através de versos belos e certeiros: Quando minha mãe posou/para este que foi seu único retrato/mal consentiu em ter as têmporas curvas./Contudo, há um desejo de beleza em seu rosto/que uma doutrina dura fez contido./A boca é conspícua,/mas as orelhas se mostram./O vestido é preto e fechado./O temor de Deus circunda seu semblante,/como cadeia. Luminosa. Mas cadeia./Seria um retrato triste/ se não visse em seus olhos um jardim./Não daqui. Mas jardim. O poema traduz a angústia do feminino ferido, mãe e filha. Um desejo de beleza que uma doutrina dura fez contido, remetendo-nos de volta ao paraíso, onde Eva foi condenada e através dela, as mulheres de tantas gerações. A face desta dor contida transformada em rigidez e amargura. E ficamos olhando aquele rosto em sua mudez para sempre fixada.

     No final, Adélia mostra sua delicadeza e força para superar este modelo de mulher: Seria um retrato triste se não visse em seus olhos um jardim. Não daqui. Mas jardim. Uma esperança aparece. Ao cortar Não daqui. Mas jardim, ela busca superar a dor, a solidão, que emana do feminino da mãe. O jardim de Adélia é daqui, construído em palavras redentoras, como se ela dissesse novamente: o céu é aqui mamãe.

 

Texto publicado no Jornal da Orla, 2011, maio

 

Publicado em 15/05/2014

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