O choro e o desejo - por Antonio Carlos Gomes

O choro e o desejo - por Antonio Carlos Gomes

O CHORO E O DESEJO

 

Ouvi de meu quarto

Um choro angustiado:

-Pequeno infante

Chorava sem parar,

Choro constante,

Engasgava e...

Continuava a chorar.

 

Como chora este pequeno!

-Pensei.

Sua mãe irá o alimentar.

Quem sabe pequena cólica

O faz tanto chorar.

Mas o infante não parava

A cada minuto mais chorava

Chorava até engasgar

E, recomeçava,

Recomeçava a chorar.

 

De que chora este pequeno?

Qual a dor de seu chorar?

Na angustia compreendi

Que começou a desejar,

Era o choro inicial

De na vida caminhar.

Pobre abandonado

Cercado por seres gigantes

No mundo desconhecido

Com imagens agressivas

Tudo em volta lhe parece

Conspirar contra a vida.

 

Pobre infante abandonado

No tempo,

No mundo jogado

Vai começar a caminhar.

Nesta vida que ignora

E não saberá andar,

Pois, descalço pisa em brasas,

Não pode nem parar.

[-Quem me dera que o pequeno

Não desatasse a chorar,

Não teria o destempero

De em brasa caminhar.]

 

Quando no choro exigente

Começa o desejar

Pobre infante, não sabe,

Que este ato irá marcar

Uma caminhada vazia

Para jamais se completar.

 

O choro revindica a falta,

Dela nasce o desejo

Pobre do infante que chora

O chorar não marca o caminho

-Mas o põe a caminhar!

É o andar em brasas, [do desejo]

Retirante: que sem parar a vida toda

Não se fixa em nenhum lugar

Pois, a pausa forma ulcera rasa,

Que sempre obriga andar.

 

Caminhante errante do destino

Que começou com o simples chorar

Frente a este desatino

De a esmo, sempre caminhar

Buscando uma ignota falta

Que nunca irá encontrar.

O choro é a armadilha

Que te põe a caminhar;

Andar sobre as brasas da vida

Até morrer...  Sem parar.

 

11/08/12

Tony-poeta

 

Publicado em 20/05/2014

 

 

 

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