O Cortejo e o Contexto - por Mirian M. de Oliveira

O Cortejo e o Contexto  - por Mirian M. de Oliveira

O CORTEJO E O CONTEXTO

 

Na vida, todo o enredo se constrói num contexto: imprescindível, implícito, indispensável.

Nossos olhos obedecem às sensações despertadas em um determinado contexto e envia mensagens ao cérebro: algumas fidedignas, outras distorcidas.

Naquela tarde de verão, tudo conspirava para um desfecho feliz à beira da praia, entretanto alguns elementos novos, inseridos no contexto, mudaram um pouquinho o entardecer à beira-mar.

Tínhamos tudo para um final feliz, sacudindo a areia dos corpos, e acomodando-nos sob a sombra de uma mesa de quiosque.

Um dos atendentes estava “morto de vontade” de fechar logo o estabelecimento, mas havia turistas chatos por toda parte, pedindo porções e cervejas. Com um tablet muito chique, ele fingia anotar os pedidos e frisava que o quiosque estava prestes a fechar.

Diante da “receptividade” do atendente, já estávamos nos levantando, quando outro rapaz (Acredito que filho do dono!), disse-nos que deveríamos aguardar, porque havia tempo para fechar o pedido!

_ Fiquem à vontade!

Tudo bem! Assentamo-nos, novamente e acomodamos: guarda-sol, bolsa de praia, cadeiras, aguardando o atendente com o tablet.

O garoto aproximou-se, novamente, com cara de poucos amigos e perguntou-nos “o que ia”. Olhamo-nos, mutuamente, e realizamos os pedidos que foram, aparentemente, anotados no aparelho de última geração. Após o pedido, aguardamos uma eternidade, enquanto, em outras mesas, o burburinho crescia: “Que demora!” Onde está minha cerveja?”/ “Por que a lentidão?”/ “E a minha água?”/ Cadê minha porção?”

Diante de tantas reclamações e questionamentos, tínhamos já uma desagradável situação instalada. O mau humor é sempre algo, extremamente, contagioso. Já que o mal estar havia se instalado, era inevitável que nossa mesa entrasse no clima, a menos que apelássemos para a meditação transcendental. Minha família assumiu a onda de reclamações e o que era para ser prazeroso, tornou-se torturante.

Por que conto isso?

Porque o mau humor coletivo afetou, gravemente, nossas visões, e deixamos de enxergar as belezas naturais e o sublime contexto.

Que pena! Deixamos de olhar para o mar, pois as reclamações imperaram e nossa visão ficou, totalmente, embaçada.

De repente, a certa distância, avistamos uma fila de pessoas, o que muito nos assustou.

“Que diacho é aquilo? Um enterro? Mas na beira da praia?” “Que mau gosto!”

Minha família voltou-se para a cena:

_Que coisa esquisita!

_Nunca vi isso!

_Será possível?

_Ah, não! Nunca vi coisa igual!

A cena era grotesca. De um lado, dois rapazes seguravam a alça de uma enorme caixa: do outro lado, tínhamos mais dois rapazes com a outra alça. Atrás, várias pessoas acompanhavam a caixa em duas filas distintas.

Uma criança pulava, freneticamente, na frente do objeto:

_Que falta de respeito! – um membro de minha família retrucou.

_É defunto, mesmo? – perguntei. Já estava confusa. A fome e a sede eram tantas!

Dramaticamente, senti-me vivenciando um recorte de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.

Após este delírio coletivo, firmamos nossas retinas e vimos os rapazes apoiarem a caixa sobre a mesa do quiosque e as filas se dissiparam em grande alegria:

_Oba! Vamos ficar aqui?

O menino saltitante e intrometido, que já apareceu em uma de minhas crônicas inclusive, verbalizou decepcionado:

_ Ah! Aqui?! Mas aqui não dá para “assistir o mar”!

Nesse momento, a gargalhada geral foi inevitável e percebemos o quanto estávamos cansados de esperar e o contexto desfavorável, realmente, havia provocado uma distorção do que víamos! Cancelamos o pedido que não havia nem sido feito, pois as cozinheiras estavam palitando os dentes, na parte traseira do quiosque... Perguntei ao atendente com tablet, por que ele portava aquele aparelho e andava de um lado para o outro, digitando sem parar, sem ao menos anotar um pedido. O menino fez uma cara de “pois é” e disse que o Sistema havia caído. Conveniente, não?! Estaria o atendente no facebook, conversando com a namorada? Pouco importa isso agora.

Retiramo-nos do quiosque e compramos comida pronta em uma padaria, rindo sem parar... afinal de contas, quem já assistiu a um cortejo de cerveja? O equívoco “contextual” foi enorme... Cortejo fúnebre?! Lógico, que não! Cortejo celebrativo! Que engrenagem complicada a do cérebro!

Não é demais?! Nem eu acredito!

 

publicado em 07/05/2014

Conheça outros parceiros da rede de divulgação "Divulga Escritor"!

 

       

 

 

Serviços Divulga Escritor:

Divulgar Livros:

 

Editoras parceiras Divulga Escritor