O Cubículo - por Francisco Luis Fontinha

O Cubículo - por Francisco Luis Fontinha

o cubículo

 

As escadas íngremes levavam-me ao cubículo do segundo andar, lá dentro, Matilde esperava-me, bato à porta na confusão da sombra do corredor, arrependo-me no medo de me ter enganado e por momentos deixo de ter a certeza se era o duzentos e dezasseis ou o duzentos e dezassete, a porta abre-se e o sorriso de Matilde abraça-se às frestas do gesso embebido no suor da tarde,

Da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

Crianças brincavam na ruela e mulheres discutiam porque o marido de uma dormia com o marido da outra,

O rio,

Da janela virada para a rua subiam os desejos do Tejo e o cheiro a saudade alicerçava-se no tecto do cubículo,

Feio,

O rio deitado junto à esplanada de Belém e desciam gaivotas das nuvens de Outubro e subiam cansaços dos magalas invisíveis que marchavam numa parada militar invisível,

Matilde abraça-me,

E encosto a cabeça no perfume barato que adormecia no pescoço enfeitado de dálias e gladíolos, da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

O rio,

Feio,

Nas frestas que nos observavam e terminavam no espelho embaciado e que vezes sem conta e em silêncio e repetidamente folheavam junto ao rodapé as estórias de desejo do cubículo,

Um homem e uma mulher que ardem na fogueira da tarde,

Um homem e outro homem que suspiram no odor do corpo emagrecido e encharcado de gotinhas de prazer,

Uma mulher e outra mulher simplesmente deitadas, e uma o lençol da outra, beijavam-se e adormeciam sobre o nevoeiro que acordava no Tejo e no final da tarde,

Da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

O rio,

Feio,

E frio,

Quando me sento na margem do Tejo e ao longe as luzes de Almada, o cigarro cresce na noite e o meu corpo parece um pedacinho de papel misturado no vento, a cama range tal como os suspiros de Matilde se enrolam no néon dos veleiros estacionados na vazante da maré e sinto-lhe os lábios de cereja adormecida no meu pescoço, e frio, o rio,

E desciam,

Os braços dela até às minhas coxas argamassadas de estrelas,

- Amas-me?,

E oiço sussurros no meu ouvido Amava-te muito se não tivesses os problemas que tens e não fosses quem és, e uma língua baloiça na minha face,

- Amava-te muito se não tivesses os problemas que tens e não fosses quem és,

E enquanto extingo o meu olhar nas luzes de Almada pergunto-me Quem eu sou?,

- Quem eu sou?,

O rio que corre,

Frio,

Feio…

E da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

Corpos ensanguentados no desejo do sémen inanimado,

- Amas-me?,

Ensanguentados no desejo de sémen que escorria das nuvens de algodão doce e desciam, e subiam,

E da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

Os gritinhos de prazer dos lençóis do cubículo,

- Amava-te muito se não tivesses os problemas que tens e não fosses quem és,

E o cigarro abraçado à solidão da tosse de um petroleiro que descia,

E subia,

A janela do cubículo,

- Amas-me?,

E com os cotovelos poisados na janela do Tejo esquecia-me Quem eu sou,

- Se não fosses quem és e não tivesses os problemas que tens,

Amava-te muito, e eu perguntava-me,

- Quem eu sou?,

E a Matilde explicava-me que nunca poderia amar-me em liberdade, porque os amigos e as amigas, porque a carreira profissional, porque o Tejo,

E da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

E desciam gaivotas das nuvens de Outubro e subiam cansaços dos magalas invisíveis que marchavam numa parada militar invisível,

Matilde abraça-me, e eu pergunto-me, e eu pergunto-lhe,

- Quem sou eu?

Porque o Tejo abraçava-se às estrelas de néon e o magala invisível consumia cigarros invisíveis, e um paquete passeava-se e empoleirado na grade um menino de calções que regressava do ultramar, o menino sorria e dizia adeus ao magala, o magala,

- Amas-me?,

- Se não fosses quem és e não tivesses os problemas que tens,

Amava-te muito, e eu perguntava-me,

- Quem eu sou?,

O menino esquecido dentro dos calções e que acenava com a mão ao magala sentado junto à margem do rio, fumava cigarros invisíveis e parecia-me que dormia, não me recordo, foi há tanto tempo…,

- Que a Matilde saiu de casa e levou os filhos, ela revoltada com a minha ausência, as árvores do quintal começaram a escurecer e quando demos conta estavam tombadas no chão, choravam, os pássaros sob o silêncio das mãos,

O velho Armindo às voltas com a roldana da vida,

E a vida sumia-se nas frestas do segundo andar, o Tejo subia,

E desciam,

Os pássaros sob o silêncio das mãos quando lhas poisava no rosto e ela dizia-me,

- Se não fosses quem és e não tivesses os problemas que tens,

Amava-te muito, e eu perguntava-me,

Deixei de me perguntar quem sou,

E a vida sumia-se nas frestas do segundo andar, o Tejo subia,

E desciam,

As mangueiras que beijavam as sombras do quintal de Luanda, e derreado, o velho Armindo tropeçava no triciclo e a vida deixou de andar,

A roldana enferrujada e o menino que baloiçava nas grades do paquete pergunta ao pai Pai o que é neve? Neve? Porquê filho?

- A mãe diz que em Trás-os-Montes neva e é muito frio…, É verdade Pai?,

O meu pai que não É tudo mentira meu filho, tudo mentira,

E percebi que nunca tinha vivido em Luanda e que nunca tinha poisado a minha mão sobre o mar, não vim de paquete Paquete meu filho? Se nós nunca saímos desta terra, é tudo mentira, tudo,

Nem sei quem é a Matilde desabafava o magala quando deixou de acenar ao menino empoleirado nas grades do paquete, E da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

Corpos ensanguentados no desejo do sémen,

- Amas-me?,

Ensanguentados no desejo de sémen que escorria das nuvens de algodão doce e desciam, e subiam,

E da janela virada para a rua subiam,

E desciam,

Os gritinhos de prazer dos lençóis do cubículo,

- Amava-te muito se não tivesses os problemas que tens e não fosses quem és,

E o cigarro abraçado à solidão da tosse de um petroleiro que descia,

Dos olhos do menino.

 

 

publicado em 13/03/2014

 

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