O estadista o mendigo e o poeta - por Marcelo Garbine

O estadista o mendigo e o poeta - por Marcelo Garbine

O estadista, o mendigo e o poeta

Marcelo Garbine

 

Ainda quando eu estou atrasado para o trabalho, com muita pressa, não abro mão do meu ritual matutino diário de tomar café, na padaria. Considero primordial ver gente, mesmo tendo as minhas questões a solucionar e as minhas peculiaridades.


Enquanto levo a xícara à boca, olho para o infinito. Sim, infinito. Materialmente, essa suposta amplidão pode estar bloqueada por uma parede, com cartazes repletos de mulheres esbeltas e cervejas, mas a minha psique espectral transpassa-a. Sou livre. E mesmo envolto em minhas quimeras, a visão periférica encarrega-se de capturar as demais insignes e seus respectivos desígnios. Não há conclusão a chegar-se se não houver comparações. A selva humana remete a um orbe colossal de possibilidades que abrem leques de opções. É um dos preços do livre arbítrio: o padecimento da hesitação.

Segundo a física quântica, ao elegermos uma antelação, criamos um universo, pois essa escolha afeta a vida de todos os seres, sem excetuar nenhum, e, concomitantemente, mata um número infinito de outros universos, que são as opções subtraídas da concepção. É a chamada “teoria do caos”, a qual explica que “o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez, provocar um tufão do outro lado do mundo”.

Tantas possibilidades acarretam em um tempo que se arrasta com um maior fardo: “e se eu tivesse feito diferente? Quem seriam os meus filhos que não nasceram? Quem seria eu? Como seria o mundo se eu houvesse me entregado a inclinações distintas?”. E a aflição é imensurável porque pesa a responsabilidade da escolha. Nesse ponto, a liberdade não é tão maravilhosa assim. Sente-se falta de que alguém nos mande executar algo. E para aliviar, papagaiamos frases prontas do tipo: “não foi porque não era para ser”, “Deus quis assim”, “o destino já está escrito”, “é melhor arrependermo-nos do que fizemos do que daquilo que não fizemos”, etc.

Somente os néscios vivem respaldados por sentenças cabais que se contradizem: se “o silêncio vale ouro e a palavra vale prata”, em certas situações ganhamos muito por ficarmos calados, então é insustentável dizer que o arrependimento é mais brando, necessariamente, quando consequência de um ato consumado. A pausa também faz parte da música. “Somos feitos de silêncio e som”.

“Não foi porque não era para ser”? Que covardia é essa? Não foi porque eu fiz outra opção ou porque eu não fiz o que, agora, eu acho que deveria ter feito. Faz-se mister hombridade para admitir. Só os fracos vêem utilidade em mentir para si mesmo. E os mais fracos ainda optam por prosseguir num rumo, no qual, lá no fundo de suas almas, já não crêem mais, por medo de assumir o prejuízo do tempo escorrido em vão. O desperdício do que lhes resta é o preço que se paga por não querer absorver-se o peso da corpulência de decisões equivocadas.

“O destino já está escrito”? Que vida chata é essa? Somos fitas cassetes de uma velha locadora?

Neste ponto da reflexão, o meu café começa a perder calor em demasia e eu conjecturo que será imprescindível esquadrinhar um atestado médico. Agonias mundanas mesclam-se com arquejos espirituais.

Acostumados que estamos a crer que as decisões vêm de um plano maior, sejam elas extra-mundanas ou provenientes de detentores de poderes tão distantes da nossa realidade que, por vezes, temos dificuldade de observá-los como sendo tão humanos como nós, relutamos a aceitar ou mesmo refletir sobre o assunto com a ênfase necessária. O fato é que criamos um universo com pequenas decisões tomadas, sejam elas do interesse de um numeroso grupo ou puramente egoístas.

Esse caminho tão aparentemente individual que acabei de escolher, o de refletir, na padaria, observando cartazes vulgares, que eu insisto em chamar de infinito, afetou a vida imediata de todos os que estavam presentes no hospital, para o qual rumei, e no meu ambiente de trabalho, no qual deveria estar. A vida deles, por seu turno, afetará a de todos os seus contatos e o processo repetir-se-á, infinitamente, dando a volta ao mundo, em frações de um segundo. Velocidade esta que é turbinada pela interligação de um mundo que acontece – tecnologicamente – em tempo real. Universos dentro de outros universos são criados a torto e a direito, num processo que nos assusta. Aí surge a necessidade psicológica de auto-excluir-se dessa responsabilidade de governantes que somos do universo. Sim, do universo. Levando-se em consideração que sinais derivados de aparatos científicos são dissipados em direção ao cosmo – em forma de ondas de rádio, por exemplo – e que os humanos que comandam – direta ou indiretamente – esses aparatos são também afetados por nossas decisões, o citado bater de asas da borboleta ou a escolha entre chá ou café, no balcão da humilde padoca, afetará a diversidade de ondas espargidas pelo espaço sideral, bem como as informações nelas contidas. É tenebroso.

Um poeta escreveu uma poesia que será lida daqui a duzentos anos. Um estadista de um importante país tomará decisões, em 1214, após lê-la e emocionar-se com a poesia escrita em 2014 e influenciar-se-á por ela. Bilhões de pessoas que nem nasceram serão influenciadas pela decisão do estadista. Quem mais influenciou? O estadista ou o poeta? Ou será o mendigo que habitava a esquina da casa do poeta e inspirou-o? Ou será a moça que despedaçou o coração do homem que perdeu a vontade de lutar pelo que lhe era de direito e foi viver nas ruas como esmolador? Ou será o bisavô da moça que decidiu, aos quarenta e cinco do segundo tempo, que não morreria sem deixar sua semente nesse planeta?

Todos eles criaram e mataram universos vorazmente e com o mesmo poder. Esse é o maior milagre do mundo que parcamente apelidamos de livre arbítrio.

O próximo segundo que o relógio encarregar-se-á de traduzir numa linguagem de fácil assimilação aos meros mortais, transformando o hermético tempo numa análoga marcação digital, é exclusivamente seu. Hirto, também está você decidindo, matando e criando. O silêncio também faz parte da música. A opção pela desistência permanente ou sono eterno é o mesmo que inércia permanente, o que não o isenta.

Que infinitudes de universos você criará? Que outras imensidões da mesma envergadura serão postas em óbito? O tique-taque impiedoso do relógio e o soporífero balanço do pêndulo do velho cuco exigem uma resposta sua.

Marcelo Garbine

 

 

 

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