O Factotum - O barbeiro da Vila - Causo 2 - por Mário de Méroe

O Factotum - O barbeiro da Vila - Causo 2 - por Mário de Méroe

FACTOTUM – O Barbeiro da Vila[1]

Coletânea de “causos” comentados no salão de um singular barbeiro, em minha Vila.

 

Causo 2

A complicada troca de empadinhas.

Nosso herói capilar possui, entre centenas de clientes, o dono de uma lanchonete, um cavalheiro lusitano, comunicativo e alegre, muito estimado na Vila. O ilustre cliente chama-se Afonso Henriques de Viana, e é conhecido pela exigência que faz sobre a grafia correta de seu nome. Diz ele:

─ A lei portuguesa só admite nomes previstos na lista oficial de nomes próprios ou que sejam adaptados graficamente à língua portuguesa. O meu conjunto onomástico normal seria Afonso Henrique, mas meus pais fizeram questão de prestigiar o nome de um grande herói português, o rei Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, no século XII.  Eu uso com orgulho seu nome e exijo que escrevam e digam “Henriques” e não apenas “Henrique”.

Talvez por sua postura amável, o cavalheiro sempre sofre tentativas de golpe. Em sua visita ao salão, após um cortês cumprimento a Fac, contou mais uma:

─ Bom dia, amigo!

─ Bom dia, “seu” Pedro Henriques, respondeu o barbeiro, pronunciando corretamente “s” final do segundo nome. Parece-me que hoje o senhor está um tanto zangado!

─ Sim, estou. Acho que fui vítima do estratagema de um delinquente.

─?!?

Ante a surpresa de Fac diante da inusitada expressão, o cliente, pacientemente explicou: Aplicaram-me aquilo que vocês chamam de “golpe”.

─ Ah, sim. Como foi?

─ Ontem atendi um rapazinho, no balcão de minha lanchonete. Ele estava com uniforme do colégio X, e usava uma mochila de jeans. O rapaz perguntou-me o que continham as empadinhas, e eu informei:

─ Frango ou palmito, por preço igual. Qual você prefere?

─ Quero uma de palmito, por favor.

─ Acondicionei a empadinha de palmito em um prato pequeno, forrado com guardanapo e a coloquei no balcão, à sua frente. Mas, ao invés de pegá-la, ele olhou um pouco para a empadinha e disse-me:

─Queira me desculpar, lembrei-me agora que não posso comer nada que contenha palmito. O senhor pode trocar por uma de frango?

─Sem problema, respondi, e trouxe-lhe uma empadinha de frango. Ele comeu devagar, limpou os lábios com um guardanapo, sorriu e disse-me:

─ Muito obrigado pela atenção. Até logo! e foi saindo.

─ Oh menino, disse eu, você esqueceu-se de pagar a conta!

─ Como assim? respondeu-me aparentando surpresa.

─ Você precisa pagar a empadinha de frango que comeu.

─ Mas eu a troquei pela de palmito. São do mesmo preço, não é?

─Sim, claro. Mas a de palmito você não pagou, ora!

─ Perdoe-me, disse o rapaz sorrindo educadamente, mas eu a devolvi sem tocá-la, não é verdade? Assim, não devo pagá-la, pois não a consumi. O senhor esqueceu-se de que fizemos uma troca?

Fui tomado de surpresa com a lógica aplicada pelo rapaz, que retirou-se, dizendo: O senhor deveria tomar Ginseng, para ajudar a memória. Adeus!

O cliente calou-se. Ainda estava muito aborrecido com o fato.

Fac terminou o corte de cabelo do cliente e, calmamente, tentou amenizar sua irritação dizendo:

─ O senhor aceita um trago desta bebida maravilhosa, envelhecida por cinco anos? Foi trazida por um amigo, de um alambique em Santa Rosa de Viterbo...

(segue “causo” 3)



[1] Coletânea de “causos” humorísticos, em elaboração.

 

Publicado em 02/06/2014

 

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