O Fogo - por Lígia Bertrão

O Fogo - por Lígia Bertrão

O Fogo

 

       Vejo-o crepitante, quente e vermelho mostrando a sua presença naquele lugar. A noite é silenciosa e fria. Há um quê de mistério no ar. A boca gulosa abre-se deixando a lenha entrar para fazer-se em brasas. Mostra-se poderoso. Quando está quase a morrer lá vem uma nova lenha e o reacende. É como se a vida estivesse se reiniciando, se reinventando. Há dentro de mim uma gana de vida e olhando o fogo tenho certeza das minhas incertezas guardadas, mas que encontro forças para torná-las verdadeiras. As coisas são indefiníveis na sua essência, então, atrevidamente remexo nos esconderijos de mim. Vejo-me através daquele fogo que queima ardente, o frio que me encolhe. Tenho sentimentos recolhidos que me sufocam a garganta. Sou meio fogo a arder em chamas indecifráveis. Se fechar os olhos enxergo-me na cadência do fogo.

       Não há divisórias entre o espaço da natureza e o espaço que me habita. O tempo passa em resignada intermitência. As horas se vão diante daquele fogão. Há no ar uma fragrância de carinho e há uma mão que segura a minha, mostrando que não estou só. Horas lentas me falam do amanhã sem atropelos e um chão firme onde marcarei com passos mais seguros. Neste silencio de poucas vozes, mas com ecos, o universo se dilui, não preciso mais do que aquele instante para encontrar a felicidade.

      É preciso reinventar a vida dia após dia, ainda que seja um processo, por vezes, até doloroso. As emoções dependem de ordem interior, e assim, eu me refaço no bulício das horas e ao som da crepitação do fogo à minha frente. Dentro de mim há um achado valoroso que ninguém me pode tomar. Nesse momento extraio de mim o que melhor preservo e olho-me através da janela do tempo. O mistério da abstração me envolve. Olho o meu amor sem precisar palavra alguma. Nessa hora o barulho das palavras quebraria a magia dos corações em bulícios silenciosos. Guardamos as emoções em suspiros. As mãos unidas nos dão a graça da eternidade.

       Descubro que o tempo em que vivo é único e último. Mergulho na ardência do fogo e mergulho em mim. Procuro-me e me acho nos vãos deixados pelo tempo. A hora pede repouso. Permaneço quieta. O meu amado faz um movimento cheio de ternura e os nossos olhos encontram-se. Há cheiro de amor no ar. Absolvo o que me rodeia com os lábios trêmulos de emoção. Há instantes que deveriam ser eternizados. Silêncios selam neste momento todos os mistérios. Em mim a vida sopra gritante. Entre nós a cumplicidade não precisa falar.

       O vento uiva ao derredor fazendo os pinheiros requebrarem batendo as folhas com o frio da noite. As estrelas esconderam-se tremendo e as nuvens caem embranquecendo os cabelos das montanhas. Vejo a cena diante de mim. Quase todos os dias as nuvens descem, branquinhas, e enfeitam o tempo. Passeiam na terra o quanto podem e depois dão lugar ao sol que cospe sua luz sobre o lugar. Lá fora chove e a cantiga da água caindo mistura-se ao crepitar do fogo abraçando a noite que envolve a nós. É tarde... Olhamo-nos e de mãos dadas vamos dormir. Logo viveremos um novo dia. O amor vai conosco. O vento rumoreja fazendo sintonia ao instante supremo. Nós nos perderemos e nos encontraremos a seguir, como todos os apaixonados. Somos noivos nesse instante.

       Logo o fogo também adormecerá... E nós somos um só.

 

 

 

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