O instante certo - por Regina Alonso

O instante certo - por Regina Alonso

O instante certo     

                                     Regina Alonso

 

   Agosto finda. Passos na calçada silenciam. Para onde foram os caminhantes? Aguço o olhar. Diante do jardim os eternos andarilhos paralisados: o amarelo esparrama-se intenso, sem esperar a próxima estação.  Antecipa-se a primavera na exuberância dos lírios. Parece que o tempo urge, inesperado e breve, trazendo-me Borges e seu tigre forte, inocente, ensangüentado e novo, pela selva... deixando seu rastro nas margens de um rio cujo nome ignora. (Seu mundo não tem nomes nem passado.) Nem há futuro, só o instante certo.

   Neste instante, onde quer que a vista alcance, o amarelo dos girassóis de Van Gogh emprestam sua cor aos lírios de Santos. Vontade de colhê-los às braçadas, levar a beleza da cor, da forma para dentro de casa, eternizando o tempo que se escoa... Resistimos. E na caminhada ao entardecer, o sopro do vento e o balanço dos lírios ao pôr-do-sol que incendeia o mar. Multiplica-se o amarelo. Multiplicam-se ao caminhantes nesta cidade atlântica; pessoas que se movem no aqui e agora, no instante da primavera anunciada.  Para que esperar enclausurado entre as paredes do calendário? Somos do mar, salitre em nosso sangue, suor-maresia...

   Quem sabe, essa a razão deste inverno ensolarado, dias cheios de luz e calor e á noite, o frescor que nos faz retomar o caminho, enquanto os lírios dormem. Só o marulhar e a espuma branca das ondas carregando na negritude das águas, a lua em travessia... Ao longe, a onda faz-se vermelha na escultura de Othke, concretizando o mar, o movimento e a cidade atlântica no vaivém de tantas marés.

   Ao clarão da manhã despertam os lírios e os homens.

   A primavera faz-se no instante “amarelo”, tempo certo para florescer a nova estação à luz do sol, nesta Santos, quase invisível, sob a névoa... Cidade ibero-americana que nos evoca ainda mais um outro poeta argentino, Leopoldo Lugones, quando caminhamos nas claras noites por suas calçadas... cidade cujos perfis transparecem como as marcas-d’água num papel.

   Secas, as marcas carregam ainda o amarelo da nova estação, o calor das cidades atlânticas, cujo tempo é inesperado como o próprio mar.

 

 

 

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