O Jeguedoor - por Rubens Silva

O Jeguedoor - por Rubens Silva

O Jeguedoor

 

O dia foi tedioso. O tempo não passava de jeito nenhum. Ora um sentava em frente ao ventilador. Outra hora trocava de lugar com seu colega conversando bobagens, brincando, rindo e contando piadas. Assim passavam o dia inteiro. Trem para manobrar aparecia lá de vez em quando. Muitas vezes passava direto, pois não tinha carga e nem vagões para serem retirados da composição.

Assim era o dia a dia dos manobreiros Pedrão e Conceição quando eram funcionários da Viação Férrea na cidade de Santiago-RS. Os dois cansados da ociosidade proporcionada pela falta do que fazer resolveram preparar uma sacanagem com um pobre Jegue. Isso depois de terem aprontado outras tantas para pedestres, cães e gatos que tinham a infeliz idéia de passar pela Estação.

Era época de eleição para prefeito e vereador. “Ceição” como era conhecido contava com um parente seu candidato a vereador. Por isso carregava consigo diversos panfletos, santinhos e cartazes de campanha para distribuir para os eleitores e afixá-los nos postes, nos muros, onde fosse permitido. Na estação não podiam mais colar nada, já tinham afixado em todos os postes, tábuas, vagões e árvores por todo o recinto da gare.

O que fazer? Alguma coisa teriam que aprontar para não terminar o dia em vão. De repente ouviram o lamentoso relincho de um jegue.

- Hooooiiiiihhhhhoooo! Hoooooiiiiihhhhoooooooo! Hoooooiiiiihhhhoooooooo!

Olharam um para o outro como se adivinhasem seus próprios pensamentos. Observaram o balde cheio de cola e foram em direção ao probre animal. Lambusaram o bixo da orelha ao calcanhar. Colaram panfletos de propaganda do tal candidato a vereador sem deixar nenhum espaço. Pegaram um pedaço de arame fino galvanizado e penduraram na sua cola uma lata de querosene com algumas pedras. Deram-lhe uma pancada na anca e soltaram o “Jeguedoor” pelas ruas da cidade. Imaginem. A lata fazia um barulho ensurdecedor. Batia nas patas traseiras do Burro e ele pulava, peidava e corria rua abaixo e rua a cima. Uma loucura.

Foi a maior polêmica. As rádios e os jornais da época noticiaram a ocorrência. O Burro foi estampado em várias capas de jornais. Fizeram apelos para que alguém denunciasse quem havia tido a coragem de maltratar o animal daquela maneira. Para surpresa do povo, não demorou muito outros candidatos copiaram a idéia e apareceram vários animais na cidade exibindo panfletos de outros candidatos a vereador e a prefeito.

Alguns achavam engraçado, outros sentiram pena do animal todo lambusado de goma arábica. A idéia causou impacto emocional. Ninguém deixou de ver ou comentar o acontecimento. Alguns criticaram o candidato a vereador, outros aprovaram a idéia e acabaram copiando. O fato causou indignação e revolta em algumas entidades de proteção aos animais contribuindo para a ampliação da polêmica e consequentemente a difusão do nome do candidato.

O candidato passou a ser conhecido e pode se defender dizendo que não tinha nada a ver com aquilo, dando entrevistas nas rádios e defendendo-se. Ao final da eleição conseguiu o número de votos suficientes para se eleger.

 

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