O meu amigo robô - por Marcelo Garbine

O meu amigo robô - por Marcelo Garbine

O meu amigo robô

Marcelo Garbine

 

É fato que o brilho do sol motiva-nos a voar em busca de nossos sonhos. Pesquisas comprovam que até a bolsa de valores sobe nos dias mais bonitos. Porém, por mais tocante que seja o resplandecer deste astro luminoso tão lindo, há amanheceres que nem o seu banho de energia empolga-nos a ponto de mover-nos a crer que o mundo é nosso.

Nestas auroras, dou graças a Deus quando chove. Considero adequado que o fulgor permaneça restrito aos momentos em que o meu coração esteja disposto a fazer a sonoplastia pra acompanhar o jogo de luzes. Escolho esquecer um pouco as minha metas existenciais e ponho-me à procura de lazeres que nada me acrescentam, somente me entretém, até que a aflição vá embora...

Só que, naquela sexta-feira chuvosa, peguei pesado: fui distrair-me matriculando-me num curso intensivo e livre de mecânica. Eita, p...!

Não aprendi nada, mas o meu grupo montou um kart. Achei que, ao menos, na minha vez de pilotar, eu me divertiria, entretanto eu – que sou vítima de xingamentos machistas sempre que dirijo carros com vidros fumês – não honrei as minhas calças e mostrei pros meus companheiros um defeito no nosso kart, precisamente na pecinha que fica entre o volante e o assento... derrapei numa poça de água e o choque com o outro automotor foi forte...

Saí tonto do veículo. Uma excelente oportunidade pra não constatar conscientemente o vexame no qual me metera. Meio que chapado, observei a fusão entre os dois carros avariados... ou seria, nessa altura, um apenas?

De certo modo, o que possuímos em nossas vidas é exatamente isso: o que edificamos e o que acontece além do nosso controle. A mescla destes dois elementos dá-nos o que temos no presente instante. E a chuva? A chuva são as condições adversas: o ladrão que levou o meu celular no dia em que eu receberia a resposta da entrevista de emprego ou o galho de árvore que caiu justo na hora em que eu passei.

É... Esta analogia platônica, eventualmente, teria ajudado, se a aula fosse de filosofia, mas, pelo olhar dos meus colegas de equipe, acho que eles não estavam muito interessados na minha fantasia quimérica...

Será que eu mereço tanta revolta? Eu não sou mau. A única maldade que faço, em situações casuais, é não segurar a porta do elevador quando vejo um sujeito apressado correndo pra entrar. Sei que é egoísmo não querer perder tempo e desejar estar sozinho pra que o cubículo ascendente fique mais confortável, mas isto não chega a ser um traço psicótico.

Enfim, já entardecia e eu achava engraçado o que ocorrera. Por que eu fui participar de um workshop de mecânica se este negócio não tem nada a ver comigo? Será que não? Bem... eu já fui criança um dia e, como todo menino, quis ter um amigo robô. Talvez, involuntariamente, continue almejando construir um. E esta vontade pueril, provavelmente, foi acentuada naquela manhã cinzenta...

E, ao anoitecer, a lua era maravilhosa, conquanto o prazer de contemplar a sua beleza não fosse maior que o sofrimento que um dia confuso aflorou. Confesso que os meus anticorpos psicológicos foram preguiçosos pra combatê-la, mas tudo bem, afinal todas as angústias doem à noite mesmo. Julguei prudente respeitar este ciclo, já que eu sabia que o sol nasceria novamente no dia seguinte e eu teria mais uma chance de ir atrás do que creio que me fará feliz.

Nos dias de maturidade, a admiração pela tecnologia perdurou, não por ela poder proporcionar-me um companheirinho eletrônico, mas por ser útil pra auxiliar no desenvolvimento do ser humano. Muita gente crê que, um belo dia, o ser humano acordará bonzinho e outros acham que não. Acredito não ser nem uma coisa e nem outra. A tecnologia faz o homem evoluir.

Com todos tendo uma câmera de vídeo no bolso, por exemplo, os indivíduos socializados acabam por esforçarem-se mais pra não cometer erros em público, pois o menor deslize poderá ser eternamente registrado numa plataforma de vídeos da internet. E o esforço pra ser cada vez melhor transforma-se em praxe. Sendo nós seres de hábitos que nos acostumamos fácil com tudo, logo criamos comportamentos bons. É uma maneira interessante de ter fé no ser humano sem apelar pra fórmulas mágicas. Olha o amigo robô aí, aparecendo reencarnado num iPhone.

Se as alvoradas em que eu aspirava encontrar o meu cyber amigo estavam perdidas em algum lugar do espaço-tempo que não mais voltaria, agora, restavam os sonhos maduros. Ter, em circunstância sincrônica, os pés no chão e a cabeça nas nuvens é possível quando se é grande...

Ser tomado por um sentimento de fragilidade infantil é um jeito de sentir-se acolhido, nem que seja pelo sorriso bobo no próprio rosto ao recordarmos de como víamos o mundo durante a inocência da tenra idade. Naquela fase, as paisagens tinham uma coloração diferente e as tintas que as pintaram parece que foram retiradas do mercado. Mas ainda havia a alternativa de misturar as pigmentações que tenho, formando novas cores e, quiçá, aproximar-se daquela tonalidade clariiiiinha de tão sutil que era e, simultaneamente, colorida e cintilante, alegres como os olhos da criança que brinca.

Hoje, estou leve. E segurarei a porta do elevador, caso eu vir alguém correndo pra alcançá-lo, mesmo se a pessoa não for o Spectreman.

 

Marcelo Garbine

 

 

 

 

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