O padre que viu Deus partir - por Marcelo Garbine

O padre que viu Deus partir - por Marcelo Garbine

O padre que viu Deus partir

 

Somente a última gaveta da dispensa ainda não fora averiguada. Nela, nada mais havia do que um saco de papéis. Padre Artelírio, então, iniciou a sua derradeira empreitada da  exploração. Qual não foi a sua surpresa com o achado... Sui generis dobrado entre várias folhas sulfite, ímpar manuscrito no meio de numerosos datilografados, lá estava o bilhete que dera origem ao desfecho de sua vida!

A dona daquela caligrafia era uma moça que o padre nunca vira. Há exatos cinquenta e oito anos, recebera a folha de caderno. Tão precisas eram as palavras que a ele dúvidas não restaram. Óbvio era-lhe tratar-se de uma ordem divina que o direcionava ao caminho do seminário. "Coincidências não existem" - pensava ele - "muito menos quando a precisão milimétrica é característica em cada fragmento".

Entretanto os seus dias celibatários findavam e o homem santo necessitava lançar mão de uma retrospectiva, escrever a sua biografia, para que tudo fizesse sentido, como desejam todos os mortais dotados de consciência. E a pesquisa sempre é pré-requisito de quaisquer romances, muito mais quando o objeto relatado é uma vivência com tamanha devoção, fruto de conclusões espiritualistas cabais que culminaram na mais cristalina certeza da existência de Deus e de que a razão da sua estadia neste mundo era fazer a vontade deste Criador. À vista disto, preparou um rol de presbíteros os quais entrevistaria. Todos eles da mesma faixa etária, companheiros de seminário que optaram pelo destino eclesiástico na mesma época. O propósito era corroborar a indubitabilidade da sua escolha pela batina.

Tendo com o primeiro sacerdote, por horas recordaram-se das suas juventudes simultaneamente vividas. O empenho que exclusivamente os portadores da mais autêntica convicção são capazes de sustentar para tornar a libido menos poderosa que a fé no auge da puberdade avassaladora foi o tópico do assunto mais repisado pelos dois clérigos, que não logravam o escamoteio paradoxal do orgulho pela ausência de vaidade no estágio em que os hormônios ditam as regras.

Para ilustrar a sua teoria da evidência absoluta, o padre escritor colocou o cálice vazio de vinho em cima do armário do escritório de seu interlocutor, amassou um pequeno pedaço de uma folha do bloco de notas que estava sobre a mesa, posicionou-se de costas a uma distância de cerca de quinze metros do alvo e arremessou a bolinha que, como era de esperar-se, passou distante do copo. O pároco gabou-se de seu erro premeditado, proferindo frase pontualmente ascética.

– Quem, se não Deus, seria hábil para atingir a mira com esmero? Como poderia o universo ter sincronia tão exata? E a sublimidade do corpo humano, que dissimulada ideia evolutiva poderia suplantar a perfeita criação? Cada célula, cada átomo, impecavelmente alocados. É claro que excepcional plenitude só pode ser oriunda da inteligência do Arquiteto Supremo.

O outro padre concordou tacitamente com os olhos. O que fez Artelírio ganhar confiança e passar a portar-se com menos formalidade. Mais relaxado, largou a busca por asserções que apoiavam a valia de sua vida sagrada e começou a narrar saborosos causos como o que o levou a tudo aquilo.

Ao falar da carta da moça de cinquenta e oito anos atrás, Artelírio percebeu o desconforto de seu correligionário. Boquiaberto, padre Amadeu balbuciou vocábulos quase inaudíveis. Esforçando-se para ouvir, o religioso entendeu os dizeres e constatou que a sua história poderia ser tudo, exceto singular.

Conservando a esperança de ser apenas uma vaga similaridade, padre Artelírio tirou o papel semissexagenário do bolso, exibindo-o ao confrade de batina, que, por seu turno, engoliu seco e deixou escorrer uma lágrima pelo canto esquerdo da face, que denotava a sua amargura aflitiva, confirmando com um leve aceno de cabeça que recebera a mesma carta com idêntica letra, também há cinquenta e oito anos.

Assustados, os dois clérigos seguiram juntos as entrevistas da lista de padre Artelírio. E, um por um, foram descobrindo que todos os doze colegas septuagenários, provenientes da mesma interiorana vila, eram detentores de exemplares iguais: mesma escrita, mesmo tom amarelado no papel, mesma tinta de caneta... sendo que nenhum deles conheceu a autora, mas todos obedeceram, emocionados com o teor pessoal e místico da mensagem.

Procedendo às investigações, conceberam os sacros indivíduos que a "moça" que redigiu as doze cópias era o ex-prefeito Anselmo, falecido há pouco mais de duas décadas. Este foi o seu pueril - porém precoce - plano para ver-se livre dos doze moços mais bonitos do único grupo escolar da pequena cidade. Sabia Anselmo que o seminário mais próximo distava centenas de quilômetros dali e que, longe da concorrência, seria a única opção da primogênita do coronel Arlindo.

Artelírio picou as doze réplicas e com elas enrolou noventa e seis bolinhas de papel. Deu doze passos em sentido contrário ao cálice, virou-se de costas e atirou-as todas para trás. A maioria, como era de esperar-se, caiu fora do recipiente, mas algumas poucas caíram dentro. Desta forma, não precisava ser Deus para acertar...

Olhando em direção ao sol, um número elevado à potência de tredecilhões de dígitos veio à reflexão de Artelírio. Este emblema matemático imaginado correspondia à quantidade de planetas-bolinhas que o acaso jogara no cosmo.

 

Marcelo Garbine

 

 

 

 

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